PS quer primárias nos grandes municípios onde não haja consenso sobre candidato

Sociais-democratas afastam adopção desta solução aberta a simpatizantes.

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Socialistas consideram que primárias para escolha do candidato a primeiro-ministro correram bem Rui Gaudêncio

O PS pondera estender aos municípios com mais de 100 mil habitantes onde não haja consenso quanto à escolha dos seus candidatos nas autárquicas do próximo ano a solução das primárias que usou para eleger o seu candidato a primeiro-ministro. Matosinhos é um dos concelhos onde pode haver primárias, abertas a simpatizantes.

Já o PSD - outro grande partido autárquico – afasta a possibilidade de primárias para a escolha de candidatos autárquicos, mostrando-se fortemente empenhado em mobilizar o partido para o combate das eleições locais que Pedro Passos Coelho já disse querer vencer, para reconquistar a liderança da Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP).

“Tenho muita expectativa que, finalmente, seja possível transferir para a esfera local um modelo que foi usado na escolha do candidato do PS a primeiro-ministro. Acho que, depois de termos dado o primeiro passo, não faz sentido que não sejamos capazes de dar passos subsequentes”, afirma o dirigente nacional e líder do PS-Porto, Manuel Pizarro.

A pouco mais de um ano das autárquicas, o PS prepara uma estratégia que evite quaisquer deslizes a nível do processo eleitoral, porque tem consciência de que este combate terá sempre leituras nacionais. Mas evitar que as autárquicas se convertam num referendo à governação é a grande aposta do secretário-geral socialista e primeiro-ministro, António Costa.

Empenhado numa vitória eleitoral que “será essencial para a estabilidade política e para a consolidação do programa de mudança que o PS lidera no país”, Manuel Pizarro sublinha que “não deve ser o PS a gerar a instabilidade. Isso não será compreensível pelos eleitores e não terá nenhuma vantagem nem para o PS nem para as comunidades locais”. Ao mesmo tempo, o dirigente nacional acentua que “gostaria de ver consagrado o princípio de, em algumas circunstâncias, poder recorrer a eleições primárias para escolher candidatos ou soluções políticas que o PS venha a consagrar”.

Pizarro explica, em declarações ao PÚBLICO, por que razão defende primárias para os municípios com 100 mil habitantes. “Muitas vezes a realização de eleições deste tipo em municípios de menor densidade populacional serve mais para estimular conflitos locais do que para encontrar verdadeiramente uma solução galvanizadora do conjunto das pessoas e vencedora”, diz o também vereador da Câmara do Porto, afastando qualquer “vantagem” de primárias nestes concelhos.

Questionado se o partido se inclina para fazer primárias em Matosinhos, Manuel Pizarro é taxativo: “Acho que era uma bela solução, que houvesse uma legitimação de primárias de um candidato à Câmara de Matosinhos”. “Era uma solução que me agradaria muito”, acentua, sem fazer nenhuma alusão a nenhum dos possíveis candidatos que se perfilam para avançar. A deputada Luísa Salgueiro, o presidente da concelhia do PS-de Matosinhos, Ernesto Páscoa, e António Parada, adjunto do secretário de Estado das Pescas, são os três nomes na calha para disputar a presidência da Câmara de Matosinhos, um concelho que foi um bastião do PS até às últimas eleições autárquicas, em que o socialista Guilherme Pinto, sem apoio do partido, foi reeleito como independente.

Mas a probabilidade de as eleições primárias abertas a simpatizantes poderem estender-se também ao Porto não está completamente afastada. Há socialistas que defendem uma candidatura própria em nome do partido, mas há quem entenda que o PS deve apoiar o independente Rui Moreira com quem tem um entendimento político. É aqui que as primárias podem fazer sentido.

O líder da maior distrital argumenta que o “PS foi o único partido da sociedade portuguesa que realizou primárias” e que isso é vantajoso. “Nós podemos reproduzir nessas primárias o essencial das regras que foram validadas nas eleições para a escolha do primeiro-ministro. Manifestamente funcionaram bem do ponto de vista da correcção dos procedimentos e do ponto de vista da participação das pessoas”.

Sublinhando que os “procedimentos servem para resolver e não para criar problemas”, Manuel Pizarro declara ainda que “um partido como o PS não pode ter medo das pessoas quando se trata de escolher os seus candidatos”. E remata com uma ideia em jeito de desafio: “Não vejo que ninguém possa querer ser candidato do PS a uma qualquer autarquia de grande dimensão e ter medo de enfrentar a escolha dos cidadãos numas primárias”.

Ex-vice-presidente apresentou candidatura à Câmara de Vizela

Em vésperas do congresso nacional do PS, agudizam-se as fracturas internas nas concelhias socialistas de Barcelos e de Vizela, no distrito de Braga. O clima de crispação que se vive nestas duas concelhias tem a ver com as eleições autárquicas.

O até agora vice-presidente da Câmara de Vizela, Vitor Hugo Salgado, que se incompatibilizou com o actual presidente, Dinis Costa, apresentou esta terça-feira à noite a sua candidatura à câmara. A seu lado, estava o actual presidente da Assembleia Municipal de Vizela, o independente Fernando Carvalho, que será o candidato àquele órgão na lista de Vitor Hugo Salgado, em 2017.

O autarca, de 39 anos, a quem o presidente da câmara retirou há três semanas a confiança política e os pelouros, quer avançar com o apoio do partido, mas admite ir a votos como independente, caso o PS não tome uma posição favorável em relação à sua candidatura. “Vou aguardar que o PS se pronuncie sobre esta matéria até ao segundo semestre deste ano. Se o PS não o fizer, avanço como independente”, declarou ao PÚBLICO.

Vitor Hugo Salgado aponta duas razões para se candidatar à câmara: “O descontentamento generalizado dos vizelenses e a perda de influência do PS no concelho”. “Há dez anos, o PS tinha resultados na casa dos 60% nas legislativas e nas autárquicas; agora nas últimas eleições legislativas ficou-se pelos 37% e a nível das autárquicas pelos 48%”, contabiliza o vereador sem pelouros, afirmando que, se “não houver uma candidatura alternativa à do actual presidente, o PS perde as eleições”.

Em Barcelos, a fractura é também entre o actual presidente, Miguel Costa Gomes, e o seu ex-vice-presidente e líder da concelhia do PS, Domingos Pereira. O também deputado queixa-se que o presidente da câmara lhe retirou os pelouros, comunicando-lhe a decisão por email. Para já não quer falar das razões que estão por detrás desta decisão, mas garante que ela tem a ver com as eleições locais do próximo ano. “Isto aconteceu quando estava a ser desencadeado o processo de escolha do candidato às próximas eleições na concelhia”, sublinha, afastando o cenário de eleições intercalares.

A federação distrital de Braga do PS, liderada, por Joaquim Barreto, mantem o silêncio sobre o clima de guerrilha que se vive nas concelhias de Barcelos e Vizela.