Entrevista

“É no empreendedorismo que estão a ser criados os empregos"

A mudança de mentalidade já vinha antes da crise, mas Francisco Lacerda, presidente da COTEC Portugal – Associação Empresarial para a Inovação (e presidente executivo dos CTT) reconhece que o empreendedorismo saiu reforçado em Portugal com as dificuldades dos últimos anos.

 Francisco Lacerda, presidente da COTEC Portugal
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Francisco Lacerda, presidente da COTEC Portugal Enric Vives Rubio

Ouvimos recentemente o ministro das Finanças dizer que quer crescimento económico baseado no investimento em inovação. O que é necessário para que isso aconteça?
É necessário que haja essa vontade e essa cultura por parte das empresas e das pessoas que as lideram. É também necessário investimento. Depois, estamos a falar das condições gerais que promovam o investimento; da confiança, de acreditar no futuro e nos mercados.

Os números divulgados no mês passado pelo Eurostat sobre o investimento em R&D na Europa mostram que Portugal faz parte da segunda divisão europeia neste campeonato. Como se encurta a distância para os países da frente?
No fundo é tendo a vontade e elegendo as prioridades para isso. Portugal evoluiu muito positivamente até ao início da crise económica e desde aí tem estado mais ou menos em termos estáveis. Temos de acreditar que com a viragem do ciclo económico e com o contínuo enfoque nestas prioridades vamos voltar a progredir nesse esforço.

Vemos que as empresas portuguesas estão entre as piores da Europa, por comparação à percentagem de investimento em inovação e conhecimento que sai das universidades públicas. As empresas não ficam bem na foto…
Houve um abrandamento do investimento em Portugal, não só por parte das empresas. Mas esse abrandamento também se reflectiu na área da inovação, como em todas as outras vertentes do investimento. A partir de 2010, 2011, as quedas foram muito substanciais, está agora a retomar, mas ainda a níveis bastante inferiores. É verdade que há dados que nos põem abaixo da média europeia, mas há outros em que estamos acima, como os novos doutorados, as publicações científicas ou a inovação interna nas PME. Há que ir conjugando as várias vertentes; o investimento e a confiança no futuro por parte das empresas para que invistam e acreditem que é pela investigação e pelo conhecimento, e pela tradução desse crescimento em produtos de valor acrescentado, que devem fazer o caminho.

Em termos europeus vemos que apenas 2% do PIB é canalizado para R&D. É suficiente, tendo em conta os desafios que a Europa enfrenta a nível global?
O que seria desejável era que se investisse mais, e comparado com outras economias e outros espaços económicos, vemos que em termos globais a Europa necessita de investir mais. Mas olhando para os vários indicadores, há países europeus na liderança dos rankings internacionais de inovação. Mais uma vez há a questão do investimento; a Europa tem estado de facto numa época mais difícil, o que também explica porque é que o investimento não está a crescer mais. Contudo, ainda há pouco tempo saiu um relatório sobre a temática da inovação em Inglaterra e, se é verdade que o país está no topo em rankings internacionais, também lá se colocam questões que andamos cá a discutir: a relação entre as universidades e as empresas, como financiar a inovação, sobre como fomentar o ensino para que as pessoas estejam mais abertas para o empreendedorismo… são problemáticas semelhantes às nossas, os estágios de partida é que são um pouco diferentes.

Quais são os sectores que precisam urgentemente de modernização?
Uma das conclusões que se tira ao olhar para o que tem sido a inovação em Portugal é que é fundamental seja qual for o sector. Vemos a actividade agrícola a retomar de há uns para cá de uma forma que ninguém pensaria possível, vemos a situação muito favorável em que está o sector do calçado, percebemos que o têxtil deu saltos enormíssimos e está a competir com o mundo… Mas também vemos o país com presenças cada vez mais significativas nas tecnologias de informação (TIC), onde temos empresas de alguma dimensão e todo um mundo de start ups. Fala-se muito da vinda do Web Summit para Lisboa e é verdade que isso vai impulsionar muito o desenvolvimento de Lisboa neste sector. Mas não penso que seja a causa, é mais a consequência. Havia um ecossistema que, de repente, se gerou e se foi desenvolvendo, que faz com que os portugueses se sintam bem a desenvolver em Lisboa e que as empresas e criadores estrangeiros venham para cá. Mais do que escolher o sector A ou B, ou o cluster A ou B, fundamental é criar estas condições gerais, criar este ambiente propício e a partir daí a iniciativa fará com que as coisas floresçam.

Falou em empreendedorismo. Uma das questões que se colocava era saber se sairíamos mais empreendedores da crise. Qual é a sua percepção?
A minha percepção é que sim, que de facto há crescimento a esse nível. Nos últimos 12 meses houve cerca de 38 mil empresas criadas, o que representa um crescimento de quase 8% sobre os 12 meses anteriores. E houve uma criação líquida de empresas, porque o número das que fecharam foi muito inferior a esse. Dessas, metade são start-ups, empresas que nascem de novo, com um modelo de negócio escalável e com capacidade de crescimento e até de crescimento para fora das fronteiras. O relevante aqui é que metade dos empregos criados durante este período foi impulsionado por essas start-ups. Penso que isto confirma a percepção de que de facto, ou por empreendedorismo próprio ou porque as pessoas estão a trabalhar em empresas pequenas que resultam de empreendedorismo, é aí que fundamentalmente estão a ser criados os empregos na economia portuguesa.

Há uma mudança de mentalidade evidente?
Essa mudança não começou com a crise. No contacto com as gerações mais novas percebe-se isso. Há 20, 30 anos o objectivo único de vida profissional para os melhores era fazer carreira numa empresa grande ou num banco e hoje a realidade é outra, os melhores querem fazer a sua própria empresa rapidamente e a partir daí desenvolverem-se profissionalmente. Esta não é uma realidade só portuguesa, mas Portugal tem dado passos significativos no reforço dessa cultura de empreendedorismo. E depois é verdade que quando a situação esteve mais difícil com a crise económica, houve uma aceleração porque as pessoas tiveram mais iniciativa. Li recentemente a entrevista [na revista Forbes] do empresário que criou a Farfetch a dizer que o principal inimigo do empreendedorismo é o bom emprego. E isso talvez explique porque é que em situações mais difíceis da economia as pessoas arrisquem mais. Mas há, de facto, uma nova atitude. Pode acelerar ou desacelerar consoante a situação económica, mas a tendência é mais profunda e estável do que isso.

Até já se fala disso nas escolas…
Sim, faz sentido que seja fomentado, tal como faz sentido que se fomente a investigação e a procura do conhecimento. Esse é um dos eixos identificados pela COTEC, que lançou há um ano ou dois o movimento Transforma Portugal, que vai muito nessa linha de aproveitar as pessoas com potencialidade e criou este ano o Prémio Engenharia que é destinado a alunos do 9º ano, pessoas de estão na fase da escolha do curso que vão tirar. A intenção é despertá-las para as importantes carreiras que se podem fazer no mundo da engenharia, que durante uns anos estiveram mais afastadas da primeira linha das escolhas dos jovens, que durante uns anos preferiram gestão ou direito. Há um regresso à engenharia e estamos, com a Gulbenkian, a puxar por isso, porque é uma das áreas em que há mais insuficiência de mão-de-obra qualificada em Portugal.

O que é que podemos fazer para recuperar todo o capital humano que perdemos nos últimos anos?
As oportunidades para trabalhar são o que determina se a população se fixa ou não num país e isso é válido para os que nasceram e foram formados nele ou para outros que venham de fora. Há uma natureza bastante diferente na emigração a que se está a referir e aquela que tivemos há umas épocas, que era uma espécie de movimento sem retorno. Hoje a realidade da globalização é diferente, as pessoas estão um período aqui, estarão outro período ali e vão atrás de movimentos de carreira que fazem sentido dentro da mesma organização ou procurando oportunidades que não existem no país de origem. O que penso é que estamos a atrair estrangeiros para trabalhar em Portugal, estamos a ver alguns dos que saíram a regressar e estou seguro que continuaremos a ver portugueses a sair e a voltar, estrangeiros a vir e a sair, é um movimento cada vez maior ao qual nos temos de habituar porque o mundo é hoje bastante diferente. É claro que os fluxos diferem consoante o estado da economia, mas o caminho tem de ser sempre pela criação de oportunidades que desenvolvam as empresas, os empregos, o espírito de iniciativa. Isso atrai as pessoas.

É o presidente de uma empresa associada a um negócio tradicional. Como é que os CTT incorporam o factor inovação?
Os CTT são uma empresa bastante inovadora, embora tenha consciência que não é essa a imagem para a maioria das pessoas. Esta revolução da digitalização passa exactamente por baixo das fundações dos CTT, na medida em que as pessoas deixaram de escrever cartas e passaram a enviar emails a um ritmo significativo. Esta realidade forçou-nos a adaptar o modelo de negócio e criar alavancas de crescimento que não são as do negócio tradicional. Temos as encomendas, um negócio que está a crescer exactamente pela revolução digital, pelo crescimento do comércio electrónico, e os serviços financeiros, com a aposta mais recente no banco CTT. Estamos permanentemente a inovar e a alterar os modelos para competir no mercado e penso que podemos dizer que somos um concorrente sério nas actividades onde estamos.

Como tem sido a evolução do investimento em inovação dos CTT?
Os CTT investem, desde há um número de anos significativo, entre 15 e 20 milhões de euros por ano em inovação, embora este ano, com o banco CTT os números sejam mais altos.

Assumiu há pouco a presidência da COTEC, quais serão as prioridades da associação para o próximo triénio?
A COTEC é uma plataforma privilegiada de influência na inovação e é essa linha que pretendemos aprofundar. Estamos apostados em fazer crescer o número de associados (366, incluindo 272 PME), mas queremos também, com a informação que recolhemos junto deles, reflectir sobre incentivos à inovação e com isso tentar promover políticas públicas, tendo em conta a posição ímpar da COTEC, que tem o patrocínio institucional da Presidência da República e proximidade aos vários governos. Queremos potenciar uma rede em que se aproximam as grandes empresas das PME e a ligação às universidades. Portugal evoluiu muito na investigação científica, mas estamos aquém do potencial quando se fala em traduzir esse conhecimento para produtos que as empresas desenvolvam e comercializem nacional ou internacionalmente.