Autarquias descontentes com meia modernização da linha do Oeste

Intenção do governo em electrificar apenas o troço Meleças-Caldas fez destapar caixa de Pandora das reivindicações oestinas.

As obras nas Caldas da Rainha têm dividido PSD e CDS
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As obras nas Caldas da Rainha têm dividido PSD e CDS Sandra Ribeiro

O anúncio de que o Governo tenciona apenas modernizar a linha do Oeste entre Meleças e Caldas da Rainha, deixando o troço norte para as calendas, uniu os autarcas de todos os municípios que confinam com este corredor ferroviário, que agora exigem mais do que a simples continuação da electrificação.

Os protestos das câmaras municipais são transversais a todos os quadrantes políticos e levaram já a uma reunião em Loures, que teve lugar no dia 24 de Fevereiro, na qual participaram 35 representantes de 12 municípios – Caldas da Rainha, Figueira da Foz, Leiria, Lisboa, Loures, Mafra, Marinha Grande, Nazaré, Óbidos, Sintra, Soure e Torres Vedras.

Nessa reunião, que foi dinamizada pelo social-democrata Fernando Costa (vereador da câmara de Loures e ex presidente da câmara das Caldas) todos estiveram de acordo em que o investimento de 106,8 milhões de euros para electrificar os 84 quilómetros entre Meleças e Caldas só será potenciado se a modernização da via prosseguir até ao Louriçal (mais 87 quilómetros) por forma a que este último troço não fique uma “ilha” não electrificada na rede ferroviária nacional.

Para dar voz a esta pretensão ficou decidido que a Assembleia Municipal de Leiria iria produzir um documento para ser aprovado pelas assembleias municipais de todo o corredor oestino a fim de ser entregue ao governo. A próxima reunião terá lugar na Marinha Grande.

Um pouco por toda a região têm-se multiplicados as moções e comunicados autárquicos e de concelhias de partidos políticos contra a modernização de só metade da linha. A própria Comunidade Intermunicipal do Oeste (OesteCIM) divulgou um comunicado no qual refere que “é notória a preocupação dos autarcas do Oeste quanto à continuidade do investimento de forma a que os trabalhos prossigam até ao Louriçal e haja uma continuidade e esforço para integração da Linha do Oeste na rede ferroviária nacional”.

O comunicado refere ainda que “existe a necessidade de uma maior aproximação a Lisboa e assim o Cacém não é uma verdadeira alternativa”. Esta questão, sensível, foi também debatida em Loures, que defende a construção de uma nova linha entre Malveira e a gare do Oriente que passasse por este município. Uma proposta que agrada à maioria dos autarcas que vêem com bons olhos este “atalho” da linha do Oeste para Lisboa, mas que desagradou à câmara de Sintra.

Mais a norte as reivindicações relacionadas com a linha são de outra dimensão. Para a Assembleia Municipal da Marinha Grande, não basta a electrificação da linha do Oeste em todo o seu percurso. Num documento aprovado por unanimidade, os partidos defendem “um sistema intermodal de toda a região centro atlântica com a capital Lisboa, a sul, e as ligações internacionais a norte, Aveiro, tendo por nuclear duas premissas: uma estação dentro do aeroporto de Monte Real (futuro aeroporto internacional do Centro); um tempo médio de trajecto entre o aeroporto de Monte Real e Lisboa não superior a uma hora”.

A reivindicação da abertura do aeroporto militar de Monte Real ao tráfego civil ganha assim novo fôlego, entendendo os autarcas que deverá haver uma intermodalidade entre os modo aéreo e ferroviário.

O troço entre Caldas da Rainha e Louriçal (estação que fica a 25 quilómetros da Figueira da Foz) foi precisamente aquele que o governo anterior tentou encerrar para o serviço de passageiros em 2011, o que motivou idênticos protestos de todas as autarquias servidas pela linha, não só as do Oeste, mas também Leiria, Pombal, Figueira da Foz e Coimbra.

A par das movimentações políticas e de manifestações populares, foi então apresentado um plano de exploração da linha que a CP viria a aplicar e que fez disparar a procura de passageiros, evitando assim o seu encerramento. Na prática, tratou-se de mudar o términus da linha da Figueira da Foz para Coimbra, onde existe mais mercado e ligação à linha do Norte.