Opinião

E agora já tudo pode ser tudo aquilo que parece

O fantasma de Hugo Chávez e do seu populismo ameaçam o país.

1. E agora já tudo pode ser tudo aquilo que parece na Lisboa que amanhece. Diz a canção de Sérgio Godinho. Eis um refrão que assenta que nem uma luva à semana que passou. Na verdade, a semana passada lançou a luz da aurora e o alvor da madrugada sobre aquilo que nos espera. Desde a suposta “gaffe” de Mário Centeno até às três sentenças de Mariana Mortágua, passando pela agenda do PCP e pela tentativa de ressuscitar, política e mediaticamente, José Sócrates.

Depois da semana passada, Lisboa despertou sob o signo de dois “chavismos”. Um chavismo programático, enunciado nas três sentenças de Mortágua e na competição desenfreada do PCP para ultrapassar os ditames do Bloco de Esquerda. E um “chavismo” de modo ou de estilo — a que podemos chamar um “chavismo” carismático — consubstanciado no esforço visível para reabilitar Sócrates e, designadamente, no seu regresso formal a iniciativas políticas do PS. O PS, o seu Governo e António Costa vivem pois entalados entre o “chavismo” programático e o “chavismo” carismático. E no seu tacticismo permanente, orientado exclusivamente para um desígnio de sobrevivência política pessoal do Primeiro-Ministro, Costa e o PS são consciente e dolosamente responsáveis por esta “venezualização” em curso da nossa paisagem política.

2. A primeira luz da manhã foi a admissão por Mário Centeno de que a sua principal missão é evitar um novo resgate. Muitos vieram defender que esta “gaffe” teria sido induzida por uma pergunta capciosa, que virtualmente já continha a resposta. Mas essa tese não pode facilmente ser acolhida: qualquer Ministro das Finanças ou qualquer político sabe muito bem o que tem a fazer assim que ouve a palavra “resgate”. Especialmente, se acha convictamente que estamos longe dele e que a questão não se põe. Se o cenário da necessidade do novo resgate é tão longínquo, não se compreende por que razão Mário Centeno não repeliu categoricamente esse cenário. Com efeito, para dar uma resposta dessas, ninguém precisa de assessoria de comunicação nem de especial preparação.

3. Depois vieram as três sentenças de Mariana Mortágua que lançaram claridade sobre o “chavismo” programático em que este Governo se iniciou e que promete ser cada vez mais o seu horizonte. A primeira sentença foi o anúncio de um novo imposto feito por uma dirigente do Bloco de Esquerda, que formalmente não faz parte do Governo. Um imposto directo que se soma a todos aqueles que, de uma forma ou outra, já incidem sobre a propriedade imobiliária. Ninguém conhece os contornos do novo imposto, mas ele consubstancia um evidente ataque à propriedade e dá um sinal errado — erradíssimo, o mais errado dos sinais — aos investidores e, em especial, aos investidores externos. Mesmo que nos queiram convencer de que o novo tributo se restringirá apenas aos muito ricos, sobejam dois problemas: qual o critério de riqueza patrimonial que vai ser adoptado e a abertura de um precedente que, com a penúria de recursos que aí vem, se alargará rapidamente.

Não menos espantosa foi a asserção da dirigente bloquista de que a compra de imóveis ou a sua detenção não contribui para o PIB, para o crescimento ou para a dinamização da economia. Trata-se verdadeiramente de ciência ao serviço da ideologia. Regressamos aos tempos em que as ciências (sociais) estão subordinadas a um padrão ideológico. Voltamos ao tempo em que as ciências sociais e humanas só são ciências se forem socialistas. Mais uma sentença que vibra um golpe fatal na confiança. Que confiança e credibilidade pode merecer um Governo que depende deste tipo de apoio?

Ainda mais grave, mas em plena coerência com as duas sentenças anteriores, vem a ser a sentença do ataque à poupança e às economias dos portugueses. O desafio que fez, numas jornadas de debate organizadas pelo PS, para que se perca a vergonha e se tribute quem acumula capital é um retorno aos dias mais negros do PREC. Há que penalizar quem, apesar de esmagado pelos impostos regulares, consegue poupar. Há que atacar quem, tendo alguma folga, em vez de tudo gastar, procura garantir o seu futuro e o da sua família. Sentença esta que, à boa maneira dos sinistros tribunais populares, foi aplaudida sonoramente pela plateia socialista. E se somarmos a ideia de Mortágua à sanha com que o Primeiro-Ministro defende o fim do sigilo bancário, tudo aponta para que a geringonça esteja coordenada e perspective como possível e até desejável um assalto fiscal às poupanças dos portugueses. Esta simples possibilidade, para além de ameaçar e assustar os cidadãos nacionais, vai pôr o país numa lista negra, onde ninguém quererá investir.

Como se isto não bastasse, o PCP, numa crise evidente e recorrente de ciúmes ideológicos, quer alargar ainda mais o dito imposto. Esboça, por isso, uma ultrapassagem do Bloco pela esquerda, contribuindo para minar ainda mais toda e qualquer confiança no futuro da economia do país.

4. A cereja em cima do bolo é o retorno de Sócrates às lides partidárias do PS, numa manifesta tentativa de reabilitação. Seria suficiente a condução do país ao resgate e à intervenção da troika para Sócrates se dever coibir de ensaiar um regresso à política. Mas a simples admissão de que, enquanto era Primeiro-Ministro e depois disso, vivia de empréstimos vultuosos de um amigo, com tudo o que ela significa, deveria exigir algum recato por parte do próprio. E se o próprio não o tem, ao menos, devia ter o PS e deviam ter os seus responsáveis. Não creio que seja preciso escrever mais para perceber que o fantasma de Hugo Chávez e do seu populismo ameaçam o país. Na Lisboa que amanhece, já tudo pode ser tudo aquilo que parece.

SIM e NÃO

SIM. Marcelo Rebelo de Sousa. A parcimónia que revelou nos comentários à divulgação intermitente e informal de conteúdos do novo Orçamento amplia-lhe a margem de manobra e trava o desnorte comunicacional do Governo e apoiantes.

NÃO. Jean-Claude Juncker. Por muito que preze o Presidente da Comissão, ele andou mal, muito mal, no caso Barroso. À Comissão não se pedem estados de alma a reboque do populismo, mas aplicação imparcial e igual das regras existentes.

Eurodeputado (PSD)