Papa em Monte Real dá gás aos defensores da aviação civil na base militar

A vista do Papa Francisco a Fátima em Maio, utilizando a Base Aérea de Monte Real, é vista pelos empresários e políticos locais como um forte argumento a favor a abertura da infraestrutura à utilização civil.

Também Paulo VI em 1967 e João Paulo II em 1982 usaram a base aérea de Monte Real nas suas deslocações a Fátima.
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Também Paulo VI em 1967 e João Paulo II em 1982 usaram a base aérea de Monte Real nas suas deslocações a Fátima. DR

Na sua visita relâmpago a Fátima (onde estará menos de 24 horas) o Papa vai utilizar a Base Aérea de Monte Real onde aterrará o avião da Alitália que transporta o Sumo Pontífice nas suas deslocações ao estrangeiro. Para a Igreja esta foi a opção óbvia, dado que este é o aeroporto mais próximo do Santuário – o Papa deverá depois ser transportado de helicóptero até ao campo de futebol de Fátima – e tendo em conta o histórico de visitas papais. É que também Paulo VI em 1967 e João Paulo II em 1982 usaram o aeroporto de Monte Real nas suas deslocações a Fátima.

“Isto prova que a base aérea deveria ser estudada como alternativa ao Montijo”, diz Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro, que se considera “um acérrimo defensor” da abertura de Monte Real à aviação civil. O responsável diz que no domínio das políticas de coesão nacional faz todo o sentido considerar esta possibilidade porque há uma imensa faixa do território entre Lisboa e Porto, com grande densidade populacional que viabilizaria este aeroporto.

Já Jorge Cordeiro Santos, presidente da NERLEI – Associação Empresarial da Região de Leiria, diz que “esta utilização pontual do aeroporto só prova que esta infraestrutura está preparada para receber aviões civis” e que os investimentos para abrir Monte Real à aviação comercial “não são muito elevados”.

Este empresário recorda os seis a sete milhões de visitantes anuais a Fátima e o crescimento potencial do turismo religioso como uma boa razão para considerar aquele aeroporto para tráfego civil, para além de, num raio de 100 quilómetros, existir uma população de dois milhões de habitantes concentrada em Leiria, Marinha Grande, Coimbra e Figueira da Foz.

Ao contrário de Pedro Machado, o presidente da NERLEI considera que Monte Real “não é uma alternativa a Lisboa nem ao ‘+ um’ da Portela”. Pelo contrário, “representa um crescimento do mercado com uma oferta nova para uma procura nova”. Por isso, diz, “não contestamos o Montijo nem qualquer solução para Lisboa porque a nossa distância é suficientemente longe para que alguma vez sejamos alternativa à Portela”.

Jorge Cordeiro Santos chama ainda a atenção que o turismo na região Centro não tem crescido tanto como no Norte, em Lisboa e no Algarve. E isso, diz, deve-se à falta de uma infraestrutura aeroportuária na região. “Os aeroportos de Lisboa, Porto e Algarve não se estão a canibalizar uns aos outros”, faz notar.

O lóbi de Monte Real tem décadas e teve um ponto áureo em Maio de 2011 quando 300 pessoas do Centro e Oeste do país realizaram um encontro naquela localidade sob a égide do Fórum Centro, uma entidade que defendia a abertura da base aérea ao tráfego civil. O seu líder, Manuel Queiró, hoje presidente da CP, também nada tem contra o Montijo nem opõe Monte Real a Lisboa. Em declarações PÚBLICO, diz que “a escolha da localização do Montijo para o aeroporto de voos low cost é de aplaudir, por inviabilizar o gigantismo megalómano de um aeroporto para todo o país”. Considera assim que “ficou aberto o caminho para infraestruturas dimensionadas para serviço de proximidade, das quais Monte Real é a que mais hipóteses apresenta”.

Alerta, no entanto, que só mercado, o interesse dos privados “poderá ser o teste positivo da viabilidade desse aeroporto”. Em 2012, Manuel Queiró disse que houve um grupo brasileiro interessado em investir 200 milhões em Monte Real, mas que desistiram da ideia porque não foram, à época, recebidos pelo governo.

Contactado pelo PÚBLICO, o Ministério das Infraestruturas e do Planeamento, limitou-se a responder que “o Governo considera que o debate sobre a eventual utilização civil da Base Aérea de Monte Real não deve ser concomitante com o projecto actualmente em curso na Base Aérea do Montijo, pelo impacto que tal perspectiva teria na operacionalidade das Forças Armadas”.

Raul Castro, presidente da Câmara de Leiria e um dos principais defensores do aeroporto civil a escassos quilómetros da sua cidade, não quis falar ao PÚBLICO. Mas mais a sul, na região Oeste, a passagem do Papa por Monte Real a 12 e 13 de Maio fez ressurgir o debate e o entusiasmo pelo aeroporto, tendo em conta sobretudo o potencial da região ao nível turístico. Walter Chicharro, presidente da Câmara da Nazaré diz que o município aprovou uma petição pública a favor de Monte Real e que sendo o seu concelho um destino turístico, “só terá a beneficiar com a facilidade de acesso, assegurada por um aeroporto tão próximo”.

Em sintonia está Tinta Ferreira, presidente da Câmara das Caldas da Rainha. “Reconheço a mais-valia que esta infraestrutura pode trazer para a economia de toda a região Centro, em especial para o turismo e para o sector dos transportes de pessoas e mercadorias. O autarca diz ainda que “a utilização da base aérea de Monte Real criaria alternativas a Lisboa e Porto para as pessoas e empresas, em especial se pudesse ser utilizada em intermodalidade com uma linha do Oeste modernizada e electrificada”.