“Não tenho nada que ver com o caso dos espiões”, garante patrão da Ongoing

Quem devia ser julgado pelas ilegalidades cometidas pelos agentes era o Estado português, defende arguido do processo das secretas.

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Nuno Vasconcellos com o seu advogado

Falou alto e bom som, para dissipar dúvidas. Suspeito de ter comprado os serviços do espião Jorge Silva Carvalho, o presidente do grupo Ongoing, Nuno Vasconcellos, garantiu nesta sexta-feira em tribunal nada ter a ver com o processo das secretas. “Não tenho nada a ver com o caso dos espiões. Mas estou metido nisto”, disse às juízas o arguido, que, além de continuar a tentar salvar a Ongoing da falência, responde pelo crime de corrupção activa.

O caso remonta ao período entre 2010 e 2011, e os dois homens tratavam-se por irmãos, por via dos laços maçónicos que os uniam. Silva Carvalho, que era dirigente das secretas, foi acusado de ter posto subordinados seus a espiar terceiros em prol dos interesses da Ongoing, grupo que lhe havia de providenciar um cargo mais bem remunerado do que aquele que tinha no Serviço de Informações Estratégicas de Defesa. Porém, se isto fosse verdade não teria a Ongoing mais vantagens em que Silva Carvalho se mantivesse nas secretas do que em contratá-lo, uma vez que lhe seria mais útil dentro do que fora dos serviços de informações? A pergunta foi feita pelo advogado de Silva Carvalho, João Medeiros, mas ficou sem resposta.

Vasconcellos alega terem sido guerras empresariais da Ongoing com rivais a fazer germinar este processo judicial. “Ajudei muita gente que hoje não me atende o telefone”, queixou-se. Para o Ministério Público, no entanto, as trocas de mensagens de correio electrónico e de telemóvel entre os arguidos mostram que Silva Carvalho pôs os seus agentes a elaborar relatórios sobre potenciais parceiros de negócios da Ongoing para garantir um bom emprego no grupo privado — e não para dar uma ajuda à internacionalização de uma empresa estratégica para o país, como chegou a ser invocado.

Nas alegações finais de um julgamento condicionado pelo segredo de Estado, João Medeiros acusou o primeiro-ministro de ter tomado uma decisão arbitrária e viciada. É que, apesar de os juízes terem pedido a António Costa a desclassificação de várias matérias que consideram importantes para condenarem ou ilibarem os arguidos, o chefe do Governo preferiu, depois de se aconselhar com o secretário-geral do Serviço de Informações da República Portuguesa (SIRP), levantar o segredo de Estado apenas de forma parcial — o que terá impedido alguns arguidos de justificarem devidamente os crimes de que são acusados.

"Numa decisão arbitrária, o primeiro-ministro foi contra aquilo que o tribunal achava necessário para decidir esta causa", disparou João Medeiros. "Influenciado por uma atitude escabrosa do secretário-geral do SIRP, que lhe sonegou informação, teve uma intervenção viciada e descontextualizada neste processo." O primeiro-ministro foi mesmo apelidado por outro advogado, Paulo Simão Caldas, de “vaca sagrada”, por ter o poder de decidir, “sozinho e de forma insindicável”, este tipo de questões. E se o secretário-geral do SIRP, Júlio Pereira, o aconselhou a não levantar por completo o segredo de Estado, terá sido para encobrir as práticas de legalidade duvidosa a que os agentes secretos estão acostumados, argumentou.

Práticas pelas quais outro arguido, o ex-espião João Luís, entende não ter de ser ele a pagar: “Quem devia ser julgado não era eu, mas o Estado português, por permitir que isto funcione assim. Então eu tenho de ser condenado para moralizar os serviços de informações?!”