Teodora Cardoso explica qual é a sua ideologia

Racionalidade económica e uma política económica que não se baseie apenas na procura são as ideias por que se rege o Conselho das Finanças Públicas.

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Teodora Cardoso mantém reticências em relação às estimativas presentes no Programa de Estabilidade Rui Gaudêncio

Acusada à esquerda de fazer as suas análises à política orçamental do Governo com base em preconceitos ideológicos, Teodora Cardoso decidiu assumir e explicar esta quarta-feira aos deputados qual é, afinal, a ideologia do Conselho das Finanças Públicas (CFP), a entidade a que preside.

A falar sobre o Programa de Estabilidade na Comissão Parlamentar de Finanças e Orçamento, disse que a ideologia do CFP assentava em dois pontos fundamentais: a prioridade à racionalidade económica e a recusa de adopção de uma estratégia baseada apenas em políticas do lado da procura.

“Acima de tudo, para nós, está a racionalidade económica, algo que é compatível com diferentes ideologias”, afirmou Teodora Cardoso, defendendo logo de seguida que, por seguir essa racionalidade, não é possível aceitar como boa uma política que se dedique exclusivamente a estimular a procura, esquecendo as políticas feitas do lado da oferta.

“Se isto é ser ideológico, então assumo que sou ideológica”, afirmou a presidente do CFP. Nos diversos relatórios que tem produzido nos últimos meses, esta entidade tem apresentado como uma das principais críticas à política do Governo o facto de assentar a retoma da economia portuguesa numa recuperação do rendimento disponível e da procura interna, algo que afirma não ser sustentável.

Esta terça-feira, Teodora Cardoso até defendeu que nesta matéria “houve uma melhoria muito importante no Programa de Estabilidade em relação ao OE, que foi o da redução da importância dada ao consumo privado como motor do crescimento”. Mas logo a seguir mostrou o seu cepticismo em relação ao caminho que está a ser seguido. “Para haver mais ênfase no investimento e nas exportações, é preciso proceder a alterações estruturais”, disse.

Mais tarde, quando questionada sobre se achava que o Governo estava a proceder a uma reversão de reformas estruturais, Teodora Cardoso disse não saber. “O que é preciso é haver um sentimento de que tem de haver continuidade. Não pode haver um Governo que faz para um lado e outro Governo que faz logo para um outro, sem que haja uma justificação”, defendeu.

Crítica ao optimismo

Outro ponto forte das mais recentes análises do CFP tem sido igualmente o tom crítico em relação às previsões macroeconómicas. “Em Portugal, é típico as previsões macroeconómicas serem altamente optimistas, especialmente no que diz respeito aos anos que estão no fim do horizonte de previsões. Não é nada de novo, mas é preciso mudar a lógica, porque a consequência foi um adiamento de medidas e a acumulação de dívida. A principal consequência do optimismo é que não se fazem as coisas que é preciso fazer”, defendeu, assinalando que Portugal está numa situação “muito mais vulnerável do que a maioria dos países”.

Questionada pelo PS sobre se não será motivo de maior confiança o facto de os países para onde se destina a maioria das exportações portuguesas – Espanha, Alemanha, França e Reino Unido – apresentarem perspectivas económicas positivas, Teodora Cardoso deu conta da existência de incerteza em quase todas as latitudes. Em Espanha, falou da existência de uma situação política instável, na Alemanha lembrou que as exportações portuguesas se destinam sobretudo a fornecer o sector exportador do país que atravessa dificuldades, em França referiu-se às pressões a que o país está a nível orçamental e no Reino Unido assinalou o risco de saída do país da União Europeia. Para além disso, Teodora Cardoso assinalou as crises por que passam Angola e Brasil. “Há incertezas em todos os casos e as incertezas vão todas na mesma direcção: a das coisas poderem ser piores do que se previa”, disse.

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