Da troika multicelular nos intestinos ao efeito de um botão numa endoscopia

Trabalhos de biologia celular e gastroenterologia são os vencedores dos Prémios Pfizer de Investigação, no valor de 20 mil euros cada, que são anunciados esta terça-feira.

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Henrique Veiga Fernandes, investigador do Instituto de Medicina Molecular de Lisboa IMM

Uma equipa descobriu, nos intestinos de ratinhos, que o sistema nervoso funciona como um guardião da saúde intestinal, protegendo os tecidos contra as infecções e combatendo-as quando elas surgem. Por isso, Henrique Veiga Fernandes vai receber o prémio de Investigação Básica atribuído pela Pfizer, que comemora este ano a sua 60ª edição. Outro grupo de cientistas mostrou como uma nova técnica de imagem, existente nos mais recentes aparelhos usados para endoscopias, pode fazer diferença no diagnóstico de situações pré-malignas no estômago. Liderado por Pedro Pimentel Nunes, o trabalho mereceu o prémio Investigação Clínica da Pfizer. Cada um dos cientistas vai receber 20 mil euros para fazer mais ciência.

Henrique Veiga Fernandes, investigador do Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa, é repetente nestas andanças. Dos prémios, em geral (foi um dos sete cientistas portugueses que em 2015 ganhou uma bolsa do Conselho Europeu de Investigação no valor de 2,3 milhões de euros), e do prémio Pfizer, em particular, que já tinha vencido em 2014. O trabalho que lhe deu a oportunidade de “bisar” este prémio (uma parceria entre os laboratórios Pfizer e a Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa) está ligado com um artigo publicado este ano na revista científica Nature sobre um complexo sistema de defesa e resposta imunitária que existe no intestino.

“Quisemos perceber como conseguimos manter um intestino saudável e de que forma as células do sistema imunitário podiam garantir isso. O sistema nervoso funciona quase como os olhos e ouvidos do sistema imunitário, reconhecendo na parede do intestino sinais de dano ou sinais que são dados por micróbios, integrar esses sinais e dar uma instrução muito precisa às células do sistema imunitário para que desencadeiem um processo de produção de substâncias que reparam a parede intestinal”, explica ao PÚBLICO. Assim, nota, “esta espécie de troika multicelular entre o sistema nervoso, imunitário e o epitélio na parede do intestino é absolutamente fundamental para manter a saúde”.

Desmascarada a surpreendente comunicação e cooperação entre o sistema nervoso (através de células da glia) e o sistema imunitário (através de linfócitos) no intestino, falta agora perceber “de que forma é que a troika multicelular funciona em casos de doença”. E, a partir daí, tentar desenvolver estratégias terapêuticas para resolver problemas como inflamação intestinal crónica, doença de Crohn, colite ulcerosa ou cancro.

Henrique Veiga Fernandes acredita que a peça-chave neste sistema será as células da glia porque “são elas que são capazes de interpretar os sinais dados pelo tecido inflamatório”. São o botão que liga e desliga e que desencadeia toda a resposta. O plano, portanto, é “desenvolver uma forma de conseguir com fármacos fazer o trabalho que as células de glia deviam fazer quando algo corre mal”, diz o investigador, que avança que as experiências em tubos de ensaio tiveram bons resultados e que os testes em ratinhos estão em fase de conclusão.

“Do ponto de vista de estratégia terapêutica, é uma mudança de paradigma”, diz o cientista, que procura uma forma de regeneração dos tecidos e cicatrização dos danos, minimizando assim a inflamação. E o mais provável é que, em breve, este novo avanço na investigação resulte em mais um artigo numa revista científica (Henrique Veiga Fernandes já publicou quatro trabalhos na Nature) e, talvez, mais um prémio.

Um botão no endoscópio

Do interior do intestino de ratinhos passamos para o interior do estômago de pessoas. O prémio de Investigação Clínica foi atribuído a Pedro Pimentel Nunes, médico e cientista no Instituto Português de Oncologia, no Porto, que conseguiu demonstrar a eficácia de uma nova técnica de imagem no diagnóstico de situações pré-malignas no estômago. A técnica chama-se NBI (Narrow Band Imaging), realça o padrão mucoso e vascular dos tecidos, e existe nos endoscópios mais recentes. Basta carregar num botão e é aplicado um filtro ao espectro de luz que só deixa passar determinados comprimentos de onda.

O botão que oferece esta nova forma de olhar para o estômago, com mais pormenor, foi introduzido nos aparelhos sem que tivesse sido feito qualquer estudo clínico que confirmasse as suas vantagens. Foi isso que Pedro Pimentel Nunes fez com o estudo que envolveu cinco centros de gastroenterologia em vários países (Portugal, Itália, Roménia, Reino Unido e EUA) e os resultados de 1123 biópsias a 238 doentes.

“Fizemos uma endoscopia com a luz convencional e a seguir carregámos no botão. Mostrámos o que isso acrescenta ao diagnóstico: esta tecnologia consegue melhorar e aumentar a detecção de gastrites avançadas, ou seja, a detecção de cancros gástricos iniciais”, conta Pedro Pimentel Nunes. Antes, o investigador já tinha feito um trabalho que associou uma série de padrões que podem ser encontrados neste exame a determinadas patologias.

O artigo publicado na revista científica Endoscopy quantifica as vantagens desta técnica. “A endoscopia sem NBI apresentou uma acuidade diagnóstica de 83% e a utilização de NBI aumentou essa acuidade em 11%, para 94%. A principal vantagem do NBI é a sensibilidade para identificar tumores precoces (NBI 92% versus 74%)”, lê-se no artigo. Também na metaplasia (uma alteração das células), esta técnica é mais sensível (87% versus 53%). “A endoscópica com NBI permite o diagnóstico de condições pré-malignas com 98% de certeza”, conclui o artigo.

Porém, Pedro Pimentel Nunes nota que estes resultados só serão conseguidos se o profissional que estiver a fazer a endoscopia for capaz de interpretar o que vê. “É preciso treino e experiência.”

Com um olhar experiente, este é um meio complementar que pode transformar suspeitas em certezas. Permite também refinar os locais escolhidos (por vezes, de forma aleatória numa endoscopia convencional) para as biópsias.

Os sinais de alerta dados pelo estômago que permitem uma intervenção precoce podem ser subtis. Na maioria das situações, instala-se um processo inflamatório (geralmente iniciado pela bactéria Helicobater pylori), que evolui para uma gastrite e que depois pode agravar-se, culminando num cancro. Quanto mais cedo for tratada a inflamação, menos danos causa.

O trabalho de Pedro Pimentel Nunes prova que esta nova técnica de imagem (desenvolvida em 2000 e melhorada dez anos depois) pode ser uma ferramenta importante para esse diagnóstico precoce. Sobretudo num país como Portugal, com uma elevada incidência de cancro de estômago (13 pessoas em cada 100 mil) e onde, todos os dias, morrem entre três a cinco pessoas com esta doença. Sem qualquer programa de rastreio para este cancro, a ajuda da tecnologia pode fazer a diferença e salvar vidas.