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Israel recua na decisão de construir centenas de casas em Jerusalém Oriental

Netanyahu pediu adiamento da votação horas antes de um discurso de John Kerry sobre o conflito israelo-palestiniano, a fim de evitar agravamento de tensão com Washington.

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Netanyahu anunciara a construção de novas casas nos colonatos de Jerusalém em retaliação pela resolução aprovada sexta-feira na ONU Ahmad Gharabli/AFP

O primeiro-ministro israelita pediu ao município de Jerusalém que adiasse a aprovação de quase 500 casas em colonatos na zona oriental da cidade – uma medida que ele próprio anunciou na véspera como retaliação pela resolução aprovada dias antes no Conselho de Segurança da ONU. Benjamin Netanyahu quis evitar o agravamento da tensão com os Estados Unidos, horas antes de John Kerry, o secretário de Estado norte-americano, fazer um discurso – espécie de testamento da actual Administração – sobre aquilo que entende ter de ser feito para negociar a paz entre israelitas e palestinianos.

“Foi-nos dito que [a votação] foi retirada da agenda a pedido do primeiro-ministro”, revelou Hanan Rubin, um dos membros do Comité de Planificação e Construção do município de Jerusalém, que esta quarta-feira deveria dar o seu aval à construção de 492 casas nos colonatos de Ramat Shlomo et Ramot, na parte da cidade ocupada e anexada por Israel desde 1967. O conselheiro confirmou que a decisão visa “evitar um conflito com o Governo americano”, mas disse não saber se – ou quando – as novas construção vão ser votadas. “O primeiro-ministrp disse que apesar de apoiar a construção em Jerusalém ocidental, não quer inflamar ainda mais a situação”, acrescentou o responsável.

Este é o primeiro sinal de apaziguamento desde que, sexta-feira, os Estados Unidos se abstiveram na votação de uma resolução a exigir que Israel “cesse imediatamente todas as actividades de colonização” na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, sublinhando que a expropriação de terras e construção de bairros em territórios palestinianos “não tem validade legal” à luz do direito internacional e “põe perigosamente em risco a viabilidade da solução de dois Estados”, sobre a qual assenta o consenso internacional para a paz.

Israel garantiu, de imediato, que não iria cumprir a resolução, ameaçou deixar de financiar as Nações Unidas e Netanyahu mandou chamar os embaixadores dos 14 países que votaram a favor do diploma, informando-os de que iria reduzir as relações diplomáticas com as respectivas capitais. Indirectamente, foi ainda mais duro com Washington que, quebrando décadas de postura diplomática, permitiu com a sua abstenção que o país sofresse uma pesada derrota diplomática. Ron Dermer, embaixador israelita em Washington, disse que o seu Governo tem provas de que a actual Administração americana esteve activamente por trás da resolução.

Esse será, segundo fontes do Departamento de Estado, um dos pontos que Kerry vai abordar no discurso que fará esta tarde. Não só para garantir que a iniciativa da resolução não partiu de Washington, como para explicar que o texto não altera em nada aquela que é, há muito, a posição americana em relação à resolução do conflito israelo-palestiniano.

Kerry, que por duas vezes, tentou ressuscitar o processo de paz na região, não deverá anunciar novas medidas, agora que faltam pouco mais de três semanas para o fim do mandato da actual Administração, mas as suas palavras terão como principal destinatário o Presidente eleito, Donald Trump, que já fez saber que tem uma posição muito diferente sobre o conflito na região – na campanha prometeu mudar a embaixada americana para Jerusalém, reconhecendo implicitamente a cidade como capital de Israel, e nomeou para seu embaixador no país um defensor activo da colonização dos territórios palestinianos, que se afirma contrário à criação do Estado palestiniano.

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