Opinião

A pasokização do PSD

A “geringonça” veio para reinar no palco político onde antes a “pasokização” desempenhara um interessante papel secundário.

Há um par de anos, um espectro rondava a política portuguesa: era a “pasokização” do PS. Para quem não se lembra, o termo tinha origens no ex-grande partido socialista grego Pasok, que implodiu depois da sua participação em governos de austeridade, tendo sido ultrapassado à esquerda pelo Syriza. No PS, o medo da pasokização foi grande e era por vezes mencionado por dirigentes socialistas como uma das razões para evitar uma solução de bloco central no governo português.

Os tempos mudaram, as modas políticas também, e a “geringonça” veio para reinar no palco político onde antes a “pasokização” desempenhara um interessante papel secundário. Isso não quer dizer que o risco de pasokização tenha desaparecido completamente. Às vezes penso que foi simplesmente bater na porta ao lado. Hoje não é o PS, mas o PSD que se arrisca a entrar numa espiral descendente.

Alguns dirão que esta previsão é absurda. O PSD ainda é o partido com o maior grupo parlamentar. O PSD ainda é um partido com uma enorme influência autárquica. O PSD ainda tem cerca de 30% nas sondagens. A palavra operativa em todas estas frases é, contudo, “ainda”. Ora, o PSD está sobretudo ainda em estado de negação: tem pelo menos três problemas que ignora como resolver e faz mesmo por ignorar que existem.

O primeiro problema é que a chamada “geringonça”, apesar do nome faceto que se lhe arranjou, não é uma mera bizarria na história da política portuguesa. Trata-se de um daqueles eventos de que muito se fala e pouco se vê: uma mudança de paradigma que altera a forma como a partir de agora serão lidos os resultados eleitorais. Muitos o viram, mas só Paulo Portas teve interesse em dizê-lo de forma clara: nas próximas eleições o que passa a ser decisivo é saber qual família política — esquerda ou direita — tem mais deputados. Isso diminui a pressão para o voto útil dentro de cada bloco eleitoral e dá bastante mais liberdade, na direita, ao CDS. A sucessora de Paulo Portas, Assunção Cristas, tem usado essa liberdade para agir. Pedro Passos Coelho dificilmente consegue sequer reagir: só este fim de semana, com um atraso de meses, o líder do PSD afirmou que o seu partido terá um candidato próprio a Lisboa. É natural: o PSD tem mais a perder do que o CDS. Mas quem tem medo de perder também tem menos hipóteses de ganhar e mais probabilidades de se desgastar com o tempo.

O segundo problema está do outro lado, no PS. António Costa tem governado de forma hábil e garantido uma estabilidade que até a direita reconhece. Mais: não só reconhece, como aprecia. Para o eleitorado conservador que não gosta de mudar de primeiro--ministro, mas se sente distante de PCP e Bloco de Esquerda poderá haver, à medida que a legislatura avança, uma tentação para dar a António Costa uma maioria absoluta. Esse sentimento não será muito verbalizado, mas talvez comece já a ser visível nas sondagens e agravar-se-á quando se aproximarem novas eleições e o PSD não der mostras de poder recuperar a capacidade de formar governo.

O terceiro problema é o pior. O PSD não é conhecido hoje em dia senão por quatro anos de austeridade e a vontade mal disfarçada de que o diabo apareça para lhe dar razão contra o novo Governo. Isso não só é curto, como dá azo a sucessivas incoerências: veja-se o comportamento errático de Pedro Passos Coelho em relação à TSU. O célebre vazio ideológico do PSD não seria um problema tão grande nos tempos em que poderia preenchido pela sua razão-de-ser funcional: substituir o PS como um dos partidos do nosso rotativismo. No novo paradigma pós-geringonça, não chega. Ser conhecido acima de tudo por ontem ter querido ir “além da troika” e hoje anunciar a chegada do diabo não é bom cartão de visita para ninguém.

Dirão alguns que não há risco de pasokização do PSD — o que há, contraporão, é a realidade da passos-coelhização do PSD. Troque-se o líder e as coisas voltarão a entrar nos eixos. Mas os problemas do PSD, como vimos acima, são estruturais. Poderão não chegar para dar ao partido o destino do Pasok, mas deveriam ser suficientes para o fazer despertar e obrigá-lo a redefinir a sua missão na política e na sociedade portuguesa.