Dos “grandes desafios” à ausência de “outra oportunidade” para a CGD

Paulo Macedo, o novo CEO do banco público, escreveu uma carta aos trabalhadores, referindo-se à recapitalização.“Se falharmos, dificilmente nos será dada outra oportunidade equivalente”, disse. Cinco meses antes, foi a vez de António Domingues falar de "grandes desafios".

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"A capitalização e reestruturação da Caixa é uma grande oportunidade que nos é dada”, notou Macedo em carta aos trabalhadores Daniel Rocha

Em cinco meses, o que mais mudou na Caixa Geral de Depósitos (CGD) de forma visível foi mesmo o rosto da gestão, agora liderada por Paulo Macedo (tendo Rui Vilar como presidente do conselho de administração), em substituição de António Domingues.

Pelo meio, o ex-gestor do BPI resignou ao cargo entre muita polémica (essencialmente política) por causa da não divulgação da declaração de rendimentos (a sua e as da sua equipa), e o processo de recapitalização de 5100 milhões de euros começou a tomar forma. E, nesse espaço de tempo, os trabalhadores da CGD receberam duas cartas de diferentes administrações: a de António Domingues, a 1 de Setembro, e a de Paulo Macedo e de Rui Vilar, datada de ontem.

As missivas são parecidas no essencial, no tamanho e no conteúdo, com mensagens de incentivo para, num espírito de equipa, trilhar um rumo de recuperação do banco estatal numa conjuntura adversa. Nos dois momentos, destaca-se o peso do banco na economia nacional, mas é nos pormenores que se notam as diferenças entre Domingues e Macedo, e a forma como olham para o banco.

António Domingues, que trabalhou sempre na banca privada, apostou num tom mais técnico e explicativo dos desafios do negócio, e focou muito o seu discurso no cliente (escrevendo, aliás, “Cliente” em maiúscula). Já Paulo Macedo, que assina a carta de ontem com Rui Vilar, assume-se de forma inequívoca como o gestor de uma empresa financeira detida a 100% pelo Estado. “A capitalização e reestruturação da Caixa é uma grande oportunidade que nos é dada”, nota Macedo, que se mostra convicto de que o banco saberá dar uma “resposta efectiva ao que nos é exigido pelo país, tributário primeiro de todo o nosso esforço” para depois acrescentar que existe, também, uma “grande responsabilidade”.

Investimento em "época de recursos escassos”

Isto porque, diz, “o país está a realizar um investimento na Caixa, numa época de recursos escassos”. E é aqui que a nova gestão do banco estatal sublinha, de forma vincada, que “se falharmos, dificilmente nos será dada outra oportunidade equivalente”. Um olhar dos responsáveis do banco estatal que vai além da necessidade de “enfrentar grandes desafios” enunciada por António Domingues cinco meses antes.

De resto, há algo em comum entre as duas cartas: a ausência de referências explícitas à redução de pessoal e de balcões, em Portugal e não só. E esse será um dos maiores desafios imediatos de Paulo Macedo, até porque o encerramento de balcões arrisca-se a ter contornos políticos (com o processo a ter início em ano de autárquicas). Os planos passam por fechar entre 150 a 200 balcões nos próximos anos, e reduzir em cerca de 1600 pessoas o quadro de pessoal, até 2020, por via de reformas antecipadas.

Novos pelouros

Ao mesmo tempo que pensam na redução de custos, os novos responsáveis da CGD têm também de avançar o processo de recapitalização do banco, ligado ao reconhecimento de novas imparidades e melhoria do balanço. Já foram aplicados 1444 milhões de euros, faltando ainda as duas fases mais complicadas: a que implica ir buscar 1000 milhões ao mercado por via da emissão de obrigações subordinadas, e a que envolve a injecção directa 2700 milhões (com impactos nas contas públicas). De resto, Paulo Macedo e a sua equipa já estarão instalados nos gabinetes quanto a CGD apresentar as contas de 2016, e respectivos prejuízos.

Além de Rui Vilar, o anterior ministro da Saúde do PSD/CDS, antigo director-geral dos impostos e ex-administrador do BCP tem ao seu lado José João Guilherme (ex-BCP e Novo Banco, com a pasta da direcção de particulares e negócios, e algumas unidades internacionais); José Brito (já era da CGD, fica com áreas financeiras); Francisco Cary (vindo do Novo Banco, assume a pasta das empresas, Caixa BI e alguns unidades internacionais); João Tudela Martins (gestão e análise de risco); Maria João Carioca (ex-CGD, passou ao de leve pela Euronext Lisboa, tutela a direcção de acompanhamento de empresas e de negócio Imobiliário) e Nuno Martins (vindo das Finanças, fica com acompanhamento de particulares, e organização e qualidade). Com Paulo Macedo ficam áreas como auditoria interna, comunicação e assuntos jurídicos. Com Vitor Costa