Editorial

A visita-surpresa de Assad a Moscovo

Assad reapareceu ao lado de Putin, numa Rússia que quer mostrar-se forte e crucial na arena mundial.

Foi uma visita-relâmpago, a de Bashar al-Assad a Moscovo, a lembrar aquela que o ex-Presidente norte-americano George W. Bush fez ao Iraque em Novembro de 2003. Tal como esta, só foi conhecida publicamente depois de ter terminado. Mas se Bush foi a um cenário de guerra para jantar com tropas americanas no aeroporto internacional, para celebrar o Dia de Acção de Graças, Assad veio de um cenário de guerra (a “sua” Síria) para no conforto do Kremlin discutir com Vladimir Putin os apoios que este lhe promete e, além disso, assegura. Para Assad, este ressurgir na ribalta, e logo na presença do seu principal aliado, tem por objectivo marcar pontos a seu favor. Ele quer mostrar-se empenhado no combate contra os “grupos terroristas” na Síria – designação que, como se sabe, tem vindo a englobar tanto os carniceiros fanáticos do EI como os grupos que, com apoio ocidental, têm vindo a desafiar o poder de Assad; e, ao fazê-lo em Moscovo, com Putin a sublinhar a “ajuda preciosa” dada pela Rússia ao povo sírio neste domínio, pretende amenizar na arena internacional os ânimos contra o seu poder. Por um lado, mostra-se activo e “em forma” (foi a sua primeira visita ao estrangeiro desde que começou a guerra civil, em 2011); por outro, tira partido da disposição manifestada por vários países em contar com ele para uma solução de transição de onde Assad poderia vir a desaparecer, mas posteriormente, não no imediato. Isto, para ele, enquanto conta com o apoio russo para infligir derrotas aos seus inimigos, é vital. Assad sabe que a Europa continua sob forte pressão na crise dos refugiados (crise que, com os mais recentes combates em Alepo, ganhou novo fôlego) e aproveitar este momento pode ser crucial para se perpetuar no poder. A Rússia, por seu lado, investindo a sua força militar na Síria depois de o ter feito na Crimeia, quer também mostrar-se forte e crucial na arena mundial. Resta saber como reagirá a diplomacia à pressão das armas.