Aceitam-se apostas sobre o resultado do referendo no Reino Unido

Sondagens realizadas através do telefone favorecem o “Sim” à União Europeia; nas sondagens online, a margem do “Não” cresce significativamente e projecta a perspectiva de uma mudança irreversível.

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O ex-presidente da câmara de Londres, Boris Johnson, continua em campanha pelo "Brexit" REUTERS/Darren Staples

A cinco semanas da votação no referendo que decidirá a permanência ou a saída do Reino Unido da União Europeia, os palpites das casas de apostas parecem ser tão fiáveis e científicos quanto os resultados das sondagens: basicamente, o desfecho da consulta popular permanece imprevisível. Mas se os números são difíceis de interpretar, os discursos políticos são clarinhos como água – quanto ao tom e à temperatura do debate, é seguro que vai disparar até ao ponto de fervura.

As indicações dos sucessivos estudos de opinião não permitem, por enquanto, apontar uma tendência entre o eleitorado britânico. Para já, a única conclusão que é possível obter da leitura das sondagens é a da confusão, indecisão ou até mesmo contradição do público. Em inquéritos realizados através do telefone, a maioria das respostas favorece o “Sim” à União Europeia; nas sondagens online, a margem do “Não” cresce significativamente e projecta a perspectiva de uma mudança irreversível.

Esta terça-feira de manhã, a divulgação de uma sondagem telefónica da ORB que colocava o “Sim” 15 pontos à frente no referendo de 23 de Junho animava os mercados e dava força à libra esterlina, que bateu no máximo dos últimos dois anos e meio contra o euro. Horas depois, o optimismo ruía com o resultado de uma sondagem online da TNS, que mostrava o “Não” à frente, com uma diferença de três pontos. “Em que é que ficamos? Sinceramente não sei. É muito difícil avaliar estas discordâncias”, confessava à Reuters o director da ORB, Johnny Heald.

Na véspera, a ICM tinha constatado o mesmo fenómeno, quando mediu a opinião dos eleitores por telefone e online. No primeiro caso, o “Sim” alcançava 47%, no segundo era o “Não”, exactamente com a mesma percentagem. O director da empresa, Martin Boon, disse não saber explicar estas diferenças. “Estou tão surpreendido e confuso como qualquer outra pessoa”, admitiu.

Acresce a estas informações contraditórias uma desconfiança quanto à fiabilidade dos estudos de opinião conduzidos pelos principais institutos britânicos, que em casos recentes como da reeleição de David Cameron como primeiro-ministro, em Maio de 2015, falharam redondamente nas suas previsões. Nessa altura, as casas de apostas revelaram-se mais exactas, o que está a levar vários analistas (incluindo financeiros) a olhar com mais atenção para os palpites daqueles que estão dispostos a gastar dinheiro para adivinhar o resultado do referendo. Usando esse barómetro, a vitória do “Sim” está garantida: o grupo IG de apostas online coloca as probabilidades do “Sim” nos 74,5%, e na Betfair a permanência na UE tem 73% de hipóteses de vitória.

A UE ou o caos, avisa Tusk

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, entrou esta terça-feira na guerra de palavras entre os apoiantes e os críticos de Bruxelas – no caso, o ex-presidente da câmara de Londres, Boris Johnson, que no fim-de-semana comparou as intenções da União Europeia às de Adolf Hitler ou Napoleão Bonaparte, em termos do estabelecimento de uma autoridade única no continente.

O líder europeu e antigo primeiro-ministro polaco deu conta da sua renitência em envolver-se no debate, por considerar que os britânicos saberão tomar as suas decisões, sem precisar de “sermões” de ninguém. “Mas quando vejo a União Europeia comparada aos planos e projectos de Adolf Hitler não posso ficar calado”, confessou Tusk, acrescentando que “argumentos tão absurdos” seriam naturalmente ignorados não fosse o caso de “terem sido proferidos por um dos políticos mais influentes do partido no poder” e que, na sua opinião, só pode sofrer de “amnésia política”.

“A alternativa à União Europeia é o caos”, contrapôs Donald Tusk, sublinhando que nas últimas décadas a União Europeia se afirmou como “uma barreira de fogo” contra os conflitos na Europa. “A verdade é que sem a União o que teremos é o caos, o regresso dos egoísmos nacionais e consequentemente o triunfo das tendências anti-democráticas. E aí sim, a História poderá repetir-se”, alertou.