A América virou à esquerda

O próximo Presidente democrata será mais liberal do que foi Obama. O próximo Presidente republicano será mais liberal do que foi George W. Bush.

Nos últimos 18 meses, vários acontecimentos paralisaram o país:

2014. Em Julho, Eric Garner, um afro-americano que alegadamente se encontrava a vender cigarros avulsos de forma ilegal, foi sufocado até à morte por um polícia nova-iorquino. Em Agosto, Darren Wilson, um polícia branco, alvejou e matou Michael Brown, um adolescente afro-americano, em Ferguson, no Missouri. Durante as duas semanas que se seguiram, houve protestos da população contra a polícia, que estava armada até aos dentes e com equipamento militar. O governador do Missouri disse que a cidade de Ferguson mais parecia um palco de guerra.

Em Dezembro, veio a vingança pelas mortes de Brown e Garner: um afro-americano com cadastro assassinou dois agentes do departamento da polícia de Nova Iorque. No funeral, centenas de polícias viraram as costas ao mayor de Nova Iorque, o liberal Bill de Blasio.

Em Abril de 2015, Freddie Gray, outro afro-americano, morreu enquanto estava em prisão preventiva, em Baltimore. Em resultado do caos que se seguiu à sua morte, 200 estabelecimentos comerciais ficaram arrasados, 113 polícias foram feridos e 486 pessoas foram presas. Para tentar debelar a onda de violência, as equipas de basebol Chicago White Sox e os Baltimore Orioles adiaram por duas vezes um jogo e quando finalmente jogaram foi num estádio vazio ao som das sirenes que se ouviam à distância.

Depois, em Julho, activistas do Black Lives Matter, um movimento que se tornou notado por todo o país logo a seguir à morte de Brown, interromperam os discursos de dois candidatos presidenciais democratas em Phoenix, no Arizona. Enquanto o antigo governador do Maryland, Martin O’Malley, se inquietava no palco, os activistas gritavam: “Se eu morrer na preventiva, vinguem a minha morte! Por todos os meios necessários!”; “Se eu morrer na preventiva, larguem fogo a isto tudo!” O’Malley ripostou: “As vidas dos negros importam, as vidas dos brancos importam, todas as vidas importam.” Foi vaiado. Nesse mesmo dia, pediu desculpa.

Donald Trump, já à frente da corrida para a nomeação pelo Partido Republicano para as presidenciais prometendo ser o representante da “maioria silenciosa”, referiu-se a O’Malley como “um fraco, nojento e patético bebé”.

Quem esteja familiarizado com a política americana ouve aqui alguns ecos. Por exemplo, a frase “por todos os meios necessários” foi usada por Malcolm X durante um discurso em Julho de 1964 em Manhattan e ficou popular desde então. A seguir ao assassínio de Martin Luther King em Abril de 1968, Baltimore estava a ferro e fogo, como já tinha acontecido noutras cidades a braços com a violência racial que entre 1964 e 1969 explodia a cada Primavera e Verão. Em Novembro de 1969, o Presidente Richard Nixon fez um discurso na Sala Oval no qual vincou a frase “maioria silenciosa”. Era mesmo o que os americanos brancos cansados de anos de criminalidade e de radicalismo queriam ouvir. Nos anos 60 e 70, começa a sua revolta contra o Partido Democrata.

Para os americanos atentos aos paralelismos da História, a utilização de um vocabulário e de uma iconografia daqueles tempos poderá ser um sinal do regresso do conservadorismo. Esta era a minha tese quando me sentei para escrever este texto. Tornei-me adulto nos anos 80 e 90, quando o coração dos democratas se enchia de terror com a ideia da resistência ao liberalismo dos anos 60. Vi Ronald Reagan em dificuldades para fazer o país guinar à direita e vi Bill Clinton apaziguar-se com esta nova realidade política ao assegurar à América branca que o seu partido iria combater impiedosamente a criminalidade.

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Ferguson, Agosto de 2014: polícia dispara gás lacrimogénio contra os manifestantes que contestam a morte de Michael Brown JOE RAEDLE/AFP

Este ano, ao ver como os candidatos democratas à presidência sucumbem perante movimentos como o Black Lives Matter e como têm largado a cautela ideológica de Clinton para assunmir um discurso mais à esquerda, pressupus que o país estaria a preparar uma resposta fortemente conservadora.

Estava enganado. Quanto mais analiso os indícios, mais me apercebo de que o actual momento em que vivemos é como que o reflexo ao espelho do final dos anos 60 e início dos 70. As semelhanças estão lá, mas o seu significado político foi totalmente virado do avesso. Há um repúdio ao liberalismo da era Obama que se ouve mais do que se pratica. O país, em vez de virar à direita, continua a inclinar-se para a esquerda.

Isto não quer dizer que os republicanos não estejam a saber manter a sua força política nas câmaras estaduais e no Congresso. Nem quer dizer que, mais tarde ou mais cedo, um republicano não venha a reclamar o seu lugar na Casa Branca. Quer dizer, isso sim, que em matéria de política interna — muito mais do que a política externa, que normalmente segue outra trajectória — o debate nacional pode vir a tomar contornos mais à esquerda. O próximo Presidente democrata será mais liberal do que foi Barack Obama. O próximo Presidente republicano será mais liberal do que foi George W. Bush.

No final dos anos 60, início dos 70, entre a militância à esquerda e as lutas raciais, assistimos ao fim da era liberal. Hoje, entre a militância à esquerda e as lutas raciais, há uma era liberal que só agora está a dar os primeiros passos. Perceber as razões que nos conduziram até aqui é perceber as razões pelas quais o Partido Democrata — e, ainda mais importante, o país na sua globalidade — se está a tornar mais liberal.

A história desta inclinação à esquerda no Partido Democrata conta-se em dois capítulos. O primeiro diz respeito à presidência de George W. Bush. Antes de Bush, o Partido Democrata acreditava num liberalismo sem remorso. O partido tinha uma forte ala centrista representada no Congresso pelos brancos do Sul, pessoas como Al Gore, o senador do Tennessee que apoiou a política de defesa nacional de Ronald Reagan; ou Sam Nunn, o senador da Georgia que tentou impedir o avanço da proposta de Bill Clinton à inclusão de gays na carreira militar. Para estes, a orientação intelectual vinha de organismos como o Conselho para a Liderança Democrática, que se tinha oposto à subida do salário mínimo; ou da The New Republic (a revista que dirigi no princípio da década de 2000), que atacava a discriminação positiva e o Roe versus Wade [um caso que deu origem à completa liberalização do aborto nos Estados Unidos]; ou ainda da revista Washington Monthly, que propunha o apuramento das condições financeiras para cada pessoa que se candidatasse ao apoio da Segurança Social.

Para os democratas centristas, Reagan, apesar de todos os defeitos, até se safou, e bem, nalguns dos temas mais quentes. A União Soviética era um demónio. A carga fiscal era demasiado alta. A fiscalização excessiva tinha abafado o crescimento económico. Os tribunais tinham sido muito permissivos a lidar com a criminalidade. E enquanto os democratas não aceitassem estas questões, acreditavam os centristas, não poderiam ganhar as presidenciais, não mereciam, sequer, a Casa Branca. No final das décadas de 1980 e 1990, uma influente comunidade composta por políticos próximos do Partido Democrata, estrategas, jornalistas e especialistas políticos acreditavam ser um dever moral e politicamente necessário criticar abertamente o liberalismo vindo da direita. 

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O Presidente Ronald Reagan lança uma bola de neve na Casa Branca (Fevereiro de 1986) Mike SARGENT/AFP

George W. Bush conseguiu dar cabo desta gente. E conseguiu-o em parte por tornar o Sul mais Republicano — a base política de Reagan tinha sido sobretudo na costa Oeste —, ajudando assim à extinção lenta dos democratas sulistas brancos que já vinham do tempo em que o partido defendia os direitos civis. Mas Bush conseguiu também destruir intelectualmente os democratas da ala centrista, ao impossibilitá-los de criticar de forma credível o liberalismo da direita.

No final da década de 1980 e 1990, os democratas centristas argumentavam que as decisões de Reagan em reduzir de 70 para 50% o imposto sobre os escalões com maiores rendimentos e em aliviar o controlo estatal tinham ajudado a catapultar a economia. Contudo, em 2001, quando Bush baixou ainda mais a carga fiscal sobre os rendimentos elevados — de 50 para 35% — e impôs medidas ainda mais leves para a regulação estatal, a economia pouco cresceu — ao invés, aumentaram as desigualdades sociais e o défice, e depois veio o crash do sistema financeiro.

No final da década de 1980 e 1990, os democratas centristas usavam também o argumento de que a decisão de Bush de aumentar o orçamento da defesa e ajudar os mujahedines afegãos tinha contribuído para a queda do império soviético. Mas em 2003 Bush invadiu o Iraque e com isso deu azo à maior catástrofe da política externa desde o Vietname.

Se a era Reagan mostrou aos democratas como estes deveriam reconhecer o trabalho feito por um Presidente republicano, então podemos dizer que a lição da era Bush é que isso afinal só trouxe desgraças. No Senado, a legislação de Bush sobre o corte nos impostos passou com 12 votos dos democratas; já a Guerra no Iraque foi viabilizada com 29. À medida que nos fomos apercebendo das consequências calamitosas deste tipo de decisões, crescia a revolta que levaria à destruição da ala centrista do Partido Democrata.

Em Fevereiro de 2003, Howard Dean, um obscuro governador do Vermont, dizia: “O que eu quero mesmo saber é por que raio a liderança do Partido Democrata apoia a decisão unilateral do Presidente em invadir o Iraque? O que eu quero mesmo saber é por que raio os líderes do Partido Democrata estão a apoiar a redução de impostos?” Quando esse ano chegou ao fim, Dean — candidato à presidência contra um grupo de democratas de Washington, apoiantes da Guerra no Iraque — era o nome mais forte nas nomeações do Partido Democrata para chegar às eleições presidenciais.

A sua campanha abriu caminho a uma revolução intelectual dentro do partido; a sua rebelião alimentou os ideais dos bloggers ultraliberais do Daily Kos, que defendiam o endurecimento da espinha dorsal do liberalismo, e animou os progressistas do grupo MoveON [organização política que funciona à margem do establishment partidário].

Coincidiu ainda com a emergência de Paul Krugman como o mais influente colunista liberal da América e com a de Jon Stewart como a mais influente personalidade liberal da televisão. Em 2003, a MSNBC contratou o apresentador Keith Olbermann e depressa se tornou na fervorosa estação de televisão por cabo dos liberais americanos. Em 2004, a revista The New Republic pediu oficialmente desculpa por ter apoiado a intervenção no Iraque. Em 2005, o Huffington Post nasceu como a alternativa liberal ao Drudge Report. Em 2006, o senador Joe Lieberman, considerado um dos “falcões” mais francos e directos do Partido Democrata, perdeu as primárias para o Senado e tornou-se um independente. Em 2011, o Conselho para a Liderança Democrática, que anos antes já tinha perdido a sua influência, fechou portas.

Quando em 2008 Barack Obama derrotou Hillary Clinton na nomeação dos democratas para as presidenciais — que em muito se ficou a dever ao apoio de Hillary à Guerra do Iraque —, já o ambiente dentro do partido tinha mudado drasticamente. Enquanto no passado as cabeças mais influentes do partido tinham acicatado os democratas a criticar a ortodoxia liberal, agora estavam prontas a criticá-los por não a saberem defender com unhas e dentes. Com a presidência de George W. Bush, os democratas tinham-se tornado flagrantemente liberais; e a presidência de Barack Obama foi o resultado mais visível disso mesmo.

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4 de Novembro de 2008: Barack Obama faz o seu discurso de vitória em Chicago Anthony Jacobs/Getty Images/AFP

Mas esta é apenas metade da história. Porque se os erros de George W. Bush empurraram os democratas para a esquerda, Barack Obama empurrou-os ainda mais. Se Bush foi responsável pela conjuntura que ajudou a eleger Obama, então Obama, ainda que inadvertidamente, contribuiu para o aparecimento de dois movimentos — Occupy e Black Lives Matter — que partem ambos da premissa de que até o liberalismo defendido pelo Presidente não é suficientemente de esquerda.

No Congresso, os republicanos têm sabido manter uma oposição férrea e militante a Obama, o que nos impede de perceber se o Presidente poderia ter-se servido do argumento da crise financeira para tentar conter Wall Street. O que é um facto é que não o fez. E apesar de ser um dos Presidentes mais inspiradores de que há memória, quando os jovens activistas olham à sua volta continuam a ver um país dominado pelos titãs de Wall Street e uma população que sofre. Em resposta, criaram o Occupy Wall Street.

Quando alguns académicos da Universidade de Nova Iorque começaram a estudar os activistas do Occupy que tomaram de assalto o parque Zuccotti [muito perto da Bolsa], descobriram uma coisa que os surpreendeu: 40% das pessoas que ali montaram acampamento tinham trabalhado na campanha presidencial de 2008, a sua maioria para Obama. Muitos tinham a expectativa de que, uma vez eleito Presidente, Obama fosse o verdadeiro motor da mudança. E agora que viam as suas esperanças goradas desafiavam Wall Street.

“O desencanto com Obama foi o gatilho para muitos dos participantes no movimento Occupy”, salientam os investigadores da Universidade de Nova Iorque. O sociólogo Todd Gitlin, da Universidade de Columbia, escreveu um livro sobre o movimento, Occupy Nation, no qual cita Jeremy Varon, professor na New School for Social Research e que tem sido um observador próximo do Occupy: “Isto é a geração Obama a declarar a sua independência face ao seu Governo. Pensámos que a voz dele era a nossa. Percebemos agora que teremos de falar por nós.”

O Occupy dominou a atenção do país durante algum tempo. Em Dezembro de 2011, como nota Gitlin, só na Califórnia o movimento já contava com 143 células. Depois, caiu no esquecimento. Mas, parafraseando o cientista político Frances Fox Piven, “os maiores movimentos de protesto da História não cresceram simplesmente em arco crescente de rebeldia popular. Ao contrário, começaram num sítio muito específico, foram esmagados e vilipendiados para mais tarde reaparecerem noutro sítio qualquer e sob uma outra capa, influenciados pelas circunstâncias e a cultura desses locais”.

E foi o que aconteceu com o Occupy. O movimento pode ter-se esfumado mas enquanto durou conseguiu injectar o tema das desigualdades económicas no debate político americano (durante as semanas dos acampamentos no parque Zuccotti, quintuplicaram as referências ao movimento nos media). O mesmo ódio que ateou o fogo do Occupy — e que se dirigia não apenas a Wall Street mas também às elites do Partido Democrata que a mimavam — serviu para alimentar a eleição de Bill de Blasio e a ascensão de Elizabeth Warren. Se calhar, se o Occupy não tivesse existido, nem compreenderíamos como é que um socialista Democrata maldiposto do Vermont é um candidato sério a disputar as primárias com Hillary Clinton. No dia em que Bernie Sanders anunciou a sua candidatura, teve logo o aval de um grupo de veteranos do Occupy. Nas palavras de Stan Williams, um antigo activista do movimento, “os principais apoiantes de Bernie Sanders são pessoas do Occupy. Esta campanha tem as nossas impressões digitais”.

Mas talvez seja ainda mais significativo a reacção das elites democratas a esta campanha. Se estivéssemos no final dos anos 80 e 90, estariam a crucificá-lo. Para o Conselho da Liderança Democrática, que tentou que o partido se tornasse mais próximo dos empresários, um socialista convicto teria sido a estocada perfeita. Hoje, Sanders tem pouca ou nenhuma oposição ideológica num partido onde o ethos dominante é “não há inimigos à esquerda”. E esta é uma verdade tanto para activistas e intelectuais como para os financiadores. Para a imprensa, é quase certo que quem passa os cheques tem uma agenda a impor, sobretudo no que toca aos temas económicos. E sim, alguns têm. Mas como escrevia John Judis no National Journal, a própria Aliança para a Democracia, fundo que providencia os principais financiamentos aos democratas e que inclui nomes de peso como George Soros e Tom Steyer, virou à esquerda durante os anos Obama. Em 2014, quando o grupo se reuniu para o seu encontro anual de Inverno, o discurso de Elizabeth Warren foi entusiasticamente acolhido. E na Primavera passada anunciaram que iriam fazer da desigualdade económica a sua prioridade.

Tudo isto tem moldado a campanha de Hillary Clinton em resposta a Sanders. No primeiro debate dos democratas, Hillary reforçou que, ao contrário de Sanders, pretende “controlar os excessos do capitalismo” em vez de pura e simplesmente o deixar cair. Mas a única política específica que, frisou, os distancia é a lei de venda e posse de armas, e aí desferiu a Sanders um golpe vindo da esquerda.

Além de que o eixo Occupy-Warren-Sanders tem influenciado a agenda económica de Clinton e esta tem-se revelado muito mais liberal do que aquela com que se apresentou em 2008. Hillary tem vindo a exigir uma regulação mais apertada para a indústria financeira e tem-se referido ao aumento da carga fiscal sobre os rendimentos mais elevados (algo a que se opunha em 2008). Tem ainda criticado abertamente o acordo da Parceria do Transpacífico [ou TPP, como ficou conhecido o maior projecto de livre comércio das últimas décadas e a grande jogada de poder dos Estados Unidos na Ásia], do qual era uma adepta efusiva. Sobretudo, como escreveu Matthew Yglesias no Vox, Clinton parece “menos inclinada para favorecer uma abordagem orientada para os mercados do que uma abordagem mais liberal, e isso é uma verdadeira mudança no modo como o Partido Democrata tem actuado no último quarto de século”. Já Kira Lerner ressalva no ThinkProgress que “a sua viragem à esquerda distancia as suas políticas das de Obama ou do marido”.

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O Occupy conseguiu injectar o tema das desigualdades económicas no debate político americano NATHAN ARMES/Reuters

Assistimos ao mesmo tipo de dinâmica em matérias de justiça criminal e de raça. Desiludidos com Obama, os activistas estão a virar-se para a esquerda. E têm descoberto que tanto Clinton como o resto do aparelho partidário até lhes fazem companhia.

Obama não tinha planeado deixar legados como o Occupy ou o Black Lives Mater. Este último, que nasceu em 2013, quando George Zimmerman foi absolvido da morte de Trayvon Martin, e explodiu no ano seguinte, depois da morte de Michael Brown, tem criado raízes. E surge como resposta à subida das taxas de encarceramento de décadas e à vaga de assassínios cometidos pela polícia, alguns deles filmados em vídeo.

Mas mostra, sobretudo, o quanto Obama desiludiu. Não há nada de novo nesta violência contra os afro-americanos. Contudo, saber que se mantém mesmo quando temos na presidência um afro-americano foi argumento para convencer estes jovens activistas afro-americanos que os liberais do establishment, mesmo aqueles que são negros, afinal não trazem mudanças estruturais. Apenas a acção directa os pode forçar a agir.

“O movimento Black Lives Matter desenvolveu-se na sequência do falhanço da Administração Obama”, diz o sociólogo Travis Gosa, da Universidade de Cornell, e co-director do The Hip Hop & Obama Reader. “O Black Lives Matter é a voz de uma geração de millennials a quem foi deixada uma factura pesada.” Esta nova geração de activistas “não quer investir num país que tem como Presidente um negro e em simultâneo crianças negras que acabam mortas nas ruas mesmo sem recurso a armas”, escreve Britnney Cooper, um professor de Estudos Africanos e Questões Feministas e de Género na Universidade de Rutgers. E olham desconfiados para a acção dos activistas mais velhos como Al Sharpton, um apoiante de Obama. “A única fé que resta a esta geração, por mais arrogante que isto possa parecer, é neles próprios enquanto agentes da mudança”, argumenta Cooper.

Tivesse Bill Clinton um movimento como o Black Lives Matter enquanto andou em campanha para a presidência, e talvez ele próprio tivesse sido um dos seus opositores. Em Janeiro de 1992, Bill Clinton voou até ao Arkansas para assistir à execução de um afro-americano, Ricky Ray Rector. Estávamos a menos de três semanas de começarem os caucus no Iowa [chamam-se caucus às assembleias políticas em que os eleitores registados num partido discutem as propostas dos seus candidatos e manifestam publicamente o seu apoio por um determinado representante; arrancam amanhã os das presidenciais de 2016] e Ricky tinha atingido um tal grau de deficiência mental que, prestes a ser executado, nem sabia que as pessoas que tinha alvejado morreram. Depois, em Junho desse ano, na sequência dos motins de Los Angeles, a rapper Sister Souljah terá respondido da seguinte forma a uma questão sobre os afro-americanos que tinham atacado brancos: “Se todos os dias temos negros a matar negros, por que não ter então uma semana em que matamos brancos?” Clinton desancou-a publicamente. Na ânsia de vincar a sua posição mais centrista, Clinton encontrou nesta militância afro-americana um inestimável desígnio.

Actualmente, pelo contrário, o aparelho democrata responde ao Black Lives Matter da mesma forma que respondeu ao Occupy: com aplausos. Em Julho, na conferência da Netroots Nation, em Phoenix, os activistas do Black Lives Matter interromperam repetida e violentamente Sanders e o seu colega candidato Martin O’Malley. A certa altura, um activista subiu ao palco e disse que o evento estava a decorrer sobre “terreno indígena” cuja fronteira “foi pela doutrina do destino manifesto [que defende que o expansionismo americano cumpre a vontade divina] da supremacia branca”. Durante quase 15 minutos, O’Malley ficou em silêncio enquanto os activistas faziam os seus discursos no palco.

Depois disso, os ideólogos liberais criticaram O’Malley e Sanders por não terem expressado mais compaixão pelas pessoas que interromperam os seus eventos. “Ambos os candidatos estavam hesitantes”, argumentou o The Nation. “Sinceramente”, avançou o MoveOn, “todos os candidatos presidenciais democratas têm de fazer melhor do que isto.”

Os próprios candidatos concordaram. Ao final do dia, O’Malley pediu publicamente desculpa por ter dito que “todas as vidas são importantes”, o que segundo os activistas minimizava a singularidade da violência estatal contra os afro-americanos. Não demorou a apresentar um plano ambicioso para reduzir a brutalidade policial e os níveis de detenções, tal como uma emenda constitucional para proteger o direito a votar.

Sanders também se desculpou. Contratou um assessor de imprensa afro-americano simpatizante do Black Lives Matter, acrescentou um capítulo sobre “justiça racial” ao seu site, juntou-se a membros do Congressional Black Caucus para ser aprovada legislação que proíba as prisões privadas e começou a citar publicamente nomes de afro-americanos mortos pela polícia.

Hillary Clinton, que já tinha prometido “acabar com a era de encarceramento em massa” que o seu marido e outros democratas ajudaram a lançar na década de 1990, encontrou-se duas vezes com activistas do Black Lives Matter. Bill Clinton disse que lamenta o papel que ele próprio teve na expansão do estado prisional. E o Comité Nacional Democrata aprovou uma resolução de apoio ao Black Lives Matter, da qual o movimento rapidamente se desvinculou.

Durante as primárias, os candidatos tendem a inclinar-se para as bases partidárias. Por isso, o que é mais notável não é ver Hillary Clinton, ou o Partido Democrata, alinhar-se à esquerda. É a vontade dos americanos em acompanhá-los.

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Hillary Clinton em campanha em Coralville, no Iowa SCOTT OLSON/AFP

Tomemos como exemplo o Black Lives Matter. Na década de 1960, os motins de afro-americanos e o movimento Black Power levaram a uma reacção adversa por parte da população branca. Em Abril de 1965, referem Thomas e Mary Edsall no seu livro Chain Reaction, 28% dos brancos não-sulistas achavam que o Presidente Lyndon B. Johnson estava a avançar “demasiado depressa” no campo dos direitos civis. Em Setembro de 1966, depois de motins em Los Angeles, Chicago e Cleveland, e da viragem da integração racial para o Black Power feita pelo Student Nonviolent Coordinating Comittee, essa taxa passou para os 52%.

Mas desta vez está a acontecer o contrário. Em Julho de 2014, o Pew Research Center revelou que 46% dos americanos concordam com a frase: “O nosso país precisa de continuar a trazer mudanças para dar aos negros direitos iguais aos brancos.” Em Julho 2015, depois dos motins em Ferguson e Baltimore, e do aparecimento do Black Lives Matter, esse número aumentou para 59%. Entre o Verão de 2013 e o Verão de 2015, diz a Gallup, a percentagem de americanos que se declararam “satisfeitos com a forma como os negros são tratados na sociedade americana” caiu de 62% para 49%. Em 2015, a confiança da população na polícia foi a mais baixa em 22 anos.

A maior parte desta mudança está a acontecer devido a alterações no posicionamento da população branca. Só entre Janeiro e Abril de 2015, a percentagem de brancos que considerou mortes como as de Michael Brown e Freddie Gray um “incidente isolado” caiu 20 pontos, segundo uma sondagem da YouGov.

Houve até um movimento dentro do Partido Republicano. Entre 2014 e 2015, a percentagem de republicanos que dizem que os Estados Unidos precisam de fazer mudanças para que os negros tenham as mesmas oportunidades aumentou 15 pontos — mais do que o aumento registado entre democratas e independentes.

Mas isto não quer dizer que Ferguson, Baltimore e o Black Lives Matter não tenham trazido também alguns reveses. Donald Trump considerou que “a forma como eles [Black Lives Matter] estão a ser tratados pelos democratas” é uma “desgraça”. Ted Cruz acusou o movimento de incitar ao assassínio de polícias, um tema também abordado pela Fox News.

Mas mesmo que alguns políticos republicanos tenham atacado o Black Lives Matter, outros estão a trabalhar com os democratas para promover uma agenda de reformas na polícia e nas prisões. No ano passado, o então presidente da Câmara dos Representantes, John Behner, declarou: “Temos muitas pessoas na prisão que, honestamente, na minha opinião, não precisavam de lá estar.” Em Outubro, um grupo de senadores conservadores — Chuck Grassley, John Cornyn, Mike Lee e Lindsey Graham — juntou-se aos democratas na aprovação de legislação para reduzir as penas mínimas por crimes não violentos relacionados com droga, reverter as sentenças que aumentam as penas para reincidências de crimes graves, acabar com a detenção em isolamento para jovens e permitir aos adolescentes ficarem com o cadastro limpo.

Mesmo entre os republicanos que se candidatam à presidência, a agenda está a afastar-se da abordagem punitiva que ambos os partidos chegaram a ter. Mike Huckabee, Rand Paul, Chris Christie, John Kasich e Ted Cruz condenaram todos o tempo de prisão excessivo para condenados por crimes de droga.

Mais interessante ainda — por se tratar de um candidato republicano com uma particular capacidade de chegar a um público alargado — tem sido a abordagem do senador Marco Rubio. Em Agosto, o pivot da Fox News questionou-o a propósito do Black Lives Matter. Em vez de condenar o movimento, Rubio contou a história de um amigo afro-americano que nos últimos 18 meses tinha sido parado pela polícia umas oito ou nove vezes apesar de nunca ter infringido a lei. “Este é um problema que o nosso país tem de resolver”, declarou Rubio. Depois falou sobre afro-americanos que são presos por crimes não violentos e empurrados para recursos com advogados oficiosos que já estão sobrecarregados de trabalho. O Governo, disse, tem de “procurar formas de evitar que as pessoas” sejam levadas para as cadeias “para que não tenhamos pessoas estigmatizadas ainda tão jovens”.

Os republicanos conservadores não falavam assim na década de 1990. Nem sequer falavam assim nos primeiros anos de Obama. O facto de Rubio o fazer agora é mais uma prova de que hoje, ao contrário de em meados dos anos 1960, o debate sobre a raça e a justiça não está a virar à direita. Está a virar ainda mais à esquerda.

O que mudou desta vez? Uma das diferenças é que nos anos 60 e 70 o crime explodiu, fomentando uma política de medo e vingança. Ao longo das últimas duas décadas, pelo contrário, o crime decaiu. E, apesar de algumas manchetes hiperbólicas, não há provas claras de que esteja novamente a aumentar. Tal como apontou Max Ehrenfreund no Washington Post em Setembro, depois de analisar os dados até 2015, “enquanto o número de homicídios subiu em muitas cidades grandes, os aumentos são moderados, não mais do que eram há uns anos. Entretanto, o crime decresceu noutras. Em geral, a maior parte das cidades é ainda bem mais segura do que era há duas décadas”.

Não é só em relação à criminalidade que a deriva à esquerda do Partido Democrata está a ser bem aceite. Por exemplo, nos direitos LGBT: há uma década, seria um suicídio um político democrata defender abertamente o casamento homossexual. Agora, o debate está generalizado, e os liberais estão a avançar com leis contra a discriminação de pessoas transgénero, um grupo que muitos americanos nem sabiam que existia até Caitlyn Jenner saltar para as manchetes. À primeira vista, isto poderá parecer uma mudança demasiado grande e demasiado rápida. A igualdade no casamento, bem vistas as coisas, dá aos homossexuais acesso a uma instituição fundamentalmente conservadora. Mas o movimento de defesa dos direitos transgénero coloca uma questão bem mais radical: devem as pessoas poder definir o seu próprio género, independentemente da biologia?

A resposta do país, sem sombra de dúvida, parece ser sim. Quando o Williams Institute, da Faculdade de Direito da UCLA, examinou as sondagens, descobriu que entre dois terços e três quartos dos americanos apoiam que se proíba a discriminação contra as pessoas transgénero. Também verificou que há um aumento significativo nos últimos anos dos americanos que consideram este tipo de discriminação um “grande problema”. De acordo com Andrew Flores, que dirigiu o estudo, as posições quanto a gays e lésbicas fazem prever as posições em relação às pessoas transgénero. A maioria dos inquiridos, tendo decidido que a discriminação contra homossexuais é errada, simplesmente incluiu nas suas posições as pessoas transgénero, naquilo a que Flores chama “mecanismo de generalização de atitudes”.

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Uma marcha pelos direitos LGBT em West Hollywood, na Califórnia David McNew/Getty Images/AFP

É por isso que, na corrida presidencial de 2016, os republicanos não se mostraram muito preocupados em se opor aos direitos transgénero. Em Julho, o Pentágono anunciou que as pessoas transgénero poderão também cumprir serviço militar sem ocultar a sua identidade. Entre os candidatos republicanos, Mike Huckabee criticou a medida. Outro, Jeb Bush, pareceu apoiá-la. Os outros fugiram ao assunto.

Também não tem havido grande contestação no campo económico. Obama interveio mais na economia do que qualquer outro Presidente no último meio século. No seu primeiro ano, avançou com o maior estímulo da história americana — maior, em termos de ajustamento da inflação, do que a famosa Works Progress Administration [uma agência para fazer avançar o New Deal, que levou à criação de três milhões de postos de trabalho], de Franklin Roosevelt. No seu segundo ano, fez passar no Congresso um maior acesso aos cuidados de saúde, algo com que os progressistas sonhavam desde Theodore Roosevelt. Nesse mesmo ano, assinou uma lei de mais regulação bolsista. Também gastou cerca de 20 mil milhões de dólares em investimento na indústria automóvel, aumentou os padrões de eficiência energética de carros e camiões, endureceu os padrões de emissões para as fábricas que utilizam carvão, autorizou a Environmental Protection Agency [agência para a protecção do ambiente] a regular a produção de dióxido de carbono, alargou a capacidade da Food and Drug Administration [agência que regula os medicamentos e produção alimentar] de regular a venda de tabaco, duplicou a quantidade de frutas e legumes obrigatórios nos almoços escolares, definiu 800 mil hectares como área florestal e protegeu mais de 1600 quilómetros de rios.

Esta intervenção originou uma resposta inflamada por parte da direita republicana, mas não no conjunto dos americanos. Nas sondagens, os americanos tradicionalmente dizem que querem um Governo mais pequeno, em geral, ao mesmo tempo que apoiam muitos programas governamentais específicos. Quando Bill Clinton foi investido, em 1993, os americanos diziam-se favoráveis a “um Estado mais pequeno que garantisse menos serviços” por comparação a “um Estado maior que garantisse mais serviços”, com uma diferença de 37 pontos. Quando Obama foi investido, em 2009, a margem era de apenas oito pontos. E apesar das muitas intervenções económicas do Presidente, a margem manteve-se exactamente a mesma na última vez que a Pew fez o inquérito, em Setembro de 2014.

Na área da saúde, a história é parecida: não houve contestação popular. Quando Obama assinou o Affordable Care Act [que alarga o número de americanos com acesso a cuidados de saúde] em Março de 2010, a maioria das sondagens mostrava que os americanos eram contra, por uma margem que ia dos 8 aos 10 pontos. Hoje, a margem é quase igual. E também pouco mudou quanto a impostos, apesar de Obama ter permitido que alguns dos cortes autorizados por George W. Bush tivessem expirado. A percentagem de americanos que dizem pagar mais impostos do que deveriam é a mesma que era na Primavera de 2010 (o Pew não tem dados para 2009) e mais baixa do que era durante os anos Clinton.

É verdade que os americanos se tornaram mais conservadores em algumas questões durante os últimos anos. O apoio ao controlo de armamento caiu na era Obama, ainda que o Presidente e outros democratas o tenham promovido mais agressivamente. Os republicanos também têm uma vantagem renovada no combate internacional ao terrorismo, uma questão que assumiu mais destaque com a emergência do Estado Islâmico. Ainda assim, numa altura em que o Governo se tornou mais intrusivo, os activistas afro-americanos assumiram um tom mais confrontacional, e as antigas posições sobre a orientação sexual e a identidade de género foram derrubadas, a maioria dos americanos não está a gritar “parem”, como fazia em meados dos anos 1960. A principal razão: não estamos a lidar com o mesmo grupo de americanos.

Em todas as questões, são os jovens que estão mais agradados com as mudanças de política liberal da era Obama, e querem mais. Em 2014, um estudo do Pew concluiu que os americanos com menos de 30 anos tinham duas vezes mais probabilidades do que os americanos de 65 de considerar “fraca” a tarefa de “tratar de forma igualitária os grupos raciais e étnicos”, e mais do que o dobro de probabilidades de considerar que os jurados do caso Ferguson fizeram mal em não acusar Darren Wilson pela morte de Michael Brown. Segundo o YouGov, mais do que um em cada três americanos acima dos 65 anos acham que ser transgénero é moralmente errado. Entre os mais novos de 30, o rácio é de um em cada cinco. As probabilidade de os millenials — os que estão entre os 18 e os 34 anos — considerarem os imigrantes “um fardo” é 21% inferior à dos que têm mais de 65 anos; e é 25% superior na crença de que estes “fortalecem” o país. Também é 17% mais provável aceitarem melhor os muçulmanos.

É sobretudo por causa deles que a percentagem de americanos que pretendem que o Governo “promova os valores tradicionais” é a mais baixa desde que a Gallup começou a fazer a pergunta, em 1993, e que a percentagem dos que agora se intitulam “socialmente liberais” é igual à dos que se consideram “socialmente conservadores” pela primeira vez desde que a Gallup introduziu a questão, em 1999.

Os millenials também estão na base do apoio a mais intervenção do Governo. Os jovens podem não ter em grande conta as instituições que os representam, mas ainda assim querem que essas instituições façam mais. De acordo com um inquérito do Wall Street Journal/ABC, os americanos com mais de 35 anos mais provavelmente dirão que o Governo intervém demasiado (mais 4% do que o resto da população); pelo contrário, os millenials acham que intervém de menos (mais 23% do que os restantes inquiridos). Em 2011, um estudo do Pew concluiu que os americanos mais velhos apoiavam a regressão da reforma do sistema de saúde (29% mais do que os outros inquiridos), enquanto os millenials gostariam de o expandir (17% mais do que os outros inquiridos). Também era mais provável encontrar nesta faixa etária um apoio ao Occupy Wall Street (mais 25% do que os que tinham mais de 65 anos) e mais favoráveis ao socialismo (mais 36%), ou que até o prefeririam ao capitalismo (mais 49%). Como se lia no relatório do Pew, “os millenials, pelo menos até agora, são quem apoia mais instintivamente um Governo mais activo”.

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Os inquéritos mostram que os mais jovens gostariam de ver uma expansão do sistema de saúde Lucy Nicholson/REUTERS

Isto é verdade até entre os millenials republicanos. A imprensa muitas vezes veicula a imagem de democratas cada vez mais liberais contra republicanos cada vez mais conservadores. Mas entre os jovens isto não é verdade. Os jovens democratas podem ser mais liberais do que os seus pares mais velhos, mas os jovens republicanos também o são. Ainda segundo o Pew, uma clara maioria de jovens republicanos afirma que os imigrantes fortalecem a América; metade considera os lucros das empresas demasiado elevados e quase metade afirma que vale a pena uma legislação ambiental mais restritiva — respostas que claramente os diferenciam dos republicanos mais velhos. Também são mais favoráveis à legalização da marijuana do que democratas mais velhos e quase tão favoráveis quanto eles ao casamento homossexual. Quando se lhes pergunta como se caracterizariam ideologicamente, mais de dois terços dos republicanos millenials consideram-se ou “liberais” ou “misto” e menos de um terço diz-se “conservador”. Entre os republicanos mais velhos, é praticamente o inverso.

Face a estes dados, resta aos conservadores ter esperança de que os millenials penderão para a direita à medida que envelhecem. Mas um estudo de 2007 da American Sociological Review nota que os dados “contradizem as percepções comummente aceites de que a idade favorece o conservadorismo”. Os americanos mais velhos que são agora mais conservadores do que os millenials já o eram na sua juventude. Em 1984 e 1988, jovens eleitores apoiaram Ronald Reagan e George H.W. Bush por larga maioria. Os millenials não são liberais sobretudo porque são jovens. São liberais porque as suas experiências políticas formadoras foram a guerra no Iraque e a Grande Recessão e porque constituem a geração mais secular, mais racialmente diversificada e menos nacionalista da história da América. E não é provável que nada disto venha a mudar.

Podemos interrogar-nos se tudo isto importa. Afinal de contas, os Estados Unidos não são governados por estudos de opinião. A reorganização dos círculos eleitorais, a retirada de direito de voto a condenados por crimes graves e a obliteração de leis de financiamento de campanhas eleitorais ajudaram a isolar os políticos das avaliações do cidadão comum. Mas, apesar destas desvantagens estruturais, Obama fez aprovar uma agenda mais progressista do que qualquer um dos seus dois antecessores democratas. E há razões para crer que quem quer que vença as eleições em 2016 será mais progressista do que o anterior presidente do seu partido.

Segundo o Predictwise, o mercado de apostas da Microsoft, os democratas têm 60% de probabilidades de ficar na Casa Branca em 2016. E isto não é porque Hillary Clinton, que provavelmente será nomeada, seja uma candidata particularmente forte. É porque os republicanos deverão nomear um candidato particularmente fraco. No início de Novembro, a Predictwise apontava para que Marco Rubio — considerado o mais forte candidato republicano — tivesse 45% de hipóteses de vencer a nomeação do seu partido. Mas havia nesse momento 37% de hipóteses de essa nomeação ser ganha por Donald Trump, Ben Carson ou Ted Cruz. E se qualquer um deles vencer, a eleição de Clinton fica garantida.

Se Clinton acabar mesmo por ser eleita, é provável que nas questões internas governe à esquerda de Obama. (Na política externa, onde não há um movimento de esquerda com poder como o Occupy ou o Black Lives Matter, a dinâmica política é bem diferente.) As propostas eleitorais de Hillary Clinton já assinalam uma viragem à esquerda. E pessoas próximas da sua campanha afirmam que entre os principais tópicos da sua agenda está o pagamento da baixa familiar, propinas de faculdade gratuitas e acesso universal ao ensino pré-escolar.

Estas medidas decorrem naturalmente do já antigo interesse de Clinton pelo bem-estar das crianças e das famílias. Mas é também o produto de um Partido Democrata que está mais à esquerda agora do que em 1993 ou 2009. Se for eleita, Clinton terá de trabalhar com um Senado com dois importantes democratas, Elizabeth Warren e Bernie Sanders, ambos extremamente populares entre os activistas liberais.

Obama já conheceu o rancor liberal. Em 2013, Lawrence Summers retirou o seu nome da lista de nomeados para a chefia da Reserva Federal depois de liberais do Senado terem protestado contra a sua nomeação. Em 2015, Antonio Weiss, escolhido por Obama para subsecretário do Tesouro encarregue das finanças internas, retirou-se também, depois de Warren ter denunciado as suas ligações a Wall Street. Clinton terá de enfrentar esta realidade desde o primeiro dia na presidência. E como não conseguirá enfrentar estes liberais com retórica, como fez Obama, terá mais dificuldade em ver-lhe perdoadas as suas heresias políticas. Como Lyndon B. Johnson depois de John F. Kennedy, o que não conseguir fazer com estilo terá de fazer com conteúdo.

Tal como Clinton governará à esquerda de Obama, é provável que qualquer candidato republicano capaz de ganhar a presidência em 2016 governe à esquerda de George W. Bush. Em primeiro lugar, só o facto de vencer obrigará a uma coligação diferente. Quando Bush venceu a presidência em 2000, muito poucos millenials podiam votar. Em 2016, pelo contrário, formam já praticamente um terço dos eleitores. Em 2000, afro-americanos, hispânicos e asiáticos constituíam 20% dos eleitores. Em 2016, constituem mais de 30%. Whit Ayres, um consultor político da campanha de Rubio, calcula que mesmo que o candidato republicano consiga 60% dos votos brancos (mais do que qualquer candidato republicano conseguiu nas últimas quatro décadas, à excepção de Reagan, em 1984), necessitará ainda assim de 30% dos votos das minorias. Mitt Romney conseguiu 17%.

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Um voluntário da campanha de Bernie Sanders em Fort Dodge, no Iowa Jim Young/Reuters

Esta necessidade de captar os votos dos millenials e das minorias, que se inclinam para a esquerda não apenas em questões culturais, como económicas, irá determinar a campanha de qualquer republicano que se torne candidato à presidência, bem como a sua governação quando for eleito. Um Presidente Rubio poderia ser tentado a avançar com uma reforma da política da imigração que, começando por uma aplicação dura, abrisse caminho à legalização e mais tarde à cidadania — algo que ele apoia, para fúria da base do seu partido. (Tal como apoia o presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan.)

Se a demografia americana se alterou desde a presidência de Bush, também se alterou o ambiente entre os intelectuais conservadores. Há agora um grupo influente de reformcons (conservadores reformistas) — em alguns aspectos comparável aos pensadores Novos Democratas da década de 1980 — que acreditam que os republicanos estão demasiado concentrados nos cortes de impostos dos mais ricos e não o suficiente nas ansiedades económicas da classe média e das classes trabalhadoras.

O candidato mais próximo dos reformcons é Rubio, que no seu último livro citava o nome de vários deles. Defende que privatizar parcialmente a Segurança Social, como advogou Bush em 2000 e 2004, é uma ideia “já ultrapassada”. E ao contrário de Bush, e dos dois candidatos presidenciais republicanos depois dele, Rubio não está a propor um enorme corte nos impostos sobre os rendimentos mais altos. Em vez disso, o âmago do seu plano económico é alargar o crédito nos impostos para quem tem filhos, tornando-o acessível a americanos que são tão pobres que nem pagam impostos de rendimentos.

Apesar de os liberais louvarem o seu plano por este “pôr um fim a meio século de pensamento conservador sobre os impostos”, como escreveu o The New Republican, Rubio incluiu novos cortes nos impostos sobre ganhos de capital, dividendos, taxas e propriedades herdadas, que beneficiam amplamente os ricos. Ainda assim, é provável que, uma vez eleito, Rubio não avance com um corte tão grande como o que Bush introduziu em 2001 e 2003. Em parte, porque um eleitorado mais jovem e etnicamente diversificado é menos tolerante a políticas deste género. Em parte porque uma Administração Rubio provavelmente incluiria uma facção reformcon mais interessada em baixar os impostos da classe média do que da rica. E em parte porque o próprio legado dos cortes de impostos aprovados por Bush os torna mais difíceis de replicar.

Uma figura fundamental na aprovação do corte de impostos de Bush foi o presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, que em 2001 avisou que ou Washington baixaria os impostos ou os excedentes seriam de tal forma elevados que produziriam uma perigosa “acumulação de activos privados detidos pelo Governo federal”. O argumento de Greenspan deu à Administração Bush uma cobertura teórica fundamental. Agora, a ideia é risível. E é difícil imaginar a actual ocupante da cadeira, Janet Yellen, a apoiar mais cortes de impostos nos rendimentos mais elevados em 2017.

Os cortes de Bush também passaram porque uma poderosa minoria de democratas os apoiou. Mas os democratas amigáveis que então estavam na Câmara do Comércio (incluindo Max Baucus, John Breaux, Mary Landrieu, Zell Miller, Max Cleland, Tim Johnson e Blanche Lambert Lincoln) já praticamente não existem. A deriva à esquerda dos democratas na última década e meia significa que o Presidente Rubio encontraria uma oposição mais militante do que encontrou Bush em 2001. Esta oposição militante, juntamente com uma mudança do eleitorado e a facção reformcon, não significa que Rubio não iria baixar impostos. Provavelmente iria. Mas enfrentaria maior pressão do que Bush enfrentou para impedir que os cortes beneficiassem de forma demasiado flagrante os ricos.

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O candidato republicano Marco Rubio numa acção de campanha num pub de West Des Moines, no Iowa Aaron P. Bernstein/Reuters

Se for Presidente, Rubio poderá acabar com as regulações impostas pela Agência de Protecção Ambiental de Obama. Será isso que certamente os seus grandes financiadores irão pressioná-lo a fazer, mesmo que isso o prejudique junto dos eleitores mais jovens. Mas será improvável que faça o mesmo em relação à reforma da Saúde. O plano que Rubio propôs tiraria a cobertura de seguro a milhões de americanos. Ou seja, cometeria os mesmos pecados que Rubio e outros republicanos atribuem ao Affordable Care Act. Os republicanos, nota o director da Vox, Ezra Klein, “passaram os últimos quatro anos a atacar o Obamacare pelos seus duros compromissos e decisões impopulares, mas, quando começarem a apresentar uma alternativa séria, terão de lidar com os democratas a fazerem-lhes a mesma coisa”. O que torna improvável que Rubio queira travar essa luta logo num primeiro mandato.

Rubio seria um Presidente mais conservador do que Obama? Claro que sim. Uma era de domínio liberal não significa o desaparecimento das divergências ideológicas entre democratas e republicanos. Significa que, no campo de batalha ideológico, a linha avançou mais para a esquerda. Significa que o próximo Presidente republicano não vai conseguir fazer regressar o país à era pré-Obama.

Foi isso que aconteceu quando Dwight Eisenhower (Ike) sucedeu a Franklin D. Roosevelt e Harry Truman. Ike moderou a expansão do Governo que tinha começado nos anos 1930, mas não fez a América regressar à política da década de 1920, em que os republicanos se opunham a qualquer Estado federal de bem-estar social. Na essência, ratificou o New Deal. Foi também isso que aconteceu quando Bill Clinton sucedeu a Ronald Reagan e George H. W. Bush. Ao aprovar leis punitivas contra a criminalidade, levantar as restrições aos bancos, assinar a NAFTA, cortar os gastos do Governo para equilibrar o orçamento, reformar a Segurança Social e declarar que “o tempo do Governo intervencionista acabou”, Clinton reconheceu que nem mesmo um Presidente democrata poderia reanimar o liberalismo aberto da década de 60 e 70. Ratificou o reaganismo.

Barack Obama alcançou a presidência na esperança de se tornar o Reagan dos democratas: um Presidente que mudaria a trajectória ideológica da América. E mudou-a. Virou a agenda política para a esquerda até ao limite, tal como Reagan a tinha virado para a direita e como na altura de Reagan a população aquiesceu mais do que se rebelou. A vitória final de Reagan veio quando os democratas se adaptaram ao novo mundo político que ele criara, e há razões para acreditar que o próximo Presidente republicano terá de fazer concessões semelhantes à realidade política. Também este ciclo político acabará por seguir o seu caminho. Um aumento constante da criminalidade poderá abrir fissuras entre os activistas afro-americanos e os jovens brancos ou até latinos. Um crescimento económico mais lento e o aumento do défice pode virar o eleitorado contra o Governo de uma forma que as políticas de Obama não testemunharam e forçar os democratas a novamente enfatizar a criação de riqueza mais do que a sua distribuição. A forma como este domínio liberal vai acabar ninguém sabe. Mas é possível que subsista nos próximos tempos.

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