Candidaturas independentes já são a quarta força autárquica, que tende a crescer

Presidente da Associação Nacional dos Movimentos Autárquicos Independentes prevê aumento do número de candidaturas de grupos de cidadãos eleitores nas autárquicas deste ano.

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Candidatura de Marco Almeida em Sintra terá, desta vez, o apoio do PSD jsb Joana Bourgard
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Rui Moreira diz que ser independente "está na moda" PAULO PIMENTA
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Narciso Miranda vai voltar a candidatar-se como independente, como em 2009, quando foi eleito vereador LUIS EFIGENIO / NFACTOS

As candidaturas lideradas por grupos de cidadãos eleitores, que chegaram à posição de quarta força política nas últimas eleições autárquicas, vieram para ficar e tudo aponta para que o fenómeno continue a crescer. Pelo menos enquanto as candidaturas independentes continuarem a ser uma saída possível para políticos inconformados com o facto de a sua candidatura com a chancela do partido de origem não ter sido permitida pelas respectivas direcções.

Quatro anos depois de terem conquistado a presidência de 13 municípios portugueses, os movimentos de grupos de cidadãos que, na maioria dos casos, são liderados por ex-autarcas que se incompatibilizaram com os partidos em que militavam, querem ganhar mais autarquias. E o presidente da Associação Nacional dos Movimentos Autárquicos Independentes (Amai), Aurélio Ferreira, eleito vereador na Marinha Grande em 2013, acredita que há condições para as candidaturas de grupos de cidadãos poderem conquistar mais votos nas eleições do próximo Outono: “Estão mais próximas das pessoas, dos concelhos, das freguesias”, argumenta.

Ao PÚBLICO, revela que “há novos movimentos de cidadãos eleitores a emergir e que nestas eleições haverá mais candidaturas fora da esfera dos partidos do que em 2013”. “As pessoas identificam-se cada vez menos com o modus operandi dos partidos e esse descontentamento traduz-se no aparecimento de mais candidaturas independentes”, assinala, revelando que ainda na semana passada recebeu “muitos contactos de pessoas, de vários concelhos, interessadas em se constituírem alternativa aos partidos”.

Aos resultados alcançados há quatro anos por estes movimentos de cidadãos juntou-se o simbolismo de uma lista independente, liderada por Rui Moreira, ter vencido a presidência da segunda autarquia do país. Para o presidente da AMAI, o exemplo e também o sucesso desta candidatura abrem caminho ao aparecimento de novos movimentos. “Os bons exemplos são para serem catapultados”, diz.

O independente Rui Moreira, que nas últimas autárquicas liderou a lista do movimento O Nosso Partido é o Porto, disse ao PÚBLICO que, agora, “ser independente está na moda”.

Nas próximas eleições locais que, em princípio, se realizarão em Outubro, uma das candidaturas independentes com um percurso mais mediático e que vão concentrar as atençóes é a de Marco Almeida, em Sintra: nasceu de uma dissidência com o PSD, Pedro Passos Coelho vetou o nome de Marco Almeida para candidato em 2013; este quase ganhou a câmara e impôs-se fora da alçada do partido; e agora é o mesmo PSD que prescinde de apresentar lista própria e opta por integrar o grupo dos apoiantes do vereador independente, que volta a tentar conquistar a presidência da Câmara de Sintra.

Mas Sintra não é uma caso isolado no mapa autárquico. O candidato do PSD à Câmara de Anadia, Litério Marques, era há quatro anos um dos principais rostos do movimento independente Anadia Primeiro. Tinha sido militante do PSD e presidente da câmara durante longos anos. Em 2013, impedido por lei de se recandidatar ao cargo, não concordou com o candidato à sua sucessão escolhido pelo PSD. E ajudou a fundar o Anadia Primeiro, que venceu as eleições. Em 2017, afasta-se do movimento, rompe com a presidente da câmara que ajudou a eleger, e da qual foi vereador, e volta a ser o candidato oficial dos sociais-democratas.

Em Matosinhos, Narciso Miranda, que liderou a câmara durante quase três décadas, já anunciou que em 2017 volta a tentar a reconquista da câmara como independente, como já tinha feito em 2009.

Oeiras em aberto

Já em Oeiras, o processo ainda não está fechado. Isaltino Morais, que liderou a câmara de 1985 a 2002, eleito pelo PSD, e que voltou a presidir ao executivo municipal como independente, de 2005 a Abril de 2013 - quando começou a cumprir a pena de dois anos de prisão a que foi condenado pelo crime de fraude fiscal - continua em silêncio, e os sociais-democratas ainda não decidiram se apoiam o independente Paulo Vistas (ex-vice-de Isaltino) que se recandidata a um segundo mandato. No lote de nomes de candidatos a apoiar que foram aprovados há dias pela Comissão Política Nacional do PSD há mais um independente: Miguel Bouça, ex-presidente da Associação Comercial e Industrial da Bairrada, que se candidata à Câmara de Águeda.

Narciso Mota, um dos dinossauros do PSD, está de regresso, mas vai candidatar-se como independente. O ex-presidente social-democrata e actual líder da Assembleia Municipal de Pombal vai disputar com Diogo Mateus, do PSD, a presidência da câmara que liderou durante 20 anos.

A norte, os casos mais mediáticos de dissensões que deram origem a candidaturas independentes são os de Barcelos e Vizela, ambos no distrito de Braga, ambos envolvendo socialistas. O confronto nos dois concelhos faz-se entre os actuais presidentes das câmaras, respectivamente Miguel Costa Gomes e Dinis Costa, ambos do PS, e os seus ex-vice-presidentes Domingos Pereira e Vítor Hugo Salgado, que concorrem como independentes.

Domingos Pereira, que militou no PS durante quase três décadas, faz desta pugna eleitoral um dos grandes combates da sua vida. Há um mês demitiu-se da presidência da concelhia do PS de Barcelos, após o que renunciou ao lugar de deputado na Assembleia da República, para se dedicar em exclusivo à candidatura à câmara.

No distrito de Coimbra, o clima de crispação instalado no PS de Góis levou a actual presidente da câmara, Lurdes Castanheira, a retirar há muito tempo a vice-presidência a José Rodrigues. Em guerra aberta com Castanheira, o vereador socialista anunciou na semana passada a sua candidatura à presidência do município patrocinada por um grupo de cidadãos eleitores.

Também a norte, o ex-deputado democrata-cristão Abel Baptista protagoniza uma candidatura independente em Ponte de Lima, contra o actual presidente, Vitor Mendes, que se recandidata e que foi a escolha da líder do CDS, Assunção Cristas.

Em Coimbra, os eleitores podem vir a ter duas ou três candidaturas fora da esfera dos partidos no boletim de voto. O ex-bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, já assumiu a sua candidatura e o movimento Cidadãos por Coimbra, que em 2013 elegeu um vereador, José Augusto Ferreira da Silva, está em processo de escolha do candidato.

Peniche tem já uma candidatura assumida, liderada pela advogada Márcia Henriques, para a câmara, mas o presidente da Associação Nacional dos Movimentos Autárquicos Independentes, Aurélio Ferreira, admitiu ao PÚBLICO que pode surgir uma outra lista de cidadãos eleitores a disputar a presidência do município. O presidente da Amai, aliás, está de novo na corrida autárquica para a Câmara da Marinha Grande, onde já é vereador sem pelouros.

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