Portugal ainda não reconquistou investidores menos especulativos

Tesouro português conseguiu colocar sem problemas 3000 milhões de dívida nos mercados. Mas a taxa de juro é a mais alta para este tipo de operação desde Fevereiro de 2014.

Mercados estão a exigir taxas próximas de 4% na dívida portuguesa a 10 anos
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Mercados estão a exigir taxas próximas de 4% na dívida portuguesa a 10 anos Daniel Rocha

O grande objectivo foi atingido: num só dia, o Tesouro português conseguiu assegurar, com uma emissão sindicada de 3000 milhões de euros, 20% do financiamento que precisa de obter com obrigações durante todo o ano de 2017. E a procura quase foi o triplo do montante total colocado. No entanto, na operação realizada esta quarta-feira com o apoio de seis bancos, foi possível observar alguns sinais negativos.

O mais óbvio desses sinais está nas taxas de juro conseguidas. A emissão sindicada de nova série de obrigações do Tesouro com um prazo até Abril de 2017 encontrou nos mercados uma procura total elevada, de mais de 8500 milhões de euros, e as Finanças decidiram fechar a operação com a colocação de 3000 milhões de euros a uma taxa de juro de 4,227%.

Embora não seja surpreendente – já que no mercado secundário onde os investidores trocam os títulos entre si as taxas têm estado sempre próximas de 4% - esta taxa não pode deixar de ser vista com preocupação. Não só representa um valor bem mais elevado do que os 2,973% garantidos em Janeiro do ano passado na mais recente emissão sindicada de características semelhantes (quando foram colocados 4000 milhões de euros), como é a mais elevada numa emissão a 10 anos portuguesa desde Fevereiro de 2014, poucos meses antes da saída da troika.

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Para se perceber o que é que uma emissão de dívida com juros acima de 4% significam para as finanças públicas portuguesas basta ver que o actual custo médio da dívida portuguesa (os juros pagos em percentagem da dívida) se situam em 3,4%. Isto é, cada vez que Portugal faz uma emissão a este preço, vê o custo médio da sua dívida subir. E com juros a este nível, pode deixar de compensar, por exemplo, amortizar antecipadamente a dívida ao FMI.

Na descrição da operação feita esta quarta-feira pela Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública – IGCP, é evidente o esforço que foi feito pelo Tesouro para aproveitar ao máximo a procura que foi surgindo. Se numa fase inicial foi indicado que o diferencial das taxas de juro em relação ao benchmark poderia situar-se num intervalo entre 355 e 360 pontos percentuais (o que colocaria a taxa nos 4,3%), à medida que se foram surgindo as propostas de mais de 250 investidores num valor de 8500 milhões de euros, esse valor foi revisto para um intervalo entre 352 e 355 pontos. Isso só chegou no entanto para colocar a taxa nos 4,227%.

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O outro sinal negativo dado pela operação foi a manutenção de um perfil de investidores que não constitui uma garantia de estabilidade para os títulos de dívida pública portuguesa.

De acordo com os dados publicados pelo IGCP, aqueles que são geralmente classificados como investidores com um perfil mais especulativo, isto é que podem comprar e vender a dívida com mais facilidade de acordo com o ambiente do mercado, representaram 59,1% da dívida colocada esta quarta-feira. Os gestores de fundos de investimento foram responsáveis por 50,2% da procura e os hedge funds  mais 8,9%.

Entre os investidores considerados mais estáveis e menos dados à especulação, destacam-se os bancos, com 24,6% da colocação, as seguradoras e fundos de pensões, como 10,8% e os bancos centrais, com 5,3%. No total este grupo não passa dos 40,7%.

Estes números mostram que não se está ainda a assistir a um regresso dos investidores menos especulativos à dívida portuguesa e que, pelo contrário, aconteceu relativamente ao início do ano passado a um retrocesso. Na emissão sindicada realizada em Janeiro de 2016, os investidores não especulativos representaram 48,4% do total, contra 50,6% dos investidores classificados como especulativos.

A diferença é ainda maior quando se olha para o cenário anterior à chegada da troika a Portugal. Por exemplo, na emissão de dívida sindicada realizada no início de 2010, os investidores não especulativos estavam em clara maioria, representando 61% do total.

Antes de sair do país, esta era uma das preocupações da troika, que alertava para o que dizia ser um peso demasiado alto de investidores especulativos entre os detentores de dívida portuguesa, o que poderia fragilizar a situação do país em cenários de maior instabilidade nos mercados.

Nesta operação de emissão sindicada, os bancos escolhidos pelo Tesouro português foram o Novo Banco, BBVA, HSBC, JP Morgan, Morgan Stanley e Societé Générale. É habitual que, em emissões sindicadas, as taxas obtidas sejam ligeiramente superiores às praticadas no mercado secundário, porque não é usado o método de leilão competitivo, e que a dívida emitida seja maior do que nas emissões regulares. Os bancos mandatados pelo Tesouro encarregam-se de directamente encontrar investidores interessados em adquirir os títulos de dívida a uma determinada taxa de juro, o que faz com que o risco de falhanço da operação se reduza em troca de um custo ligeiramente maior.