Morreu o realizador Wes Craven, Freddy Krueger perdeu o seu pai

Wes Craven, um dos mais influentes cineastas americanos do terror, morreu este domingo, aos 76 anos de idade.

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Wes Craven em 2011 REUTERS/Lucas Jackson
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Freddy Krueger, o protagonista de Pesadelo em Elm Street estreado em 1984 DR
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Cartaz de Scream DR
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A máscara do assaltante foi inspirada no quadro O Grito de Edvard Munch DR

Criador de Freddy Krueger, um dos “papões” mais célebres do cinema de género americano, o realizador americano Wes Craven morreu este domingo em Los Angeles. Ao cineasta, de 76 anos de idade, fora recentemente diagnosticado um tumor no cérebro.

Com a sua morte é também um dos nomes mais importantes para a evolução do cinema de terror que desaparece. O realizador Ti West, um dos mais recentes expoentes do género, homenageou-o no Twitter dizendo que “Wes Craven fez coisas que os outros não conseguem fazer”. O crítico britânico Kim Newman, um dos maiores especialistas do cinema fantástico, escreveu que o realizador “reinventou o filme de terror quatro vezes, quando a maior parte nem uma vez o consegue”, e o actor Bruce Campbell, o herói dos filmes Evil Dead de Sam Raimi, disse: “[Craven] mostrou-nos o caminho a seguir.”

Craven fez parte de uma geração de cineastas oriundos da cena independente que tornaram o filme de terror, tradicionalmente entendido como cinema sensacionalista para um público adolescente, num espelho distorcido da sociedade americana e numa reflexão sobre a violência e a impotência que o conforto pequeno-burguês do “sonho americano” contia. Tal como A Noite dos Mortos-Vivos de George Romero (1968) e Massacre no Texas de Tobe Hooper (1974), os primeiros dois filmes do realizador, The Last House on the Left (1972) e Os Olhos da Montanha (1977), colocavam gente normal face ao horror escondido em situações em que as regras da civilização já não se aplicavam. 

No primeiro – inspirado pela Fonte da Virgem de Ingmar Bergman – o rapto e assassínio de duas adolescentes por um bando de criminosos psicóticos leva os pais de uma delas a exercer uma vingança brutal; no segundo, uma família de campistas vê-se a braços com um grupo de selvagens canibais. Rodados com pouco dinheiro e produzidos independentemente, os dois filmes anteciparam a vaga dos slasher movies, fitas sangrentas e povoadas por psicopatas assassinos, e tornaram-se emblemáticos de uma nova abordagem ao cinema de terror, simultaneamente popular e cinéfila, partilhada com uma série de realizadores contemporâneos. Para lá de Hooper e Romero, dessa geração fariam ainda parte nomes como John Carpenter (Halloween, O Regresso do Mal e O Nevoeiro), John Landis (Um Lobisomem Americano em Londres), Joe Dante (Piranha, O Uivo da Fera), ou Sean Cunningham (Sexta-Feira 13), que foi, aliá,s um colaborador regular de Craven. 

Mas os espectadores menos especialistas recordarão o cineasta por filmes bastante mais mediáticos e de influência igualmente significativa. Foi Craven quem lançou um dos “papões” mais icónicos do cinema de terror, Freddy Krueger, um assassino desfigurado de lâminas nas mãos que invade os sonhos dos adolescentes e os mata enquanto dormem, encarnado por Robert Englund e revelado em Pesadelo em Elm Street (1984). Jogando com a ideia da fronteira entre o sonho e a realidade, o filme-fundador da mitologia de Krueger ajudou a lançar a produtora New Line, que exploraria a personagem ao longo de oito outros filmes, uma série televisiva e um remake. Desses Craven esteve apenas ligado como argumentista ao terceiro episódio e dirigiu em 1994 O Novo Pesadelo

Este último, no qual Freddy é uma personagem de um filme que se começa a manifestar no mundo real, acabaria por antecipar de algum modo a série que se tornaria no maior sucesso de bilheteira de Craven. O realizador, que se formara em Filosofia e parecia destinado a uma carreira académica antes de se virar para o cinema e pagar as contas dirigindo filmes pornográficos, encontrou uma “alma gémea” no argumentista Kevin Williamson e na sua ideia sobre uma série de crimes reais que pareciam cumprir todas as “regras” dos crimes ficcionais dos filmes de terror, investigada por apreciadores do género que procuravam antecipar o passo seguinte.

O resultado, Scream – Gritos (1996), era um filme de terror sobre os filmes de terror, feito com o humor metanarrativo pós-moderno muito típico do seu tempo, simultaneamente respeitoso e subversivo. Craven dirigiu entre 1996 e 2011 todos os quatro filmes da série, três dos quais escritos por Williamson, mas já não esteve directamente envolvido na recente série televisiva.

Para um cineasta tão influente, no entanto, Craven teve um percurso peculiarmente desequilibrado. Deve-se-lhe uma das primeiras (e menos conseguidas) adaptações de heróis de comic-books americanos, Swamp Thing (1982), e entre as suas duas dezenas de longas-metragens contam-se uma mão-cheia de fracassos: uma sequela esquecida de Os Olhos da Montanha; uma comédia de terror com Eddie Murphy, Vampiro em Brooklyn (1995); ou um melodrama atípico, Melodia do Coração (1999), que deu a Meryl Streep mais uma nomeação para o Óscar. Uma nova colaboração com Kevin Williamson à volta do mito dos lobisomens, Amaldiçoados (2005), foi vítima de ingerências da produção, e A Sétima Alma (2010), experiência com o 3D, praticamente não foi estreado (nenhum deles chegou às salas portuguesas). 

Ainda assim, o realizador conseguiu sempre restabelecer a sua reputação, com filmes como A Maldição dos Mortos-Vivos (1988), Os Prisioneiros da Cave (1991) e, mais recentemente, Red Eye (2005), uma série B de suspense passada a bordo de um avião. Craven foi igualmente produtor dos remakes de The Last House on the Left (A Última Casa à Esquerda, Dennis Iliadis, 2009) e Os Olhos da Montanha (Terror nas Montanhas, Alexandre Aja, 2006), e experimentou a escrita, publicando um romance, The Fountain Society, e co-escrevendo uma série de banda desenhada, Coming of Rage, ainda em publicação. Scream 4, em 2011, foi o seu último filme.