Os jovens estão a desistir da política, e a política parece prescindir deles

Há um reverso na abstenção jovem: os partidos e candidatos consideram inútil apresentar medidas que os convençam a votar. Porque os jovens, garantidamente, votam menos que o resto dos portugueses

Daniel Rocha
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Daniel Rocha

Já não é a primeira vez que acontece. Um responsável de uma candidatura chega à última e decisiva semana da campanha eleitoral e pergunta: A quem é que falta chegar? Que parte do eleitorado ainda pode ser mobilizada? Os jovens? "Não. Os jovens não votam."

De facto, todos os estudos demonstram que isso é verdade. António Salvador, responsável pela empresa de estudos de mercado Intercampus, fez uma pergunta à sua amostra de 1043 eleitores portugueses, na última semana de campanha eleitoral para as presidenciais. "No próximo dia 24 de Janeiro de 2016 vai realizar-se a eleição para o Presidente da República. Com base nesta lista, gostaria que me dissesse qual destas frases corresponde à sua situação." As opções eram cinco. De "é minha intenção ir votar de certeza" até "não estou a pensar ir votar". Quando se olha para as respostas, os jovens (entre os 18 e os 34 anos, 269 pessoas, no total) são os que menos declaram ter a certeza de ir votar (61,3%, contra percentagens sempre acima dos 70 nos outros intervalos etários). E são também aqueles que mais afirmam a intenção de se absterem: 13,4%, nesta amostra, numa proporção de quase dois para um, face aos maiores de 35 anos.

O que é novo, ou se mostra agora de uma maneira mais evidente, é que essa abstenção pode ter como consequência o risco de irrelevância política dos jovens. Pedro Sales, que integrou a direcção de campanha de Sampaio da Nóvoa, sublinha: "Com o progressivo alheamento dos jovens, corre-se o risco de os partidos passarem a olhar para eles como instrumento de retórica, sobretudo para atingir o voto dos pais e dos avós."
Disso são exemplos os únicos temas dirigidos à juventude que conseguiram ser centrais ao discurso políticos nas duas últimas eleições: a precariedade laboral, as políticas de natalidade e a emigração de jovens qualificados. Esses foram assuntos importantes, que afectam os eleitores sub-40, e que os maiores partidos, e os principais candidatos à Presidência, insistiram em manter no topo da agenda. Mas, como sublinha Sales, mais com o objectivo de "criar empatia" em quem realmente vota, os pais e avós.

Quando se procuram as razões para esse alheamento, elas surgem quase óbvias: "Falta de confiança na política", "falta de interesse pela política", "o voto é inconsequente, não muda nada". Estas três respostas representam quase 70% das razões apresentadas pelos abstencionistas portugueses, num dos poucos estudos pós-eleitorais feitos recentemente. Este inquérito do Eurostast, que foi realizado após as eleições europeias de Maio de 2014 demonstra que são os jovens que, em Portugal, mais se abstêm. Apenas 19% dos que têm entre 18 e 24 anos admitiu ter votado. A média europeia - porque este problema não é exclusivamente nacional -, no mesmo estrato etário, foi de 28%.

Nuno Garoupa, presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, faz algumas contas simples e aponta um exemplo: "Votam normalmente cinco milhões de portugueses. Basta somar 2,5 milhões de pensionistas e 800 mil funcionários públicos e fica claríssimo onde está o centrão, a convergência dos grandes partidos. Não havia nas últimas eleições um único partido que dissesse que ia cortar nas pensões dos mais velhos para salvar as pensões dos mais novos. Porquê? Porque essa gente não vota. Nem a PAF nem o PS explicavam o que queriam para a segurança social por isso."

Diogo Belford Henriques participou na última campanha da coligação PSD/CDS, e discorda desta premissa. Lembra, até, o investimento que foi feito nas redes sociais, um meio de chegar, sobretudo, aos mais jovens. O problema é outro, para Diogo Belford: os temas especificamente "jovens" estão resolvidos, na política portuguesa. O serviço militar obrigatório acabou. Os temas "pós-materiais" avançaram (aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo). Desse ponto de vista, as propinas foram, provavelmente, o último dos temas que os jovens portugueses conseguiram trazer para a agenda política.

Mas existem outros temas, que o discurso político exclui, e são relevantes para as novas gerações de eleitores. Na Europa do Norte, surgiram movimentos pela liberdade de partilha na internet - representados pelos "partidos piratas". Em Portugal, pouco se ouve falar dessa reivindicação.

Miguel Morgado, deputado do PSD, e professor de ciência política, considera que "não é nada evidente que o voto corresponda aos interesses de camadas sociais." Com a excepção, óbvia, dos pensionistas, Morgado garante que "não temos muita evidência de haver uma faixa etária a votar de acordo com o que seriam os seus interesses". E mesmo aí, com nuances, porque os pensionistas são avós, e se preocupam com o impacto futuro das medidas. Por isso, muito mais do que "um eleitorado atomizado", que vota em quem promete defender a sua agenda, Morgado acredita que os jovens se conquistam por "adesão ideológica".

O que, mais uma vez, os escassos dados provam, é que são os partidos mais afastados do "centro" os que mais captam voto jovem. Num estudo coordenado por Pedro Magalhães, no âmbito do projecto Comportamento Eleitoral dos Portugueses, realizado após as legislativas de 2009, o voto jovem beneficiava, sobretudo, o Bloco de Esquerda e o CDS. Ambos os partidos conseguiam, entre os jovens, percentagens superiores à media nacional (16 e 12%, respectivamente). Se só os jovens votassem, nessa eleição, o BE ficava a apenas 4% do PSD e 13% acima da CDU.

O Presidente da República encomendou, recentemente, dois estudos sobre a participação política dos jovens. Do primeiro (2007) para o segundo (2015) houve mudanças significativas. O mais recente, coordenado por Marina Costa Lobo, mostra que são menos os jovens que consideram que a democracia funciona bem (17,3%, cerca de metade do que acontecia no estudo anterior). Descida ainda mais acentuada é da valorização do voto. Quando 90% considerava muito importante o voto, em 2007, no último inquérito são apenas 70%.

Lembrando que o problema da abstenção é europeu, e se tem tornado "gravíssimo", António Salvador aponta os responsáveis: "Se os jovens não votam, a culpa é dos políticos. E o problema vai-se agudizando. Os políticos não falam para os jovens porque acham que não votam. " Nuno Garoupa usa o mesmo adjectivo: "O que acontece neste momento é que há uma grande abstenção jovem, gravíssima, de longa duração, de pessoas de 30 anos que nunca votaram e dificilmente votarão."

É essa preocupação que está na origem de uma campanha "dirigida particularmente aos estudantes do ensino superior e aos jovens", que as associações de estudantes universitários e o Conselho Nacional de Juventude lançaram: "Pretendemos que ajas, reajas e que sejas tu também um agente de promoção do envolvimento de todos em mais um momento decisivo para o futuro de Portugal."

Num final de tarde, na Rua Galeria de Paris, o centro da noite portuense, a rua ainda está vazia, mas um dos bares mais conhecidos, o 56, com as suas paredes com vitrines cheias de brinquedos antigos, está cheio. Os Vampiros, de Zeca Afonso, passam no sistema de som. A primeira fila de cadeiras, umas 30 pessoas, ocupada por cinquentões e sexagenários. A acção de campanha que Sampaio da Nóvoa tinha consagrado aos jovens foi tomada pelos pais, e alguns avós.

Foi assim, em quase todos os momentos desta campanha das presidenciais: Maria de Belém em lares e Misericórdias, Marcelo Rebelo de Sousa a distribuir afectos pela população idosa.

O ciclo vicioso pode bem ser esse: uns desinteressam-se os outros desistem. Mas não é inevitável que os jovens se tornem numa faixa demográfica eleitoral irrelevante.

NÚMEROS
13,4%
Eleitores entre os 18 e os 34 anos que afirmou abster-se nas eleições presidenciais. É a percentagem mais alta de todas as faixas etárias. Fonte: Intercampus

19%
Portugueses entre os 18 e os 24 anos que admitiram ter votado nas últimas eleições europeias. Fonte: Eurostat

17,3%
Dos jovens consideram que a democracia portuguesa funciona bem. Fonte: Inquérito à participação política dos jovens, Presidência da República, coord. Marina Costa Lobo