Macedo suaviza plano Domingues. O que muda nos balcões da Caixa

Marcelo, Costa e Centeno garantem que todos os concelhos terão balcão da CGD. Macedo já adequou o plano. E promete não despedir ninguém.

A intenção é manter um balcão da Caixa em cada concelho
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A intenção é manter um balcão da Caixa em cada concelho PAULO PIMENTA

A pressão política entrou em campo e Paulo Macedo não tardou em alterar os critérios que tinham sido decididos por António Domingues, para atingir os objectivos negociados com Bruxelas. Acabando com critérios puramente economicistas, a Caixa Geral de Depósitos vai, afinal, manter-se em todos os municípios, ainda que possa encerrar balcões em algumas sedes de concelho, soube o PÚBLICO. 

No novo critério de encerramento de agências, cuja lista será conhecida brevemente, foram ponderadas as distâncias em relação aos balcões da CGD mais próximos, na tentativa de minimizar o impacto onde não existem outros serviços bancários, e também a natureza do país (rede viária, facilidade de acesso, etc). Na Caixa, chamam a isto ter em conta o país real. Seguindo o mesmo critério, nas zonas não urbanas a CGD manterá áreas de self-banking, como caixas automáticas. Com a promessa de que todos os colaboradores dos balcões a encerrar serão recolocados.

No fim das contas, o novo presidente da Caixa terá que chegar (grosso modo) ao mesmo objectivo que tinha apontado pelo seu antecessor. É que o plano de reestruturação não pode ser posto em causa. 

Segundo o plano de reestruturação acordado com a Comissão Europeia, a CGD fechará cerca de 25% dos balcões abertos ao público (com funcionários a atender clientes), passando de 651 para 470 ou 490 daqui a três anos. Já este ano o plano da CGD é de fechar 70 balcões, cerca de 50 no final deste mês e os restantes até final do ano.

A pressão política

A Comissão dos Trabalhadores (CT) do banco reúne-se nesta terça-feira com o grupo parlamentar do PCP, na Assembleia da República, e uma das preocupações que levará ao encontro será precisamente o fecho de cerca de 200 agências que o banco público irá promover até 2020.

Segundo o coordenador da estrutura representativa dos trabalhadores, Jorge Canadelo, tem sido difícil aceder à lista de balcões a fechar, apesar de já terem sido noticiados na imprensa, e a informação de que dispõe é de que está a haver uma “reavaliação da lista”, o que considera estar ligado com a “movimentação da opinião pública e do poder político” nas últimas semanas. 

Depois das notícias de que o combate ao fecho de balcões da Caixa junta esquerda e direita, o Presidente da República manifestou-se convicto de que a Caixa manterá presença em todos os concelhos do país e afirmou que essa é uma preocupação do Governo. "Tenho a convicção de que se chegará a uma solução que permitirá reduzir a presença da instituição no país, mas mantê-la presente em todo o território português em termos concelhios", declarou Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas, no final de uma visita a uma exposição sobre a presença judaica em Portugal, na Torre do Tombo, em Lisboa.

Questionado se tem alguma garantia de que não haverá nenhum concelho sem uma agência da CGD, o chefe de Estado respondeu: "Estou a acompanhar isso com interesse e sei que o Governo também está muito empenhado nisso". "O que eu estou a dizer é que há essa preocupação da parte do Governo - eu já tinha falado nela, aliás, há talvez quinze dias - que é de reduzir o que é hoje uma estrutura muito ampla e muito pesada, por razões que têm a ver com o plano aprovado em Bruxelas e em Frankfurt, mas ao mesmo tempo manter uma presença nos vários concelhos, para não quebrar uma ligação que é uma ligação histórica com a população portuguesa", acrescentou.

Mais parco em explicações, o chefe do Governo, António Costa, recordou que o plano de reestruturação da CGD prevê a presença do banco público em todo o país e salientou que o Executivo não se substituirá à administração, colocando em causa a liberdade de gestão. Já o ministro Mário Centeno afirmou, em Bruxelas, estar “completamente seguro” de que todos os portugueses terão acesso a serviços bancários da CGD mesmo depois da reestruturação da rede de agências.

Desde há semanas que os encerramentos têm provocado contestação do poder político local, como são os casos de Almeida, no distrito da Guarda, Marvão, no Alto Alentejo, freguesia do Teixoso, na Covilhã, Santa Margarida, concelho de Constância, e Golegã, ambas no distrito de Santarém.

Fonte do Sindicato dos Trabalhadores do Grupo Caixa já tinha dito à Lusa que estão preocupados com encerramento de balcões sobretudo nos casos de sedes de concelho e também adiantou que está previsto o fecho do balcão das Lajes do Pico, nos Açores. Entretanto, mais recentemente e a nível nacional, PCP, Bloco de Esquerda e "Os Verdes" mostraram preocupação quanto a estes encerramentos, que contam com a oposição do PSD. 

Em 10 de Março, aquando da apresentação de resultados do banco referentes a 2016, o presidente executivo da CGD, Paulo Macedo, disse aos jornalistas que a Caixa tem noção de que deve “prestar o serviço público” e que “vai ter isso em atenção” nos fechos programados, mas também considerou que não pode ser esta a ficar onde outros bancos não querem.

"Ninguém peça à CGD para ficar em todos os sítios onde os outros bancos não querem ficar. Se isso acontecesse, então a Caixa não saía dos seis anos de prejuízos que teve", afirmou.Ainda assim, Macedo mostrou-se já então disponível para estudar a manutenção, mesmo que a tempo parcial, de algumas das agências que deveriam encerrar.

Contudo, a reavaliação da lista de agências a fechar não deverá trazer grandes alterações uma vez que esta foi negociada com Bruxelas pela anterior administração do banco público, liderada por António Domingues, e é uma das contrapartidas acordadas para que a recapitalização da CGD que está a decorrer, num montante superior a 5000 milhões de euros, não seja considerada ajuda de Estado.

A CGD apresentou prejuízos históricos de 1.859 milhões de euros o ano passado, dez vezes mais que os resultados negativos de 171 milhões de euros de 2015, o que foi justificado pela constituição de novas imparidades (perdas potenciais, sobretudo para crédito) num montante superior a 3000 milhões de euros. com Lusa