Abel Baptista só se desfiliará do CDS “se o partido o mandar embora”

Não é a primeira vez que um militante de um partido se desfilia e se candidata a uma autarquia contra o próprio partido. Em 2017, o CDS já tem pelo menos um adversário deste tipo. De novo em Ponte de Lima.

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Abel Baptista com Paulo Portas na campanha de 2009 Fernando Veludo/NFactos

O ex-deputado do CDS-PP, Abel Baptista, vai apresentar-se como candidato independente à Câmara de Ponte de Lima, o bastião autárquico do partido, desafiando Assunção Cristas que prefere renovar a candidatura do actual presidente do município. O antigo dirigente e deputado na bancada do CDS nos últimos 11 anos disse ao PÚBLICO estar tranquilo sobre a sua decisão: “Se o partido não me quiser terá de me mandar embora, mas eu não mando embora o meu partido”.

O anúncio da candidatura às eleições autárquicas de Outubro de 2017 acontece amanhã, em Ponte de Lima, onde Abel Baptista terá ao seu lado “alguns amigos”. O candidato diz-se disponível para receber o apoio de forças políticas e de outras pessoas que sejam “válidas e úteis para o concelho”, independentemente da sua filiação partidária. “Se os partidos entenderem que a minha candidatura vai ao encontro das suas expectativas de gestão autárquica o apoio será bem-vindo”, afirmou, adiantando que, para já, tem ao seu lado pessoas que estão ligadas ao PS, ao PSD e até ao CDS. Daniel Campelo, o histórico presidente centrista da Câmara de Ponte de Lima, foi uma das pessoas que Abel Baptista ouviu, mas que não está envolvido na candidatura.

Com quase quatro décadas de vida partidária activa no CDS (e na Juventude Centrista), Abel Baptista contraria a decisão da líder do partido, que lhe comunicou a preferência pelo actual presidente de Ponte de Lima, Vítor Mendes, como candidato a um terceiro mandato nas autárquicas. Uma escolha que não esperou pela posição da concelhia de Ponte de Lima a que Abel Baptista presidia. “Não fui respeitado institucionalmente e por isso devolvi todos os cargos partidários mas não deixei de acreditar nos princípios do CDS. Não sou um cristão-novo no partido”, afirmou. O antigo autarca não vê necessidade de se desfiliar do CDS, depois de ter saído de todos os órgãos internos e de ter renunciado, em Setembro passado, ao mandato de deputado. E teme um processo de expulsão? “Não temo nada, se se vier a verificar cá estarei, mas não deixei de acreditar nos valores democratas-cristãos e nos estatutos que não mudaram. Se o partido não me quiser terá de me mandar embora, mas eu não mando embora o meu partido”. Apesar de o anúncio ser feito à revelia da direcção do CDS, Abel Baptista garante que a candidatura “é por e não contra, é pelo concelho”.

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Em poucas semanas é o segundo centrista que se apresenta como independente. Paulo Caiado, vereador do CDS em Oliveira do Bairro, vai protagonizar uma candidatura independente àquela câmara municipal, depois de ter anunciado a desfiliação do partido.

O PÚBLICO contactou Assunção Cristas, mas a líder do CDS não quis fazer comentários. 

Com 52 anos, Abel Baptista é funcionário autárquico e jurista de profissão. Já foi vereador, presidente da Assembleia Municipal e vice-presidente da câmara de Ponte de Lima. Acredita ter condições para disputar a autarquia que sempre foi do CDS desde o 25 de Abril. Curiosamente, a câmara só foi liderada por um independente que era o próprio Daniel Campelo, quando foi suspenso do partido, na altura liderado por Paulo Portas, depois de ter viabilizado, enquanto deputado, um Orçamento do Estado do Governo socialista de António Guterres. O facto de a maioria da população não ser filiada em nenhum partido dá ânimo ao candidato. “Nas legislativas, Ponte de Lima nunca foi do CDS, mas sempre soube escolher as pessoas para a autarquia. Sempre tivemos presidentes com grande visão, o que agora não acontece”, afirmou. A actual gestão é criticada não só pela “falta de visão estratégica”, mas também pelo “total abandono na área económica” e pelas “intervenções na zona histórica de péssima qualidade”.

O actual presidente tem a maioria absoluta, com cinco vereadores e dois da oposição (um do PSD e outro eleito por um movimento independente), depois de ter perdido um vereador nas autárquicas de 2013. O CDS tem a liderança noutras quatro câmaras – Albergaria-a-Velha, Vale de Cambra, Velas nos Açores, Santana na Madeira – e partilha o poder com o PSD em 22 municípios. Assunção Cristas já assumiu que as autárquicas são eleições “difíceis” e justificou em parte a sua candidatura a Lisboa com a necessidade de mobilizar o partido para esse teste eleitoral.

Depois de o anúncio deste sábado, o candidato espera pela conclusão da legislação sobre os movimentos independentes – que vai ser alterada no Parlamento – para iniciar a recolha de assinaturas e de financiamento.