Recuo do investimento trava economia no terceiro trimestre

PIB não cresce face ao trimestre anterior e vê a variação homóloga abrandar de 1,6% para 1,4%, um valor inferior aos 1,6% da zona euro.

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Consumo privado demonstrou um ligeiro abrandamento NELSON GARRIDO

A redução registada no investimento contribuiu decisivamente, apesar da ajuda dada pelas exportações, para que a economia portuguesa estagnasse durante o terceiro trimestre deste ano, regressando a taxas de crescimento mais baixas do que a média da zona euro.

Os números divulgados esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) revelam que, entre Julho e Setembro deste ano, o PIB interrompeu a série ininterrupta de cinco trimestres com taxas de crescimento positivas em cadeia. Desta vez o que se verificou foi uma variação do PIB de zero face ao trimestre imediatamente anterior. No segundo trimestre, o crescimento tinha sido de 0,5%.

Esta estabilização do nível do PIB trimestral conduziu a que o ritmo de crescimento da economia face ao mesmo período do ano anterior abrandasse. A taxa de variação homóloga do PIB passou de 1,6% no segundo trimestre para 1,4%.

A informação revelada agora pelo INE é a primeira relativa ao terceiro trimestre do ano e representa ainda apenas uma “estimativa rápida”, que pode estar sujeita a posteriores revisões. Não são também ainda apresentados indicadores de evolução das diversas componentes do PIB.

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Ainda assim, o INE adianta desde já que o crescimento nulo em cadeia da economia portuguesa se explica essencialmente pelo contributo negativo da procura interna, que “foi negativo devido principalmente à redução do investimento”. Em compensação, “a procura externa líquida contribuiu positivamente, tendo as importações de bens e serviços diminuído de forma mais intensa que as exportações de bens e serviços”.

Olhando para a variação de 1,4% do PIB em termos homólogos, o INE afirma que “o contributo positivo da procura interna diminuiu no terceiro trimestre, reflectindo a desaceleração do investimento e, em menor grau, do consumo privado”. Por outro lado, a procura externa líquida voltou a registar um contributo negativo para a variação homóloga do PIB, mas de uma forma menos acentuada do que a observada no segundo trimestre deste ano.

Meta do Governo em risco?
A meta de crescimento anual do Governo é, desde o início do ano, de 1,6%. Recentemente, várias entidades, incluindo a Comissão Europeia, reviram em alta a sua estimativa para 1,7%.

Os números agora registados pelo INE constituem no entanto uma surpresa que pode afectar as projecções para o total do ano. De acordo com um conjunto de analistas contactados pela agência Lusa nos dias anteriores à divulgação dos dados, as previsões apontavam em média para um crescimento em cadeia de cerca de 0,4% e um crescimento homólogo a acelerar para 1,8%.

Rui Serra, economista chefe do Montepio, fala de “uma inesperada estagnação” em Portugal no terceiro trimestre, que o leva desde já a rever em baixa a sua projecção de crescimento para o total de 2015 de 1,7% para 1,6%.

E para conseguir esses 1,6% é preciso que a economia volte a acelerar no último trimestre do ano, apoiado numa previsível melhoria do contributo vindo dos parceiros europeus. Há ainda um outro risco: “a condicionar o crescimento estará sobretudo a instabilidade política, sendo ainda prematuro perceber qual o real impacto desta instabilidade”.

Em relação ao terceiro trimestre, são duas as principais explicações que este analista encontra para a surpresa negativa. Uma é o facto de o consumo privado dever ter crescido “apenas marginalmente”, já já terá “sido beneficiado apenas pelas vendas a retalho, mas prejudicado pelas vendas de carros”. A outra está relacionada com o contributo negativo da variação de existências, que “terá sido superior ao perspectivado, anulando o contributo positivo do investimento em capital fixo e conduzindo a uma redução do investimento total”.

Outros analistas ficaram também mais pessimistas em relação ao resultado que se poderá obter no total deste ano, falando de riscos à concretização da previsão do Governo. Paula Carvalho, economista-chefe do BPI afirmou à Lusa que a estagnação neste trimestre "aumenta os riscos de que a projecção de crescimento de 1,6% não seja alcançada e põe em causa cenários mais optimistas que apontavam para 1,7%".

Filipe Garcia, presidente da IMF - Informação de Mercados Financeiros, disse também à Lusa que o resultado “pode comprometer ligeiramente” a meta do Governo de 1,6%. Desde Março que considero que 1,5% seria mais realista, 1,6% e mesmo 1,7% parecem-me agora um pouco optimista", disse.

Mais lento que a Europa
Também esta sexta-feira, o Eurostat publicou os números do crescimento económico para o total da União Europeia. Esses números mostram que Portugal, depois de dois trimestres em que cresceu mais que os seus parceiros do euro, registou agora um resultado mais negativo.

Na zona euro, o crescimento face ao trimestre imediatamente anterior foi de 0,3%, um ligeiro abrandamento face aos 0,4% do segundo trimestre. Estes números comparam com os 0,5% e zero conseguidos por Portugal no segundo e terceiro trimestres, respectivamente.

Em relação às variações homólogas do PIB, a zona euro acelerou de uma taxa de crescimento de 1,5% no segundo trimestre para 1,6% no terceiro, o que coloca Portugal a um ritmo inferior porque os seus indicadores recuaram de 1,6% para 1,4%.

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Entre os países da zona euro, destaque pela positiva para a Espanha, que continuou a crescer a um ritmo elevado no terceiro trimestre, com uma variação em cadeia do PIB de 0,8% o que colocou a taxa de crescimento homólogo nos 3,4%, o segundo valor mais alto da zona euro apenas atrás da Eslováquia (embora ainda não sejam ainda conhecidos os valores da Irlanda que provavelmente serão mais altos).

A Alemanha, a maior economia europeia, registou um abrandamento ligeiro que ficou dentro das expectativas, o que contribuiu decisivamente para o desempenho relativamente positivo da zona euro numa conjuntura internacional tornada mais difícil pela quebra registada nos mercados emergentes como a China. A Alemanha cresceu 0,3% em cadeia (0,4% no trimestre anterior), passando a variação homóloga de 1,6% para 1,7%.

Na zona euro, três países registaram uma contracção do PIB no terceiro trimestre: a Finlândia, Estónia e Grécia.

Os números divulgados para a economia grega, referentes a três meses em que o país estava mergulhado na incerteza em relação à sua permanência na zona euro, revelam o regresso a uma variação negativa do PIB. A Grécia recuou 0,5% face ao trimestre imediatamente anterior e a taxa de variação homóloga caiu abruptamente de 1,1% para -0,4%.

 

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