O último refugiado yazidi em Portugal continua à espera. Mas, desta vez, tem boas notícias

O refugiado Saman Ali vive há meses à espera de um desfecho para o seu processo. E chegou a escrever ao Presidente da República. Nesta semana, foi-lhe garantida autorização de residência provisória e uma entrevista para analisar a obtenção do estatuto de refugiado.

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Os yazidi são uma minoria religiosa de origem curda que têm sido alvo de perseguições pelo Daesh Nelson Garrido
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O iraquiano Saman Ali, de 34 anos, chegou a Portugal em Março deste ano. Agora, enquanto espera que lhe seja concedido o estatuto de refugiado, recebeu uma concessão de autorização de residência provisória, válida até 15 de Novembro. Além disso, Saman Ali foi ainda convocado para uma entrevista em Braga para serem recolhidas declarações “que fundamentam as suas pretensões e necessidade de protecção internacional”. Está, portanto, tudo encaminhado para que possa permanecer no país, dando descanso às preocupações burocráticas que o têm assolado nos últimos meses.

Saman Ali é o último refugiado yazidi que resta em Portugal de um grupo que chegou ao país em Março, ao abrigo de um programa de recolocação. Foi o único que veio sozinho e, dos 24 membros da comunidade yazidi acolhidos, já só resta ele; as outras seis famílias (oito mulheres, sete homens e nove menores) foram para outros países.

A 6 de Maio, contou ao PÚBLICO que estava havia cerca de dois meses a aguardar pelo reconhecimento do estatuto de refugiado. Mas que começava a desesperar: “Um dia para mim é como um ano", disse então. Tinha autorização de residência por apenas mais uns dias. Não sabia o que ia acontecer.

Sentia que vivia “numa prisão” e que gostaria de poder viajar para tentar resgatar o dinheiro da família, que afirma ser de cerca de um milhão de dólares. Mas sem a situação regularizada não era possível. Saman Ali pretende ainda fazer o doutoramento em Portugal e tem planos para ajudar pessoas que, tal como ele, “perderam tudo”. Na altura, pedia um desfecho para o seu processo burocrático e chegou até a escrever uma carta aberta a Marcelo Rebelo de Sousa.

A autorização provisória que agora lhe foi concedida dá o direito ao “acesso ao emprego, cuidados de saúde e prestações sociais”. A casa onde vive em Azurém, Guimarães, foi-lhe cedida pela autarquia e recebe, por mês, 150 euros.

Para além da autorização de residência provisória, Saman Ali foi também convocado para uma entrevista no último dia de Maio, na delegação regional de Braga do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) para prestar declarações sobre os motivos pelos quais pretende obter protecção internacional. Depois, terá de aguardar pela decisão final para saber se o estatuto de refugiado que lhe concederá cinco anos de protecção internacional será, ou não, aprovado.

Em respostas enviadas ao PÚBLICO em Abril, o SEF escrevia que “para a obtenção do estatuto de protecção internacional, apenas relevam os motivos que levaram o requerente a abandonar o país de origem”.

Saman Ali é yazidi, uma minoria religiosa de origem curda que tem sido alvo de massacres e perseguições brutais pelos apoiantes do Daesh. “O Daesh não tolera a nossa religião nem a nossa nação”, explicou ao PÚBLICO em Março, à chegada ao aeroporto de Lisboa, de onde seguiria para o seu novo berço, em Guimarães. Contou ainda que partiu do Iraque para a Turquia “a pé e, às vezes, de carro” e depois para a Grécia, onde viveu cerca de um ano em campos de refugiados e residências de acolhimento. “Não sei o que aconteceu à minha família, pai, mãe, dois irmãos e duas irmãs”, contou no início deste mês.

“Serei um bom cidadão para Portugal, e respeitarei a lei”, escreveu Saman Ali num email enviado ao PÚBLICO nesta sexta-feira, adiantando ainda que nutre grande carinho pelos portugueses. Antes de abandonar o seu país, o iraquiano era professor. Tem um bacharelato em Medicina Veterinária e um mestrado em Biologia; em Guimarães, afirma que passa grande parte dos dias a aprender a falar português.

Saman é um dos mais de 1300 refugiados que chegaram ao país vindos da Grécia e Itália no último ano e meio, segundo os dados mais recentes divulgados pela ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa. Alguns já saíram do país: durante esse tempo, foi comunicado ao SEF que houve 555 abandonos, o que significa que pelo menos 42% dos recolocados se deslocaram para outros países europeus.