Intensidade dos incêndios florestais é três vezes maior do que nos anos 1940

Há mais matéria combustível na floresta, logo, os fogos têm hoje mais capacidade destrutiva, concluem investigadores. Fase Bravo termina a 30 de Junho

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"Continua-se a atacar o fogo muito fora da floresta, lamenta investigador da UTAD Nélson Garrido/Arquivo

Mesmo assim, o pior já passou. A perigosidade dos fogos registada em 2011 representa apenas 60% do potencial existente nos anos 1980, quando a capacidade de destruição dos fogos era ainda maior, resultado da combinação de um aumento muito significativo do número de ignições com um tipo de espaço florestal altamente arborizado. As conclusões são de um trabalho de investigação elaborado no âmbito do Programa MIT Portugal, uma parceria do Governo português com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

O estudo centra a sua análise nas zonas montanhosas do Norte e Centro do país, onde se regista a maioria dos incêndios florestais. E permite pela primeira vez contabilizar o impacto do êxodo rural ao nível do combustível deixado nas zonas rurais. “A utilização de biomassa pela população e seus animais desceu rapidamente desde meados do século XX e, em 2011, era cerca de dez vezes inferior à de 1943”, estima o engenheiro florestal Paulo Fernandes, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), que apresentou o trabalho intitulado Dinâmicas e determinantes do fogo nas áreas sob regime florestal.

Para chegar a estes resultados, os autores do trabalho contabilizaram a população agrícola activa e o efectivo pecuário, cruzando esses dados com o que cada animal come por dia, com o combustível retirado das florestas pelos sapadores através de técnicas como o fogo controlado ou a biomassa usada para aquecimento.

“Hoje há muito mais mato nas florestas, é um combustível que apresenta uma intensidade bastante menor do que a do fogo de copas”, reconhece  o professor da UTAD. O pior cenário terá sido vivido nos anos 1980 e, a partir daí, a perigosidade dos incêndios florestais tem diminuído. Porém, isso não significa que os estragos provocados sejam menores. “Curiosamente a redução da perigosidade desde os anos 80, por diminuição da área de pinhal bravo, não se traduziu em menor área ardida, o que mostra a ineficácias das operações de combate”, considera Paulo Fernandes.

O professor universitário sublinha que falta conhecimento no actual modelo de combate que não consegue reconhecer as oportunidades criadas pela própria natureza e pelas políticas de prevenção, optando por ficar na estrada à espera do fogo. “Apesar dos matos que hoje predominam serem muito mais fáceis de combater, a área ardida não desceu”, constata. Tal, acredita, deve-se principalmente à falta de conhecimento, mas também pode ter outras explicações: um menor empenho no combate aos fogos em mato e a uma falta de comunicação entre quem está no combate e quem faz a prevenção. “Continua-se a atacar o fogo muito fora da floresta”, lamenta.   

Duarte Caldeira, presidente do conselho directivo do Centro de Estudos e Intervenção em Protecção Civil (CEIPC) e antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, põe a tónica do problema dos fogos na prevenção, e não no combate. Mostrando-se muito preocupado com o estado actual do desordenamento florestal, critica a ausência de políticas florestais deste Governo e lamenta a falta de atenção dada ao problema dos incêndios por todos os quadrantes políticos. “A capacidade de retórica está a esgotar-se. Os diagnósticos e as terapêuticas estão feitos, mas infelizmente não são levadas à prática”, desabafa.

O director do CEIPC acredita que evoluiu o dispositivo de combate, que, na sua opinião, tem pouco espaço para melhorar, mas insiste que tal não evitará uma catástrofe como a que ocorreu em 2003, quando arderam mais de 425 mil hectares de floresta. “A política de ordenamento florestal deste Governo foi um verdadeiro fracasso. As Zonas de Intervenção Florestal não progrediram, o inventário florestal não está feito, e continua a não haver incentivos fiscais para intervir nas terras”, remata

Independentemente de uma mudança de estratégia no combate ou na prevenção dos fogos que poderiam atenuar os efeitos dos fogos, há uma variável que é impossível controlar: o clima. O estudo apresentado este mês permitiu também desconstruir uma ideia repetida sobre o impacto da chuva na área ardida. “A influência da precipitação sazonal ou anual na variação da área ardida é residual. O factor que mais determina a área ardida é a meteorologia”, conclui o investigador. Tal, precisa, resulta de uma transição de um regime de fogo limitado pelo combustível para um regime dominado pela meteorologia, onde as temperaturas altas combinadas com baixas humidades relativas do ar e ventos de leste fazem o caldo perfeito para os incêndios.