Auschwitz nasceu num lugar feliz

O que faria um homem livre se vivesse na Alemanha nazi? Perguntem a Sarah Gross, romance de estreia de João Pinto Coelho, é um livro arriscado sobre um tema que parece condenado a escapar à linguagem. Auschwitz nasceu em Oswiecim. É a partir de lá que tudo se pergunta.

Entrada de Birkenau, ou Auschwitz II: um dos lugares mais filmados e fotografados sempre que se fala de Holocausto. Construído de raiz para campo de extermínio massivo depois da Solução Final, em 1942
Foto
Entrada de Birkenau, ou Auschwitz II: um dos lugares mais filmados e fotografados sempre que se fala de Holocausto. Construído de raiz para campo de extermínio massivo depois da Solução Final, em 1942 Rui Gaudêncio

No dia 27 de Janeiro, data em que se assinalaram os 70 anos da libertação do campo de Auschwitz, Roman Kent, 95 anos, sobrevivente, contava que lhe perguntam muitas vezes quanto tempo esteve em Auschwitz. “A minha resposta é que não sei. O que sei é que um minuto em Auschwitz era como um dia inteiro, um dia era como um ano, e um mês era a eternidade. Quantas eternidades cabem na vida de um homem? Também não tenho a resposta para isso.”

O discurso de Roman Kent foi feito numa cerimónia em Auschwitz e transmitido para o mundo. João Pinto Coelho cita-o para falar da dificuldade de conseguir respostas sempre que se fala de Auschwitz. “Para falar de Auschwitz era preciso que todos entendessem o léxico de Auschwitz”, diz este arquitecto de 48 anos que se estreia agora na literatura com 

Perguntem a Sarah Gross

, romance sobre esse lugar que permanece com muitos silêncios, inacessível no seu significado apesar de todos os discursos à volta. “Auschwitz resiste à linguagem”, adianta, acrescentando que mais do que respostas, aquele sítio pede perguntas. A primeira pergunta que importa para começo de conversa é o ponto de partida de João Pinto Coelho para o seu romance: o que existia em Auschwitz antes de Auschwitz?

É difícil sintetizar Perguntem a Sarah Gross sem dar pistas que desvendem os mistérios da trama. Estamos perante uma estrutura clássica. Um romance que se passa em dois pontos da história do século XX e em duas geografias: Polónia (de 1923 a 1945) e a Costa Leste dos EUA (entre 1968 e 1969). Os dois tempos e os dois lugares intercalam-se. Kimberley Clarke, uma jovem professora de literatura americana, procura emprego num colégio elitista de Nova Inglaterra e encontra Sarah Gross, a directora enigmática, com um carisma invejável com quem estabelece uma relação feita de muitos silêncios e algumas revelações.

Sarah pertence a uma família judaica da Polónia e o seu passado vai sendo revelado ao leitor por Kimberley. Ela é a narradora do romance que vai tendo outras vozes — até outros narradores — em diálogos complexos, que João Pinto Coelho constrói de modo a manter o suspense num livro que consegue suplantar em interesse o enredo bem construído em que se sustenta. Ou seja, o romance é mais do que o mistério que conta.

PÚBLICO -
Foto
João Pinto Coelho num dos lugares com maior simbolismo em Auschwitz I, a câmara de gás. Nesta não havia “chuveiros” a iludir acerca do banho, apenas aberturas por onde o gás era introduzido pelos Sonderkommandos Rui Gaudêncio

“É uma viagem. Pensei-o dessa maneira. É sobre lugares e as pessoas nesses lugares e o que seria de cada um de nós nesses lugares”, refere o autor, português, arquitecto de formação, estudioso do Holocausto, que escolheu falar de Auschwitz sem o subterfúgio de uma paisagem ou de uma personagem portuguesas. “Para mim, isso não seria natural”, justifica, enquanto caminha por uma rua de Cracóvia, um dos cenários do romance que tem como mapa principal uma cidade perto dali e de que ninguém parece querer saber o que era antes de se ter chamado Auschwitz. 

Oswiecim

Era um território povoado por uma normalidade que foi destruída em finais de 1939. O regime nazi tomava então Oshpitzin – designação iídiche – ou Oswiecim, nome polaco de uma cidade situada 60 quilómetros a sudoeste de Cracóvia. O percurso até lá faz-se de carro, cinquenta minutos por uma estrada que percorre uma paisagem rural. Só quase a chegar à placa que indica Oswiecim se vêem alguns edifícios industriais, estações de combustível e lojas de multinacionais europeias. A Polónia integra a Comunidade Europeia desde 2004 e os sinais começam a ser visíveis, sobretudo nos centros e periferia onde a construção é muito evidente. Junto ao rio Sola, um afluente do Vístula, o rio mais longo da Polónia, que corre em Cracóvia, há uma linha de caminho de ferro que indica a proximidade com o sítio onde os alemães escolheram construir o maior campo de extermínio do regime nazi. Procura-se um nome, Auschwitz, mas a única designação que aparece é Oswiecim. Em 1945, logo após a derrota alemã, a Polónia repôs a designação de origem àquele lugar com quase mil anos de História, onde até 1939, judeus e católicos partilhavam um quotidiano que João Pinto Coelho reconstitui em 
Perguntem a Sarah Gross. “Quis falar de Auschwitz a partir do que lá existia antes e que as narrativas sobre o Holocausto têm ignorado”, refere, justificando a opção como uma forma de sublinhar o paradoxo que atravessa toda a narrativa do Holocausto: “Auschwitz não nasceu do nada, nasceu num lugar feliz.” 

Cai uma chuva miúda na praça principal de Oswiciem, a praça do mercado, ou Rynek Glowny. São oito da noite, está calor. A esplanada está cheia de gente a conversar e a beber cerveja. À volta pouco acontece. Actualmente com 43 mil habitantes, Oswiecim tinha doze mil no início do século XX. Metade eram judeus. A população judaica é hoje quase inexistente, marca que atravessa toda a Polónia. Com três milhões de judeus antes da II Guerra, apenas 300 mil sobreviveram ao conflito, a maioria abandonou depois o país. É na Owieciem — ou Oshpitzin — dos anos 20 e 30, entre os rios Sola e Vístula e uma floresta de choupos, que decorre parte da acção de Perguntem a Sarah Gross. “Malgrado se terem verificado algumas provocações dos gentios, sobretudo na euforia do fim da guerra [I Guerra Mundial], as duas comunidades [católica e judaica] parecia ter reaprendido a viver juntas. E, afinal, porque não o fariam? As terras davam para todos e o que sobrava não valia maiores disputas. As casas da cidade, assentes em terreiros pedregosos ou calçadas mais compostas, erguiam-se com modéstia por dois ou três pisos protegidos por coberturas de zinco. Era nessas ruas que passeavam habitualmente, judeus buliçosos e cristãos campesinos, gente igual à de todos os lugares, que crescia em número sempre que a feira enchia a Praça do Mercado.” A descrição pertence ao passado. O velho hotel onde decorrem saraus de música, encontros políticos e culturais, é agora uma farmácia; ainda há a torre da Igreja de Santa Maria e Cracóvia continua a uma hora de comboio. O nome de Oswiecim foi reposto, mas é Auschwitz que interpela, mesmo que a perspectiva esteja alargada ao incluir Oswiecim na equação, como João Pinto Coelho quis.

Auschwitz era o nome de Oswiecim “amordaçada, assustada”, refere uma personagem que se interroga: “Que diabo de nome era aquele? Que significava? Ninguém sabia, ninguém percebia Auschwitz? O que era Auschwitz?” As perguntas não são ingénuas nem querem apagar tudo o que já se escreveu sobre Auschwitz. João Pinto Coelho é um leitor atento do tema desde que leu Os Carrascos Voluntários de Hitler, de Daniel Jonah (Editorial Notícias), andava então em Belas Artes, em Lisboa. Sabe que com toda a literatura a perplexidade não se desfez apesar de tudo. “O livro falava muito da culpa dos alemães enquanto povo e das motivações que tinham. Questionava se era uma coisa específica dos alemães, se podia ter acontecido com outro povo. Essa polémica ainda se mantém e esse livro ainda continua a ser referência. Acho que foi aí que comecei a dedicar-me com mais detalhe ao que era apenas um interesse, uma curiosidade. A partir dessa leitura a pesquisa começou a ganhar mais fundamento. E até hoje.” Em 2009 candidatou-se a uma acção promovida pelo Conselho da Europa sobre o ensino do Holocausto. Tinha lugar na Polónia, no campo de Auschwitz. “Foi a primeira vez que estive em Auschwitz”, conta.

Auschwitz, o campo I, fica a uns cinco minutos de carro do centro de Oswiecim. Passada a segurança, estamos no lado de dentro do arame farpado. É o lugar que irá condicionar todas as perguntas e fará entender que há respostas que nunca poderão ser dadas. São perguntas seminais já feitas por outros autores, e voltam a surgir para que fique clara — se ainda não ficou — a dificuldade de escolher a linguagem para falar e, sobretudo, escrever sobre Auschwitz. O que é frio? O que é fome? O que é medo? O que é tudo isso ao mesmo tempo num lugar? Naquele lugar que antes de ser o sítio da barbárie foi a tal cidade com gente feliz com um nome que já todos esqueceram. Morreram ali 1,1 milhões de judeus dos cerca de seis mil vítimas do Holocausto. Moraram também 140 mil polacos, 23 mil ciganos, 15 mil prisioneiros soviéticos e 25 mil de diversas origens. Só em Auschwitz I podiam estar dezoito mil prisioneiros ao mesmo tempo. Os números são sempre chamados para sublinhar o horror, para o quantificar. Foi grande o horror. Mas e o frio? João Pinto Coelho insiste nas palavras isoladamente para mostrar que o significado que elas têm não chega, como também não chega o discurso pontuado de números. “O frio em Auschwitz não é o frio de outros lugares. Sempre que falamos dessas sensações tendemos a isolá-las. Vejo-as associadas numa substância pegajosa, o tempo. Tudo ali se cola ao tempo. Cola-se-lhe tudo. O frio, a fome, o medo. Todos já passámos por sensações de grande desconforto, mas normalmente perspectivamos um fim. Agora ter tudo isso ao mesmo tempo, e o tempo ser completamente elástico… Não conseguimos conceber. O fim para aquele desespero não existia. Não se via um fim àquilo. Quando penso em Auschwitz é nisso que penso.”

O escritor italiano Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, falou de “Inverno” em vez de “frio” para se referir à dificuldade de encontrar palavras para dar significado ao que se passava ali. “Frio, fome, medo ou Inverno, como disse Primo Levi, foram palavras inventadas por homens livres, por pessoas que não estiveram em Auschwitz”, diz João Pinto Coelho, remetendo essa ideia para autor de Se Isto é um Homem, o romance publicado em 1947 onde o Levi contou a sua experiência naquele campo e é uma referência para Pinto Coelho pelo modo como escreve, deixando que o tal silêncio permaneça. É difícil não pensar em Primo Levi como se lê isto em Perguntem a Sarah Gross:

PÚBLICO -
Foto
Sala onde os prisioneiros se despiam antes de seguirem o destino que os nazis lhes destinavam – as roupas eram aproveitadas para quem chegava Rui Gaudêncio
“Como se descreve a fome em Auschwitz? Por palavras? Haveria que as inventar, primeiro. Não, a fome naquele lugar não se media pelo verbo, antes pela aritmética das horas. As horas que passavam desde a última refeição e as horas que faltavam até à próxima. Quando finalmente se avistasse o fumo da panela, a contagem far-se-ia ao minuto. E os últimos minutos, já contados no fim da fila, far-se-iam a passos. Passos lentos, travados, depravados. Depois, aquilo que as esperava não passava de um engano sádico…”

A dúvida

Um dos objectivos do regime nazi era acabar com a empatia. Muitos livros de muitos autores referem isso. Como ser carrasco, tendo alguma emoção? O gelo de sentimentos estava na burocracia. Era preciso ser burocrata. Na literatura, João Pinto Coelho diz que a tentativa de causar um efeito de empatia com a vítima do nazismo “é fácil”: “Quem não se comoveu com 
O Diário de Anne Frank? Já todos sentimos empatia com os judeus vítimas do Holocausto”. Mas pôr-se no lugar do perpetrador, do carrasco, sentir qualquer empatia com ele?

O desafio é inquietante e sobre ele João Pinto Coelho diz ainda: “Talvez se ganhasse muito em ensinar o Holocausto a partir daqui.” Reformula a ideia: “O ensino do Holocausto devia ser feito pela dúvida.” Olhar o Holocausto a partir do lugar de quem era livre para fazer opções. “Os judeus naquele tempo não tinham opção.” A opção estava no homem livre, paradoxal, contraditório. É desse lugar muito incómodo sempre que se fala de Holocausto, o do eu perante a sua circunstância, que João Pinto Coelho constrói o romance. Posto de outra forma, Perguntem a Sarah Gross nasce da desistência por parte do autor de encontrar uma resposta. “A certa altura desisti de procurar respostas. A dúvida chega-me. Estou satisfeito por ter dúvidas.” Ter essa dúvida comigo, perguntar o que é que eu faria em determinadas circunstâncias, tornou-se suficiente para mim. Sei que só num contexto parecido com aquele, em que eu possa ou não tomar opções, é que vou encontrar essas respostas. Neste momento não tenho essa esperança. Aliás, o título do livro passa por aí. Perguntem porque eu não sou capaz de dar as respostas.”

PÚBLICO -
Foto
Um dos pavilhões de Birkenau onde se encontravam as latrinas destinadas aos prisioneiros Rui Gaudêncio

É a quarta vez que João Pinto Coelho está em Auschwitz. Passa pouco das nove da manhã, Julho está a acabar e continua a fazer calor ali, no Sul da Polónia. Com o sol ainda baixo as sombras dos 28 edifícios que compõem o campo alongam-se no chão. Para trás ficaram os edifícios que serviam de armazém, garagem, cozinha, de apoio administrativo. Passa-se o portão com a frase Arbeit macht frei, “o trabalho liberta”. Não é a frase original. Essa foi roubada em 2009, cortada em três partes, e entretanto já recuperada pela polícia polaca. Espera, entretanto, a reestruturação do museu que irá acontecer nos próximos anos, para voltar ao local de origem. “Tinha passado os últimos anos, sobretudo os últimos dois anos, a idealizar o que seria Auschwitz. Acho que não foi tão surpreendente como estava à espera”, conta sobre a primeira vez ali. Recorda a confusão de cores e de sons. A contradição. “É evidente que por muito que se leia, se veja filmes e documentários, quando se contacta com o lugar a sensação é diferente. É um lugar estranho. Quando vamos a Birkenau há uma zona lindíssima, junto à floresta. A estranheza do lugar, a beleza do lugar e o horror do lugar convivem de uma maneira que nos deixa sem palavras. É aquilo a que chamamos muitas vezes o indizível, ou o inexprimível. Ir a Auschwitz, por muitas vezes que se regresse, é entrar sempre num território de contradições.”

Os passos calcam a gravilha e param numa esquina, no sítio onde em 1942, 43, 44 uma orquestra de prisioneiros tocava diariamente para que outros prisioneiros acertassem a marcha ao ritmo das notas. “Os nazis acreditavam que com música a marcha seria mais ágil”, refere Lukasz, o guia polaco, em mais um início de visitas no campo I. A uns cinco quilómetros, em Auschwitz II, mais conhecido por Birkenau, há outro lugar assim, onde outra orquestra tocava para impor a cadência aos outros prisioneiros, “num clima de festividade mórbida”, escreveu João Pinto Coelho no romance. Sempre o paradoxo. “Acho que é por isso o silêncio”, pelo absurdo. Os números, o amontoado de cabelos que eram rapados à chegada ou quando os corpos saiam das câmaras de gás, os sapatos, as próteses,  sala nde estão guardados os utensílios de cozinha que eram trazidos por quem acham que estava só a mudar de casa. Número para dar a dimensão. Como a sala onde eram deixadas as roupas, ou onde se vestiam as fardas às riscas que identificavam os prisioneiros e que também tinham um número. Era a esse número que era preciso responder a cada dia de sobrevivência. Os números a dizer o horror para que o horror não se repita…  “Não pode repetir-se”, disse o filósofo alemão Theodor W. (1903-1969) no livro Teoria Estética. Disse também que por essa barbárie exemplar não seria possível escrever ficção, fazer poesia, depois de Auschwitz. Tudo para que nada do que ali se passou pudesse repetir-se.

Sobre isto, João Pinto Coelho acrescenta outro testemunho. O de Piotr Cywinski, director do museu de Auschwitz, no prólogo de um livro que junta testemunhos de investigadores que dedicaram a via da estudar o que se passou em Auschwitz. “Ofereceram-mo na primeira vez em que estive aqui e passou a ser o meu livro de cabeceira”, acrescenta o autor de Perguntem a Sarah Gross. “Pergunta-se sempre porquê?, como foi possível?”, continua Pinto Coelho, defendendo que qualquer tentativa de resposta terá de ter a palavra indiferença. Nesse prólogo, Cywinki escreve: “Por debaixo da janela do meu escritório, oposto ao Crematório I, dentro do perímetro de Auschwitz I, passam todos os dias muitos milhares de pessoas. Sobretudo jovens. A maioria com os rostos concentrados, desorientados, deprimidos. Acabaram de ver tudo aquilo que desencadeia a mais determinada indignação em cada um de nós. Ou deveria, em princípio. O problema é que tal não acontece.

Todos os anos muitos milhões de pessoas visitam museus e centros educacionais dedicados à história do Holocausto. Essas pessoas, de uma forma muito emocionada, perguntam-se como foi possível que a resistência não tenha feito explodir as linhas férreas, que os Aliados não tivessem bombardeado as câmaras de gás, que a Cruz Vermelha nada tivesse feito, que as autoridades morais e religiosas não tivessem chamado as coisas pelos seus nomes.
Já ao jantar, nessa mesma noite, essas mesmas pessoas, observando os acontecimentos do Ruanda ou Darfur, perguntar-se-ão: o que está a NATO a fazer? Porque estão ausentes os capacetes azuis? O que tem a União Europeia a dizer sobre isso? Como é estranho que ninguém faça nada!
Observando as pessoas que por mim passam, ao terminar a sua visita a Auschwitz I e que lentamente se dirigem a Auschwitz II Birkenau, interrogo-me por vezes quantos dias passarão até que cada uma delas comece a rejeitar a sua responsabilidade pessoal, a responsabilidade de hoje, descarregando-a nas várias instituições, preferencialmente instituições internacionais. Hoje estão consternadas pelo silêncio do mundo naqueles dias. Amanhã farão parte desse silêncio.”

 


Nós


Os visitantes de Auschwitz têm esse silêncio que ali parece original, determinante no tal léxico. A média no Verão ronda os sete mil por dia, desde que as portas abrem, às nove da manhã, até ao encerramento, às sete da tarde. É uma romaria estranha onde cada um parece querer ver no outro sinais. De dor, de revolta, de consternação, de entendimento, de perplexidade. Mas onde ninguém se olha muito. “Aconteceu ali, então pode acontecer outra vez… Pode acontecer em qualquer lugar”, afirmou Primo Levi. "Nunca mais não é um programa político, mas uma decisão pessoal. Significa nunca mais por causa de mim, nunca mais em mim, nunca mais comigo”, declarou ainda Piotr Cywinki na cerimónia dos 70 anos de libertação de Auschwitz, a 27 de Janeiro. Voltamos ao princípio de uma conversa possível sobre Auschwitz, diz agora João Pinto Coelho: “Tudo isto é uma realização plenamente humana. Foi feito uma vez e pode voltar a ser feito. Os actores não desapareceram. Os actores somos todos nós.”


A questão é inquietantemente simples: como que se aplica o "nós" ao Holocausto. Estamos agora num dos pontos de onde se consegue ter uma perspectiva global do campo. Arame farpado à frente, atrás, à esquerda e à direita. Vigilância permanente. Os edifícios alinhados e um pátio estreito onde não parece concebível pensar em milhares de pessoas juntas. Ao sol, tenta-se imaginar o frio do Inverno polaco. O clima é extremado e fragiliza qualquer resistência. Ali estavam os que já tinha passado a primeira selecção, a de um duche antes de uma refeição quente e roupa lavada. Era esta a mentira, uma das mentiras. “Há um livro escrito por um historiador americano, Christopher Browning, que se chama Ordinary Men. Ele fez entrevistas com elementos de um batalhão de polícia que participou em muitos massacres durante a invasão da União Soviética, que matou milhares de judeus com uma brutalidade incrível, e mostrou-nos o outro lado desses homens. E são tão parecidos connosco. A dúvida é essa, a do nós, e não a do querer compreender a Alemanha”, continua João Pinto Coelho que num momento da sua vida teve vontade de escrever sobre o que muitos teóricos defendem que não pode ser escrito. “É um assunto que me acompanha há anos e se um dia eu escrevesse seria sobre Auschwitz”, justifica.

PÚBLICO -
Foto
Rui Gaudêncio

É aquele lugar, ou aquilo, outra vez, aquilo. É mais difícil dizer isto quando se fala ou mesmo quando se está em Auschwitz. A estranheza, a sensação de permanente distância face a um sentido que nunca se apreende. Por mais relatos de factos e sucessão de números. Voltamos a Lukasz, o guia, um polaco com um mestrando em Finanças que trocou a city londrina por uma especialização na Holocausto e em Auschwitz. “A decisão de construir este campo foi tomada pelos nazis no início de 1940. Foi concebido poucos meses depois do início da II Guerra Mundial. A Alemanha precisava de mais campos. A Polónia estava sob ocupação nazi desde Setembro de 1939. Foi pensado para ser um campo para prisioneiros políticos, milhares de polacos foram presos durante a ocupação. Quando tomaram a cidade de Oswiecim aproveitaram as instalações de um antigo quartel polaco e transformaram-no num campo para presos políticos. O primeiro grupo a chegar, a 14 de Junho de 1940, tinha 728 pessoas. Durante quase dois anos continuou a receber presos. A deportação em massa de judeus para Auschwitz começou 1942. Depois de uma conferência secreta em Wannsee [lago juto a Berlim] os nazis decidiram a solução final para os judeus. O plano era matar 12 milhões de judeus europeus. A partir daí a função principal de Auschwitz passou a ser o extermínio de judeus. A maior parte dos que chegavam eram mortos nas camaras de gás pouco apos a chegada. Só trabalhavam os que estavam em construções físicas para isso. Os nazis escolhiam os fortes e saudáveis…” A voz vai-se sumindo à medida que visitantes se aproximam. Lukasz fala ainda da decisão de construirde raiz Birkenau, campo de extermínio massivo, numa área onde existiam aldeias. A população foi expulsa, arrasou-se parte da floresta e nascia Auschwiz-Birkenau, ou Auschwitz II. Há mais números.

“O campo era um local silencioso. Não se viam árvores e os únicos vestígios de vida chegavam pelo som que centenas de pés cansados arrastavam no pó do chão. O dia estava soalheiro e o frio de Março já se suportava, sobretudo agora que não corria vento.” 

A descrição está em

Perguntem a Sarah Gross

e é de um campo secundário, Plaszów. Birkenau viria mais tarde.

“Que diabo de lugar era aquele? Toda a gente fazia a mesma pergunta. Só víamos barracões de tijolo, barracões de madeira, a perder de vista. Ah, e prisioneiros também.”

As frases lidas recentemente ecoam quando se sobe ao cimo do edifício principal daquele campo que nunca chegou a ser concluído. Em 1945, quando o exército soviético chegou a Auschwitz já encontrou parte das instalações destruídas. Os alemães queriam apagar as marcas do genocídio. Ao contrário do que se via horas antes no campo I, ali não há sombras. Sol a pique e uma vastidão para percorrer a pé. A linha de férrea parte o território a meio, parece fundir-se o longe com a floresta. Ao longe há uma casa. Era uma das câmaras de gás. Do complexo de Auschwitz ainda faz parte outro campo grande, Monowitz. E cerca de 50 campos satélites, numa área total de 40 quilómetros quadrados …

Como pôr isto em ficção? Ou, como não?

“Eu tinha a história de um sítio antes de ser o inferno e de um criminoso de guerra que conseguira escapar para uma aparente vida normal”, diz João Pinto Coelho. O primeiro impulso foi contá-la em BD. Professor de geometria, arquitecto, o desenho é uma obsessão. “Ainda bem que não o fiz. Não teria conseguido. A logística de produzir uma banda desenhada não dava com a minha vida." Começou a escrever e além da linguagem para Auschwitz era preciso uma voz que não encontrava. “Eu lia os diálogos alto, representava-os e tudo me parecia falso. Ou eu era um péssimo actor ou aquilo era muito mau. As duas coisas podiam ser verdade”, sorri.

João Pinto Coelho em Auschwitz Rui Gaudêncio
João Pinto Coelho em Auschwitz Rui Gaudêncio
João Pinto Coelho em Auschwitz Rui Gaudêncio
João Pinto Coelho em Auschwitz Rui Gaudêncio
João Pinto Coelho em Auschwitz Rui Gaudêncio
João Pinto Coelho em Auschwitz Rui Gaudêncio

Agora no topo de uma colina em Cracóvia. É sábado de manhã, e são muitos os turistas junto ao Castelo Real de Wawe, um dos edifícios mais emblemáticos no centro histórico, núcleo declarado Património da Humanidade pela UNESCO em 1978. Os alemães colocaram ali a sede do seu domínio polaco em 1939. Nessa altura de hesitação foi reler Hemingway. “Queria ver como é que ele resolvia algum tipo de coisas, ver a estrutura dos diálogos, como é que os partia, como interrompia as vozes, como é que as retomava, o que punha no meio. Fiz isso com outros autores também, mas lembro-me de estar com o meu livro ao lado dos dele a tentar sentir onde é que estava a diferir, onde é que eu estava a falhar… Foi começar do zero.”

O processo foi longo. Começou em 2011, no mesmo ano em que participou numa conferência internacional na Gulbenkian sobre Portugal e o Holocausto. Lembra um painel onde esteve Maria Filomena Molder, Clara Ferreira Alves e António Pinto Ribeiro. Ouviu mais uma vez falar do "exprimível" e do "inexprimível", o que se pode e não pode representar, ou o que “impede o acesso à palavra” quando se escreve literariamente sobre o Holocausto. Ele diz agora de outra maneira, “é como se o léxico de Auschwitz roubasse ao autor certas palavras”. Usou essa frase na apresentação do livro, onde a historiadora Irene Flunser Pimentel lhe elogiou pesquisa e a profundidade de conhecimento em que se sustenta o romance. “O meu principal problema foi mesmo o da linguagem”, confessa. Se pudesse guiar o leitor, gostava que ele encontrasse muito silêncio, um silêncio parecido com o que ele encontra cada vez que vê Shoah, o documentário de nove horas realizado em 1985 pelo francês Claude Lanzemann. Está junto à linha de caminho-de-ferro no lugar onde ela entra em Birkenau, quando lhe ocorre esse filme-testemunho do Holocausto feito a partir dos campos de extermínio na Polónia. “Não há uma fala a mais, uma imagem a mais”, diz isto e há um olhar em linha recta em direcção ao fundo do campo, até onde a paisagem perde definição.

Depois

João Pinto Coelho escreve depois disso tudo. Do que viu, leu, com os riscos de falhar, com medo do pior quando se escreve sobre Auschwitz: “não dizer nada ou dizer tudo errado”. É mais preciso: “Perguntam-me algumas vezes se acho importante falar sobre Auschwitz hoje. Toda a gente diz que é importantíssimo. Mas acho que é importante, mas depende do discurso.” O risco era alto, mas era o seu tema. “Se alguma vez escrevesse, sabia que era sobre isso. E também sempre soube outra coisa: é que se um dia viesse a escrever um livro sobre o Holocausto ele iria falar também de judeus contentes, judeus organizados socialmente, judeus que viviam naqueles lugares antes de serem exterminados. Não ia seguir só aquela imagem muito recorrente dos judeus em cacho, já destruídos, sem história para contar. Quando vim a Auschwitz e conheci também a cidade, tudo isso espoletou. Percebi que esta cidade era a oportunidade de que eu estava à procura para falar sobre judeus de uma forma que não é falada, a do que era antes do campo lá chegar. Não percebo. Parece que a ficção ficou por ali.”

PÚBLICO -
Foto
Parede de fuzilamento, escondido num dos pátios de Auschwitz I Rui Gaudêncio
PÚBLICO -
Foto
Pormenor da parede de fuzilamento Rui Gaudêncio

Escrevia e lia alto. Se o livro sobrevivesse à oralidade, quem sabe… “Estava a aprender tudo. Eu não escrevia nada desde as redacções na escola primária, mas sempre li muito, compulsivamente. A literatura só me era estranha como autor, mas percebi que isso já era muito”. Escrevia e desenhava, as casas, os edifícios de que falava, que criava ficcionalmente. “Fiz plantas, trabalho de arquitecto, mesmo”. Uma dessas plantas vem no início do romance, a do Colégio de St. Oswald, onde Kimberley encontra Sarah Gross. As outras serviram-lhe de orientação criativa. Inventou lugares em paisagens específicas, que conhece bem: Shelton, a cidade no Connecticutt onde viveu com a mãe no princípio dos anos 80, Nova Iorque, onde chegou a trabalhar num teatro, Cracóvia, que descobriu antes de Auschwitz, Oshpitzin que reconstituiu a partir de relatos, postais… a partir da actual Oswiecim.

“Para mim, escrever é ir aos lugares, estar nos lugares”, afirma. Vive em Murça, trabalha a 50 quilómetros, em Valpaços. “Em determinada fase do romance estava ansioso por chegar a casa porque me apetecia mudar de contexto, sair do lugar onde estava e entrar noutro, no romance. Estava a descrever um jantar num apartamento do Cracóvia em 1933 e ouvia o barulho dos talheres, sentia os aromas, ouvia as conversas. Era tão concreto! Isso dava-me uma intensidade enorme. Acho que foi isso que me permitiu vencer aquela chatice da disciplina do romance. Não sinto um prazer por aí além na composição das frases. Gosto é de viajar, de estar lá, de saber o que vai acontecer a seguir”, confessa, e nisso sentir-se leitor, ser também guiado pelo suspense que cria sem saber quem guia quem, o escritor que está a ser ou o leitor que sempre foi e gosta de reler.

Volta aos mesmos livros como volta aos mesmos lugares. Muitos americanos, portugueses como Agustina Bessa-Luís, Gabriel García Marquez. Volta também sempre aos mesmos filmes, clássicos americanos e europeus, alemães, italianos, franceses. “Há algum conforto nisso”, adianta antes de revelar fontes que lhe permitiram ir ao quotidiano da Polónia antes da Guerra. Entramos na Cidade Velha, a Pequena Cracóvia, como é conhecida. O bairro de Kazimierz, revelando origens populares, ruas apertadas, praças com mercados de rua, bares e restaurantes. No início do século XX era ali, entre o castelo e a Praça do Mercado, que viviam os judeus assimilados que integravam a elite de  professores, médicos, advogados. “Li muitos diários passados aqui, em Cracóvia. Há muita produção literária diarística desse período. Estamos a falar da diáspora, de gente que teve de largar as suas casas, a maior parte, que estão longe, e que se organizaram para escrever também as memórias dos lugares.” Muitos estão em hebraico. O de Oswiecim estava traduzido para inglês e deu-lhe nomes e ambientes.

Escreveu Perguntem a Sarah Gross e dois dias antes do prazo terminara falaram-lhe do Prémio Leya. Concorreu e diz que esqueceu o assunto. Até que Maria do Rosário Pedreira, editora, lhe ligou a dizer que queria publicar o romance. Não venceu, mas tinha sido um dos finalistas. “Começou um trabalho de edição conjunto. Ela alertou-me para coisas óbvias que me escapam. Eu tinha uma personagem com uma gravidez que durava dois anos.” O livro foi publicado na Primavera e as criticas têm causado espanto a João Pinto Coelho. Tem dificuldade em dizer que é escritor. O facto é que o romance revela uma maturidade difícil de encontrar num estreante. Além de ter personagens reclamam uma existência para lá do livro.

Que rosto terá Sarah Gross?  

É outra pergunta que ocorre quando se caminha pelo cenário real da personagem de ficção. “Como será que vê o mundo quem já presenciou uma coisa assim?”, interpela, por sua vez, o romance. Sarah é um nome e os nomes parecem ser a nova base a partir da qual Auschwitz quer chegar às pessoas. O campo tornou-se museu a partir de 1947 e já teve mais de 30 milhões de visitantes. Os números têm sido repetidos as imagens que mostram a morte massiva replicadas. Quem visita Auschwitz fixa-se nos rostos que estão em duas paredes num dos corredores de um bloco. Cada rosto, homens de um lado, mulheres do outro; têm um nome, uma data de chegada e outra de saída. Ou melhor, uma data de fim. Há um homem que se vê ter durando um dia ali, uma mulher que resistiu três meses, dois dias, um ano, cinco meses, dois anos. Como era possível resistir dois anos ali?

PÚBLICO -
Foto
Um dos dormitórios num dos blocos de Auschwitz I: cada colchão servia para dois, três, quatro prisioneiros Rui Gaudêncio
PÚBLICO -
Foto
Rui Gaudêncio

João Pinto Coelho falou com sobreviventes, ouviu muitos testemunhos repetidos durante anos. Em que se transformam nessa passagem do tempo, nessa réplica? “São pessoas que já disseram aquilo tantas vezes… Gostava, por exemplo, de compreender o que as faz voltar. Não sei. Nos relatos dos sobreviventes que lemos e ouvimos há uma coisa permanente: a necessidade, mesmo quando estavam lá no meio do maior sofrimento, de encontrar um papel e fazer passar aquilo. Era preciso que alguém contasse, que se soubesse. Encontramos histórias de pessoas que estavam praticamente a morrer, que sabiam que iam morrer, e que mesmo moribundas arranjavam tempo para dizer àqueles que poderiam salvar-se, que não estavam na iminência de morrer tão rapidamente, que era preciso sobreviver porque era preciso que se soubesse. Essa necessidade de contar vem do campo e continua”, salienta João Pinto Coelho.

Há fotos resgatadas após a libertação dos campos a alguns sobreviventes, outras que se encontram perdidas. A qualidade revela o segredo em que eram tiradas. Algumas estão nas paredes de Auschwitz. Lukasz conta a história de algumas. Em cada sítio onde se pára, procura-se também um nome. “Não conseguia imaginar como iria suportar mais um dia como o anterior, ou como o que viera antes desse.” O pensamento é de uma personagem na ficção que Pinto Coelho escreveu. Transpõe-se a ficção para um real que está na parede. Para as celas de tortura, de sufoco, a parede para as execuções, o tecto baixo da camara de gás, as vedações electrutadas. Há sempre um absurdo maior. Talvez, como decidiu um dos protagonistas de Perguntem a Sarah Gross, seja preciso “parar de imaginar” quando se está em Auschwitz.

PÚBLICO -
Foto
Rui Gaudêncio