Editorial

Um mau acordo ou um não acordo?

O tempo escasseia para a Grécia e as negociações já estão a saltar do plano técnico para o político.

De ultimato em ultimato, aproxima-se o dia em que os gregos simplesmente não terão dinheiro para honrar os seus compromissos. Que dia é esse ainda ninguém sabe ao certo. Poderá, porém, não ser uma questão de semanas, mas de dias. Como escrevia Jorge Almeida Fernandes no domingo, a crise grega tem sido feita de sucessivas “datas fatídicas” que até agora não têm sido fatais. A última data fatídica foi 12 de Maio. Nessa altura, quando se pensava que fosse entrar em incumprimento, Varoufakis desencantou 750 milhões num fundo de emergência do FMI para reembolsar um empréstimo do próprio FMI. A próxima data fatídica é sexta-feira. E depois disso seguir-se-ão outras.

Um porta-voz do Governo grego, questionado pela Reuters se vai pagar o que deve ao FMI na sexta-feira, disse: “Se chegarmos a um acordo [com os credores oficiais], então vamos fazer o pagamento que vence a 5 de Junho normalmente.” Não o tendo assumido explicitamente, e não tendo colocado a frase na negativa, para bom entendedor meia frase basta: “Se não chegarmos a um acordo…” Um incumprimento da Grécia, mesmo que involuntário, vai desencadear uma cadeia de eventos de proporções desconhecidas e, como tal, assustadoras. Um incumprimento iria, a curto prazo, provocar o pânico e levaria as autoridades a colocar um tecto ao levantamento de dinheiro. E os bancos, a partir do momento em que o Estado entrasse em default, perderiam acesso à liquidez de emergência do BCE. E a saída do euro seria inevitável, embora ainda ninguém conheça a porta de saída. E com que estrondo e que estragos iria fazer – para os que fossem e para os que ficassem.

Pierre Moscovici, comissário europeu dos Assuntos Económicos, veio dizer que se têm verificado "significativos progressos" nas negociações, mas advertiu  que ainda há "trabalho por fazer". A tradução de bruxelês para português significa que continuamos num impasse. Conscientes de que o tempo escasseia, Merkel, Hollande, Lagarde, Draghi e Juncker reuniram-se em Berlim para tentar acelerar o ritmo das negociações. O grupo dos cinco está eventualmente a fazer descolar a discussão do plano técnico para um plano de onde ela nunca deveria ter saído, que é o das decisões políticas.

A sensação é que estamos no ponto onde estávamos há quatro meses, quando o Syriza encetou negociações com os credores depois de umas eleições em que ganhou prometendo o fim da austeridade. Mas como fez questão de lembrar esta terça-feira Yannis Stournaras, governador do banco central grego, “ninguém tem o mandato para retirar a Grécia do euro”. Nem o Governo de Alexis Tsipras, nem o grupo do cinco. Stournaras recordou que a esmagadora maioria dos gregos quer continuar no euro e que 65% até estão dispostos a aceitar mais sacrifícios para continuarem a fazer parte do clube. Chegamos a um ponto em que um mau acordo é preferível a não haver acordo. Por mais injusto que isso possa ser para os gregos.