Os alunos também têm propostas para combater a corrupção

Partilha, valores, recusa são algumas das “armas” apresentadas para travar a corrupção.

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Concurso Imagens contra a Corrupção destina-se a escolas do ensino básico e secundário Jornal Publico

Começou com uma brincadeira na aula de Português por causa da moda das calças rasgadas e acabou por evoluir para um vídeo que foi um dos vencedores do concurso Imagens contra a Corrupção, cujos prémios serão entregues nesta sexta-feira em Lisboa.

O concurso é promovido pelo Conselho de Prevenção da Corrupção, um organismo ligado ao Tribunal de Contas, e tem como destinatários as escolas do ensino básico e secundário. Foram apresentadas cerca de 120 candidaturas, das quais sete foram distinguidas.

É o caso da escola EB 2/3 Jacinto Correio de Lagoa, Algarve, que ganhou na categoria do 2.º ciclo, com um vídeo elaborado por uma turma do 6.º ano de escolaridade, nível onde os alunos têm entre 11 e 12 anos, que fala de um país, “num tempo não muito longínquo”, onde todos os dias são cinzentos e que é governado pela Dona Corrupção e o seu marido Sr. Dinheiro.

Os seus habitantes são a tristeza, a pobreza, o medo, o trabalho árduo, até que chegam uns forasteiros com nomes como união e justiça que acalentam os habitantes a substituir a ganância pela partilha, o que levou até a que a Dona Corrupção fizesse um lifting para se tornar em Dona Igualdade.

No vídeo só aparecem pés, uma forma de contornar a objecção de vários pais a que os seus filhos fossem filmados, conta a professora de Português, Sílvia Paixão, que acompanhou todo o projecto. O argumento foi escrito nas suas aulas a partir de ideias apresentadas pelos alunos.

Para além da brincadeira das calças rasgadas, o ponto de partida para esta história teve na base a “observação da realidade da escola, onde muitos miúdos têm fortes carências económicas”, relata a professora bibliotecária, Isabel Rosa, que também acompanhou a iniciativa. E desta observação saiu também a pergunta se será mesmo inevitável que para uns estarem bem, outros têm de estar pior. Os alunos de Lagoa, que esta sexta-feira estarão em Lisboa para receber o prémio, responderam pela negativa.

"Criação de espaços de reflexão"

Com este concurso, que vai na quinta edição, o Conselho de Prevenção da Corrupção pretende “contribuir para a criação de espaços de reflexão dentro da comunidade escolar e na sociedade, sobre esta temática”. “A prevenção da corrupção e a educação para os valores e para a ética, são matérias relevantes para conseguirmos uma cidadania de qualidade”, frisa o conselho.

E é também esta mensagem que chegou do 7.º ano de escolaridade do Externato Infante D. Henrique, em Braga, que recebeu dois prémios: um na categoria do 3.º ciclo e outro na do ensino secundário. Dos alunos mais novos veio a proposta de uma sopa de valores feita de verdade, transparência, responsabilidade e honestidade, para que a cidade não fique toda a perder quando um dos seus foge às suas obrigações de cidadão, o que pode passar por não pagar impostos ou pedir favores e cunhas.

"Para muitos deles foi quase a primeira vez que ouviram falar de corrupção e associavam-na apenas ao futebol e à política", conta o professor de Educação Moral e Religiosa Católica, Filipe Pereira, que foi o responsável do projecto. Durante seis aulas houve 20 minutos para debater o tema e "desconstruir as ideias feitas" que existem em seu torno. Foi a preparação para o trabalho que resultou todo ele de "ideias apresentadas pelos alunos", diz aquele docente.

Já os alunos do 12.º ano deste externato questionaram as razões pelas quais “a nossa sociedade continua a andar para trás” e encontraram uma das respostas nos “truques” que muitos fazem para obterem benefícios pessoais. Para estes alunos, mudar esta realidade exige uma resposta colectiva. Afirmam o seguinte: “Quando todos acabarmos com os truques é a corrupção que vai andar para trás”.  

O concurso é também aberto aos alunos do 1.º ciclo de escolaridade, com idades que variam entre os seis e os 10 anos. Em vez de vídeos os alunos são convidados a fazerem um trabalho de artes plásticas. Os estudantes do 4.º ano do agrupamento de escolas Poeta António Aleixo, de Portimão, foram os vencedores com uma ilustração que propõe “a receita para acabar com a corrupção”. Quais são os ingredientes? Ouvir, observar, falar.