Morreu Siné, o cartoonista que ilustrou a revolução dos cravos

O desenhador francês morreu esta quinta-feira aos 87 anos. Histórico do Charlie Hebdo, tinha sido afastado do jornal em 2008 por alegado anti-semitismo.

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Esta fotografia foi tirada em 2008. AFP PHOTO / MARTIN BUREAU
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Um dos seus desenhos sobre o 25 de Abril de 1974 Siné
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Um dos seus desenhos sobre o 25 de Abril de 1974 Siné

O ilustrador e cartoonista francês Siné morreu esta quinta-feira de manhã, aos 87 anos, no hospital Bichat, em Paris, na sequência de uma intervenção cirúrgica. A sua morte foi anunciada na página de Facebook da revista humorística Siné Mensuel, o último projecto lançado por este colaborador histórico do jornal Charlie Hebdo, cuja direcção o afastou em 2008 por causa de uma crónica considerada anti-semita.

Siné, nome artístico de Maurice Sinet, era “um cartoonista provocador”, que “adorava cascar nos capitalistas, nos colonialistas, nos chuis, nos militares ou nas religiões”, mas que tinha uma paixão pelo jazz e por gatos, aos quais dedica alguns “álbuns ternos”, resume o obituário que lhe consagra o jornal Libération.

Menos lembrada na imprensa francesa é a sua passagem por Portugal, onde chegou logo após o 25 de Abril para assistir in loco à revolução dos cravos, tendo então assinado alguns cartoons icónicos, como o célebre desenho em que um jovem arranca a parte vermelha da bandeira portuguesa, deixando um senhor de ar sisudo apenas com o lado verde e o escudo. As suas ilustrações estão reproduzidas em várias obras, e aparecem também no documentário Cravos de Abril (1976), de Ricardo Costa.  

Na véspera da sua morte, o cartoonista publicou no site de Siné Mensuel uma crónica em que, com o humor de sempre, se confessava irritado com a proximidade do fim. “Devem ter reparado que desde há algum tempo não nado numa alegria de viver dionisíaca”, observava Siné aos seus leitores, explicando: “Só consigo pensar na minha morte próxima, se não iminente, e sinto-a rondar à minha volta como um porco trufeiro”. Lamentando o desgosto que iria causar aos que lhe eram próximos, Siné também não se esquece dos que não o apreciavam: “Penso em todos os cretinos que vão esfregar as mãos de contentes e irrita-me bastante morrer diante deles”.

Se se cumprirem as intenções declaradas pelo cartoonista no documentário Mourir? Plutôt Crever! (2010), de Stéphane Mercurio, Siné deverá tornar-se o primeiro locatário de um talhão do cemitério de Montmarte que co-adquiriu com outros artistas para garantir que não partilhará a eternidade com vizinhos indesejáveis. Sobre uma cave com capacidade para 60 caixões, um cacto em bronze dum metro de altura que se parece manifestamente com uma mão a mostrar o dedo do meio esticado, assinala o lugar do último repouso de Siné. Na pedra tumular, lê-se “Mourir? Plutôt Crever!”, epitáfio traduzível, em versão muito livre, por “Morrer? Antes Bater a Bota”. No documentário, Siné mostra-se particularmente satisfeito por saber que a campa mais próxima é ocupada por Louise Weber, vulgo La Goulue, uma célebre dançarina de can-can conhecida como a Rainha de Montmartre.

Filho de um ferreiro e de uma merceeira, Siné nasceu em 1928 num bairro popular de Paris. O seu primeiro desenho publicado apareceu na revista France-Dimanche em 1952. Três anos depois recebia o Grande Prémio do Humor Negro pela recolha Complainte sans Paroles. E a partir de 1959 começa a desenhar os famosos gatos que se tornaram a sua imagem de marca.

Sempre muito interessado em usar a sua arte para intervir politicamente, trabalhou em vários jornais, incluindo L'Express, Le Monde, Libération ou L'Humanité, e fundou ele próprio diversas revistas, a começar por Siné Massacre, em 1962, da qual só saíram sete números.

Em 1974 integra a equipa fundadora do Charlie Hebdo, iniciando uma colaboração de vinte anos, abruptamente interrompida em 2008, quando o então director Philippe Val o despediu, acusando-o de ter assinado uma crónica anti-semita. Em causa estava um texto em que Siné criticava o trajecto político de Jean Sarkozy, filho do então Presidente da República Nicolas Sarkozy, ironizando com a eventualidade de este se converter ao judaísmo antes de se casar com a filha do fundador da empresa multinacional de electromésticos Darty.

O afastamento de Siné do Charlie Hebdo – um jornal que já então não tinha pruridos em satirizar violentamente o islamismo – provocou uma viva polémica em França, com Val a ser acusado de ter usado um pretexto para afastar um colaborador histórico da publicação com o qual nunca tivera boas relações. Val argumentou que o texto de Siné sugeria uma relação entre a conversão ao judaísmo e o sucesso social, o que considerava inaceitável.

A Liga Internacional Contra o Racismo e Anti-Semitismo (LICRA) porcessou Siné, que foi absolvido em 2009 por um tribunal que lhe reconheceu “o direito à sátira”. Em contrapartida, as Éditions Rotatives, que publicam o Charlie Hebdo, foram condenadas no final de 2010 a pagar 40 mil euros a Siné por rompimento abusivo de contrato. Recorreram da sentença e viram o Tribunal da Relação de Paris confirmar a decisão da primeira instância e aumentar a indemnização para 90 mil euros.

Depois de deixar o Charlie Hebdo, Siné fundou a publicação Siné Hebdo, de vida efémera, e em 2011 lançou Siné Mensuel, que na sua página do Facebook prometia hoje “continuar o combate”.