Numa sala com mosquitos, à espera de um laboratório único na Península Ibérica

Instituto de Higiene e Medicina Tropical, em Lisboa, aguarda que a criação de um laboratório de alta segurança para artrópodes seja financiada em 800.000 euros.

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Mosquito anófeles, cuja picada transmite o parasita da malária James Gathany

A porta abre-se, mas é também preciso desviar uma rede para se entrar numa pequena sala de um laboratório do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), em Lisboa. Lá dentro, estamos rodeados de Anopheles stephensi em diversas fases do seu ciclo de vida: larvas e pupas dentro de recipientes de plásticos rectangulares, e mosquitos dentro de gaiolas tapadas com redes. Este insecto, que vive na região da Índia, pode transportar o Plasmodium falciparum, o famoso parasita da malária.

Na natureza, uma picada deste mosquito numa pessoa pode causar malária. Na sala onde estamos, se por acaso um mosquito fugir da gaiola, não há perigo. Estes mosquitos não têm o parasita da malária. O laboratório não está preparado para isso. Mas o IHMT quer mudar esta situação, e tem o projecto de construir a Estrutura de Alta Segurança para Artrópodes In Vivo, uma instalação que terá condições técnicas e de equipamento para produzir, manter e usar para investigação artrópodes que são vectores de doenças. Ou seja, têm organismos que causam doenças nos humanos como a malária, o dengue, a leishmaniose, a doença de Chagas e a febre da carraça.

“Seria importante ter a capacidade de fazer investigação com os organismos patogénicos que afectam os humanos”, diz ao PÚBLICO Henrique Silveira, subdirector para a área científica do IHMT e investigador em malária, justificando a razão para esta aposta. De há alguns anos para cá, o instituto tem-se preparado para este avanço. “Vamos poder dar respostas científicas mais interessantes e aumentar a reputação do instituto.”

Não há um laboratório com este nível de segurança em Portugal. Aliás, na Europa, só países como a França, a Holanda e o Reino Unido têm laboratórios de biossegurança de nível III para artrópodes, como aquele que se quer construir em Portugal. Mas a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), tutelada pelo Ministério da Ciência, abriu ainda em 2013 o concurso para um Roteiro de Infra-estruturas de Investigação, com o objectivo de dotar o país com instalações nas mais variadas áreas científicas.

O IHMT candidatou-se com o projecto do laboratório de alta segurança para artrópodes, coordenado pela investigadora Carla Sousa. Nos resultados do concurso, divulgados em Dezembro de 2014, o projecto teve boa nota, com “recomendação para integração no roteiro”. Depois, foi avaliado quanto à sua sustentação financeira. “A infra-estrutura não é para fazer lucros, mas terá de se pagar. É um critério da FCT, que quer assegurar a sustentabilidade”, explica Henrique Silveira.

Esperando pelo dinheiro
O instituto já tem o projecto arquitectónico em andamento, já escolheu o edifício que será adaptado para receber a estrutura, onde também está o biotério (instalações com os animais para as experiências científicas) do IHMT. Só falta o dinheiro. “Estamos à espera do financiamento”, diz o biólogo.

A FCT diz que dentro de pouco tempo vai abrir o concurso para financiar as infra-estruturas do roteiro. “Abrirá brevemente — espera-se que em Novembro”, diz a FCT ao PÚBLICO por escrito, num email enviado pela coordenadora do gabinete de comunicação, Ana Godinho. E será “dirigido a todas as infra-estruturas que integram o Roteiro Nacional de Infra-estruturas seleccionadas no concurso da FCT”. O dinheiro para todas estas infra-estruturas será “cerca de 200 milhões de euros”, que “corresponde aos montantes apresentados pelas infra-estruturas no concurso FCT”.

“Não esperamos que o financiamento seja negado”, espera Henrique Silveira.

O projecto irá custar 800.000 euros, incluindo a adaptação de salas, que terão de ter pressão negativa para que os insectos voadores não fujam para a natureza, e técnicos especializados para manter os vários tipos de artrópodes, e que vão precisar de formação para trabalhar naquele espaço.

Henrique Silveira gostaria que o laboratório de artrópodes já estivesse a funcionar em meados do próximo ano. Se o projecto avançar, abrem-se novas possibilidades de investigação. “Podemos providenciar serviços para a comunidade científica nacional e internacional e aumentar as colaborações”, diz Henrique Silveira.

Será possível produzir e vender mosquitos da malária, ou o próprio plasmódio, ou vectores que transmitem outras doenças, como carraças. Além disso, será possível alugar o espaço e os seus artrópodes para outros grupos de investigação. “Não se está a fazer o insectário só para o instituto, mas para servir a comunidade científica portuguesa e a internacional.”