Marisa Matias convicta de que esquerda se unirá numa segunda volta

A candidata apoiada pelo Bloco pretende “virar de uma vez por todas a página do sacrifício que foi imposto pelas elites e dar voz” aos “sectores da sociedade que têm sido muito esquecidos”.

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Marisa Matias com José Manuel Pureza e António Capela nesta quinta-feira no Tribunal Constitucional Guilherme Marques

Perto das 11h, chega uma carrinha ao Tribunal Constitucional, em Lisboa. Está cheia de caixotes, com a fotografia da candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda às eleições presidenciais, Marisa Matias. Dentro dos caixotes, estão as 12 mil assinaturas recolhidas para formalizar a candidatura, o mínimo são 7500. A eurodeputada aparece acompanhada pelo deputado do Bloco José Manuel Pureza e pelo mandatário nacional António Capelo.

À saída, Marisa Matias reiterou que não desiste de disputar a segunda volta e mostrou-se confiante numa união da esquerda para derrotar o candidato Marcelo Rebelo de Sousa: “Estou certa de que, se conseguir passar à segunda volta, todos os candidatos se unirão em torno desta candidatura para derrotar a candidatura da direita. Se não for eu a passar, o mesmo acontecerá em relação ao candidato ou candidata da esquerda que passar.” Independentemente de quem for? “Todos juntos, todas juntas, para derrotar o candidato da direita”, repetiu a bloquista.

A situação do Banif também mereceu um comentário da candidata presidencial. “Acho que finalmente vai começar a resolver-se um problema que já devia ter sido resolvido há muito tempo, é sempre bom relembrar que o Banif não é de hoje”, começou por dizer, criticando a actuação do anterior Executivo. “O Governo anterior teve três anos para tentar resolver este problema, não resolveu, pelo contrário preferiu enterrar literalmente 1100 milhões de euros dos contribuintes, empurrar o problema com a barriga”, frisou.

E apontou o dedo a Cavaco Silva: “O papel do Presidente da República não foi de todo exemplar, porque mais uma vez foi presidente do partido e não do país. E o que fez foi, quando este Governo novo entrou em funções, colocou como condição a estabilidade do sistema financeiro. Ora, se tivesse colocado a estabilidade do sistema financeiro como condição ao Governo anterior não teríamos tido nem Banif, nem BES, nem outros casos”, disse, sublinhando que esses “destruíram muito as imagens das instituições, da democracia e, sobretudo, a forma como tem sido tratada de maneira diferente a banca, o poder financeiro e as pessoas”. Para esta candidata, “está na altura” de pôr “as pessoas à frente e não a banca ou o sistema financeiro”.

Marisa Matias sublinha que as soluções encontradas devem proteger contribuintes e depositantes. Mas o primeiro-ministro António Costa já disse, mais do que uma vez, que o dinheiro dos depositantes está seguro, não podendo no entanto assegurar que os contribuintes não venham a pagar uma factura.

Marisa Matias foi ainda questionada sobre uma eventual vinda da troika a Portugal, depois das presidenciais, para uma avaliação pós-programa. Ressalvando que tem "muita confiança nas instituições" e que não pretende imiscuir-se nos trabalhos que "dizem respeito a outros órgãos de soberania", salientou que não vê essa visita com preocupação:  “Penso que, em Portugal, se iniciou um novo ciclo de esperança. A chantagem e o medo já não ganham o terreno todo e é nesse espírito de começar a quebrar o ciclo de empobrecimento, este ciclo de austeridade, que nos encontramos.”

A candidatura apoiada pelo BE pretende, aliás, “resgatar a esperança” do país, “virar de uma vez por todas a página do sacrifício que foi imposto pelas elites, dar voz e pôr em diálogo os sectores da sociedade que têm sido muito esquecidos”.

Marisa Matias deixou ainda a garantia de que, se for eleita, quer estabelecer pontes entre o Governo e a oposição. “Tem sido uma prioridade em toda a minha actividade política, não vai deixar de ser agora. Todas as coisas que consegui levar à frente e conquistar tiveram a ver com diálogo, negociação, compromissos com todos os grupos parlamentares no Parlamento Europeu, com negociações com todos os governos de todas as famílias políticas. Não é no meu país que não faço a mesma coisa.”

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