Vítor Bento aconselha Governo a estudar nacionalização do Novo Banco

Ex-presidente do BES e do Novo Banco lembra que o processo de consolidação bancária "vai ser definidor do nosso futuro".

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Vítor Bento, ex-presidente do Novo Banco Enric Vives-Rubio

O futuro do Novo Banco continua a gerar divergências, com o presidente da SIBBS, que estava à frente do BES na altura da Resolução, a aconselhar o poder politico a equacionar a possibilidade de usar a instituição para liderar o processo de consolidação bancária interno e reforçar o sector público. Um dossier cujo desfecho se tem vindo a complicar com várias vozes com influência politica e económica a defenderem soluções opostas.

Este fim-de-semana, em entrevista ao programa Conversa Capital, da Antena 1 e Diário Económico, o ex-presidente do BES e do Novo Banco defendeu que a opção de manter o Novo Banco no perímetro estatal deve ser considerada.

Em declarações ao PÚBLICO já este domingo, Vítor Bento reforçou a mensagem sublinhando “que o processo de consolidação bancária vai ser definidor do nosso futuro”, enquanto país, razão pela qual “o poder político deve decidir se este deve ser conduzido de fora”, por entidades externas, “ou internamente” pelas autoridades nacionais.

“Quando olhamos para o sistema financeiro, não podemos olhar peça a peça, mas para o seu conjunto,” e aconselha o Governo a, pelo menos, “equacionar se faz sentido, ou não, incluir o Novo Banco no sector público”. “Vale a pena estudar o cenário”, dada a ausência de capital privado em Portugal, refere o economista, para quem António Costa deve enfrentar Bruxelas com argumentos negociais, pois está em causa uma decisão relevante para o futuro.

Resta saber se o Executivo, apoiado por uma frente de esquerda, e onde a tese de Bento tem adeptos, possui vontade e margem para seguir esta via. Ou seja, se tem condições normativas (europeias) e técnicas, mas também de capital actual e futuro para colocar o Novo Banco no perímetro público. Isto, tendo em conta os desafios que se colocam ao sector, quer em termos de mobilização de fundos em grande escala, mas também pelo quadro de mudanças estruturais nas suas condições de exploração. Em paralelo, o Governo tem outra preocupação urgente: capitalizar a CGD, o que exige meios e "braços-de-ferro" com Bruxelas,por se tratar de uma ajuda pública a uma empresa.

As afirmações de Vitor Bento, este domingo, surgem depois de o Banco de Portugal, que gere o Fundo de Resolução (o instrumento público que detém no Novo Banco) ter falhado, em 2015, a venda do grupo liderado por Eduardo Stock da Cunha. E numa altura em que o governador Carlos Costa (agora num novo quadro politico) se prepara para arrancar com a segunda tentativa de alienação.O dossier é complexo, nomeadamente  por existirem no Governo sensibilidades distintas sobre o tema. E com o BE e o PCP a apostarem na estatização.

Além disso, têm saído notícias que dão conta de que o Banco Central Europeu e a Direcção Geral da Concorrência Europeia (DGCOM) podem estar a forçar a venda do segundo maior banco português a um grupo espanhol (com indicação do Santander, mas admitindo o Banco Popular ou o CaixaBank). Uma orientação que se inscreve na estratégia de criar grandes grupos europeus, o que passa por dar o domínio do mercado bancário da Península Ibérica a entidades espanholas.

O economista (e ex-conselheiro de Estado de Cavaco Silva) foi o primeiro presidente do Novo Banco (intervencionado a 4 de Agosto) de onde saiu em Outubro de 2014, em ruptura com o Banco de Portugal e o anterior executivo que anteciparam a venda para antes das últimas eleições legislativas de 2015. Decisão comunicada depois de Carlos Costa ter garantido à equipa de Vítor Bento pelo menos três anos para sanear e recuperar as contas da instituição.  

Na entrevista à Antena 1 e ao Diário Económico, Vítor Bento classificou ainda como “penosa a confrontação do Governo com o Banco de Portugal na praça pública”. Mas reconheceu que Carlos Costa e a sua equipa estão numa situação fragilizada, por terem convertido o Banco de Portugal numa “autoridade de resolução, sendo que as resoluções têm sempre uma componente política".