Opinião

Lição de coisas

A “Europa” não existe ou existe apenas sob forma de “subsídios”, que diminuem de ano para ano. A utopia não resistiu à realidade.

A “Europa” fazia sentido quando era a pequena Europa Ocidental, que o império russo limitava e, limitando, protegia. O alargamento sucessivo só podia trazer a desagregação e a impotência.

Muita gente fala por aí de olho arregalado nos “valores” que a União defende. Mas que valores? Nenhum dos países de leste que se absorveram partilha no fundo a civilização que se convencionou declarar comum. O Oriente, como disse Metternich, ainda hoje começa à porta de Viena. Não há entre as duas partes que se juntaram na UE nada, ou quase nada, de comum. Não fazem parte da mesma história, da mesma religião ou da mesma cultura. E nunca partilharam desde a queda de Roma o sentimento primário de pertencer a uma única comunidade, como até ao século XVI a Igreja Católica “universal”.

A crise dos refugiados mostra bem a fractura que divide a suposta União. A Hungria, a Roménia, a Eslováquia e a República Checa não aprovaram o mirífico “plano” de repartir entre os 28 a gente que ininterruptamente chega da Síria, do Levante, do Egipto e do Afeganistão. Isto talvez pareça de uma crueldade gratuita a quem não conhece, nem por ouvir dizer, o trágico passado desses quatro países. Não só nasceram de uma guerra de morte entre a Rússia, a Áustria e a Prússia pelo domínio da Europa Central, do Mar Negro e, eventualmente, de Istambul, mas sempre os trataram como gado que se dispunha segundo as conveniências de quem era na altura mais forte. Em 1989 continuavam por toda a parte os trabalhos de “limpeza étnica” e de correcção de fronteiras, que a “liberdade” tinha permitido.

A Hungria, a Roménia, a Eslováquia e a República Checa herdaram as desgraças da expulsão ou liquidação de minorias, que nunca inteiramente digeriram e que permanecem, as mais recentes, na memória viva da população. E também a “intensidade” do nazismo aumentou para Oriente e diminuiu para Ocidente. Estados de anteontem não vêem com equanimidade a criação de um novo grupo étnico – ou religioso – dentro das suas fronteiras. Nem deles, nem dos Balcãs se deve esperar a tolerância e a solidariedade que o Ocidente invariavelmente lhes recusou, a não ser na retórica do radicalismo, igual à que em 2015 a televisão despeja em nossas casas. A “Europa” não existe ou existe apenas sob forma de “subsídios”, que diminuem de ano para ano. A utopia não resistiu à realidade.

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