“A paisagem artística numa cidade está sempre em mudança”

No final de Novembro, Bom dia, Atenas dará início a um programa que une os dois teatros municipais de Lisboa, São Luiz e Maria Matos. Os directores artísticos Aida Tavares e Mark Deputter explicam como passaram a articular a sua acção para evitar sobreposições e vincar o perfil de cada sala.

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Mark Deputter, director artístico do Maria Matos, e Aida Tavares, directora artística do São Luiz DR
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Os directores artísticos dos dois teatros municipais de Lisboa DR

Há dois anos, os dois teatros municipais de Lisboa lançaram um cartão de desconto que permite ao público adquirir bilhetes para espectáculos nas duas salas a metade do preço. Seria o primeiro sinal público de uma aproximação entre o São Luiz e o Maria Matos, e da vontade que os seus respectivos directores artísticos, Aida Tavares e Mark Deputter, têm de pensar a sua actuação na cidade de uma forma mais concertada. Agora que estão prestes a arrancar com um programa bienal conjunto, explicam ao PÚBLICO o que junta e o que separa as suas casas e comentam a contínua atenção que deve ser dada à dinâmica própria da cidade.

Estão prestes a iniciar um programa bienal conjunto, intitulado Bom Dia, Atenas nesta primeira edição. Porquê Atenas e qual a especificidade deste programa?
Mark Deputter (MD): Este programa foi pensado para dar atenção a ofertas culturais de cidades que não são as mais óbvias e cuja criação contemporânea não vemos com regularidade em Lisboa. Isto deixa de fora cidades como Berlim, Paris, Bruxelas, Amesterdão e Londres. Desde o início interessou-nos pensar numa cidade do Sul da Europa e escolhemos Atenas porque em termos económicos e sociais tem muito que ver com aquilo que estamos a viver em Lisboa. Por outro lado, existe um renascimento no teatro e na dança gregos.

Aida Tavares (AT): Já havia também um interesse dos dois teatros na criação grega porque há dois espectáculos que trazemos de que somos ambos co-produtores.

Há alguma limitação geográfica, este programa ficar-se-á pela Europa?
AT: Não necessariamente. Em 2018, estamos a pensar fazer com Istambul, porque também nos parece uma cidade muito interessante, mais ainda com esta convulsão actual. Mas queremos ir a outros continentes, nomeadamente à América do Sul.

MD: Também esteve na nossa lista, mas como no próximo ano Lisboa é a Capital Ibero-Americana de Cultura não fazia muito sentido.

Esta selecção parte mais da vossa investigação junto das cenas locais ou têm interlocutores nestas cidades que vos auxiliam na programação?
AT: Ambas as situações.

MD: A oferta internacional é tão grande que é impossível conhecer tudo. O nosso trabalho de programadores passa sempre por estas duas práticas – uma é obviamente ir ver, conhecer; mas outra é ter uma rede de contactos bem estabelecidos. Sem esta ajuda é quase impossível ter um domínio mínimo daquilo que está a acontecer ao nível europeu ou mundial. Isso passa por conhecer colegas de teatros, festivais, artistas… Recebo e-mails regularmente a dizer-me que devo ir ver este ou aquele espectáculo. Cada vez mais vou ver espectáculos muito específicos, a partir de informações precisas de pessoas que me aconselham, ou sigo artistas cujo trabalho já conheço e quero acompanhar. Acredito muito na obra de um artista, não numa peça isolada. É mais interessante para nós e para o público ir descobrindo e conhecendo um universo artístico. A Meg Stuart pode viver em Berlim, mas tem uma casa aqui também – é conhecida, tem influência junto de outros criadores e faz quase parte da nossa paisagem.

AT: Esse acompanhamento é fundamental porque muitas vezes criamos condições especiais para que o artista seja apresentado nas nossas salas. Só isso permite aos programadores ter um determinado tipo de diálogo com cada artista. Não é por comprar um espectáculo do Romeo Castellucci que, a seguir, se consegue estabelecer um diálogo capaz de ir além da apresentação da obra. Em princípio, vamos co-produzir o próximo espectáculo do Romeo e estou a ver com ele a possibilidade de três artistas de Lisboa acompanharem o processo de criação. Há outro aspecto interessante na forma como funciona a escala da nossa cidade e o mapa que temos de salas e programadores. Se há um artista que é acompanhado pela Culturgest e esta decide que já não faz sentido programar a obra daquele artista, como é que gerimos isso, como é que se faz?

Há diálogo entre os programadores nesse sentido?
AT: Sim. No último ano e meio temos encontros sistemáticos e conversamos bastante sobre esta questão. Passa por algumas regras, mas sobretudo por conversarmos sobre isso. É algo muito interessante e creio que não se passa em muitas cidades da Europa. Estamos a falar sobretudo da relação internacional, mas também acontece com os artistas portugueses, que muitas vezes têm projectos muito diversificados para cada sala. Há artistas que são emergentes e trabalham com o Mark, mas depois faz sentido transitarem para outras salas.

Em que medida a chegada de Tiago Rodrigues ao Teatro Nacional D. Maria II vos força a repensar o vosso modelo?
MD: A paisagem artística numa cidade está sempre em mudança. Temos de estar abertos e de repensar a nossa posição como programadores. Todos acreditamos que um teatro tem de ter um perfil, uma cara reconhecível. E quando um teatro muda isso tem repercussões nas relações entre todos. Acho normal e saudável. Às vezes são desafios um bocado complicados, mas faz parte do jogo. Ao longo dos últimos anos houve uma mudança suave de gerações e o Teatro Nacional foi um ponto de chegada. Há uma série de artistas que quando chegaram ao Nacional entraram no centro do sistema, já não são periferias. A mala voadora, o próprio Tiago Rodrigues, o Rui Catalão, a Ana Borralho e o João Galante há dez anos nem sequer no Maria Matos se apresentavam. Faziam-no na Zé dos Bois, eventualmente no Festival Alkantara, fora do sistema institucional. Depois passaram por várias etapas – acho que o Maria Matos teve um papel importante nisso porque fazia parte da vocação e do caderno de encargos.

A mala voadora fez Pirandello no Nacional e Moçambique no Maria Matos; Gonçalo Waddington estreou no Nacional uma tetralogia que passa agora para o São Luiz. A mobilidade destes artistas faz com que os vossos perfis sejam menos claros?
MD: É um percurso que estamos a fazer. O que está a acontecer neste momento é que o perfil que tinha sido criado através de novos artistas já não existe. Então tem de haver outras razões para trabalhar com eles ou não. Este país é muito centralizado em termos de potencial de produção e apresentação, e os artistas nacionais também criam mais do que um teatro consegue apresentar. Nunca poderia dizer “a mala voadora é nossa” porque teria de produzi-la três vezes ao ano. Se a mala voadora é interessante para três teatros, vamos ver o que é específico para cada um de nós. No Teatro Nacional as companhias fazem o reportório, fazem os grandes textos, e esta é a linha orientadora que divide muito os artistas entre o Nacional e o Maria Matos. O que me interessa fazer com estes artistas são projectos de devised theatre, criados de raiz, projectos de colaboração com a sociedade civil, com não-actores, teatro participativo, teatro político, teatro-documentário. Quero encontrar novos caminhos com os artistas e, na verdade, há mais espaço para experimentar e falhar no nosso palco do que no Teatro Nacional.

AT: Uma das primeira conversas que tive com o Tiago quando chegou ao Nacional foi para perceber o que ia acontecer com criadores como o Luis Miguel Cintra e o Jorge Silva Melo. O Tiago disse-me que, à partida, não os iria apresentar. E então falei com o Luis Miguel, com quem temos vindo a trabalhar, e com o Jorge, de quem fizemos o ciclo Tennessee Williams. É essencial perceber o contexto da cidade e o que está a acontecer. No São Luiz temos o projecto Mais Novos, uma relação com a dança que não existia aqui – não é a dança que o Mark faz; para o ano contamos co-produzir novas peças da Olga Roriz, da Clara Andermatt e do Paulo Ribeiro – e uma programação internacional muito distinta. Nos últimos dois anos, estranhamente, as coisas até estão bastante mais claras. E há uma relação entre estes dois teatros que não existia na prática – as Noites Maria & Luiz são disso exemplo.

Por onde começou a articulação entre os vossos teatros, que levou à criação das Noites Maria & Luiz mas também de um cartão de desconto conjunto?
MD: Começou com coisas muito práticas. Até é estranho não ter sido uma realidade desde o início. Tínhamos dois teatros municipais em que não era possível comprar bilhete para um espectáculo de uma sala na bilheteira da outra, os preços eram diferentes, os descontos eram diferentes. Não havia nenhuma uniformização e fazemos parte da mesma empresa.

AT: Depois criámos o cartão de desconto com o objectivo de facilitar hábitos culturais regulares e, em seguida, quisemos dar-lhe conteúdo. Estas conversas levam-nos também por caminhos de programação. Agora para nós é muito natural, mas há dois ou três anos vivíamos de costas voltadas. E, pela primeira vez, este ano conseguimos coordenar as aberturas de temporadas na cidade. Era uma coisa inacreditável, chegámos a ter os dois teatros municipais a abrirem no mesmo dia.

MD: Sim, e este ano fizemo-lo com a Culturgest e o Teatro Nacional também.

A localização dos teatros, nas suas várias implicações, tem algum peso na programação que fazem?
MD: Como somos teatros municipais, por vocação trabalhamos para a cidade. Não estou a trabalhar para Alvalade ou para o Areeiro. O nosso público é o público da Grande Lisboa. Nunca pensei sobre uma programação especificamente para aquela zona da cidade, mas há uma excepção que estamos a preparar. Quando a Mónica Calle abriu a Casa Conveniente, em Chelas, fui até lá e fiquei surpreendido por ser tão perto do Teatro Maria Matos e tão diferente da nossa realidade. Parece uma ilha na cidade. Há um isolamento cultural e social que vem por cima deste isolamento geográfico, e há ali um público potencial ao qual nós não estamos a chegar. Eles nem sabem que o Teatro Maria Matos existe, mesmo que esteja a cinco minutos de distância. Começámos a pensar num projecto a desenvolver especificamente para Chelas e Marvila, e que vai começar este ano, devagar.

AT: O nosso projecto O público vai ao teatro, que vamos desenvolver em duas temporadas, é um trabalho com três grupos distintos: crianças de uma escola que normalmente nos visita, um grupo de professores e um grupo sénior. Vão acompanhar-nos ao longo da temporada toda e, numa primeira fase, vão ter a possibilidade de estar e conversar com os criadores.

É esse tipo de situações que ajuda a pensar o que pode ser um teatro municipal numa cidade como Lisboa, onde pode ser tentador achar que a missão de um teatro municipal nacional não é assim tão diferente da de um teatro nacional?
AT: Sim, acho que essa pode ser uma grande diferença.

MD: A responsabilidade em relação ao público e a consciencialização de que o público não é algo abstracto; são pessoas, são grupos, e faz parte da nossa responsabilidade procurar o contacto e facilitar o acesso àquilo que propomos como programação.