O BCE tem motivos para fazer mais no combate às recessões

As recessões, quando surgem, produzem impactos no desempenho das economias por muitos anos, indicia um estudo apresentado por Olivier Blanchard.

Olivier Blanchard, que vai deixar o cargo de economista chefe do FMI, é uma das figuras centrais no encontro que se realiza em Sintra
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Olivier Blanchard, que vai deixar o cargo de economista chefe do FMI, é uma das figuras centrais no encontro que se realiza em Sintra REUTERS/Tyrone Siu

Na Penha Longa, em Sintra, a discutir os desafios da política monetária, alguns dos economistas mais conhecidos do Mundo e muitos dos principais responsáveis pelas decisões dos bancos centrais, tentaram responder a uma questão: será que uma recessão tem um efeito prolongado de redução do crescimento de uma economia? E se sim, não teriam os bancos centrais novas razões para ser mais agressivos no combate às recessões para evitar impactos negativos de longo prazo?

A questão foi lançada através de um estudo apresentado por Olivier Blanchard, o economista chefe do FMI (que contou com a co-autoria de Eugenio Cerutti e Lawrence Summers), que analisa o efeito de recessões ocorridas durante 50 anos em 23 economias avançadas, incluindo Portugal.

A conclusão é a de que dois terços das recessões são seguidos por um produto mais baixo do que o registado antes da crise e, de forma considerada ainda mais surpreendente, dois terços destas são seguidas por taxas de crescimento mais baixas do que a tendência anterior. Isto é, a seguir a uma recessão, o desempenho da economia é, em muitos casos, pior do que havia no passado. Blanchard mostrou o caso de Portugal, que é um dos que regista este efeito de forma clara.

O problema está em saber a que se deve este desempenho mais fraco depois das recessões. Pode ser porque os motivos que levaram à recessão (por exemplo, uma crise bancária) se mantêm no futuro. Pode também ser que a recessão tenha sido o resultado de as empresas e os particulares estarem já a antecipar crescimentos mais lentos no futuro.

Mas pode ser também que a própria recessão provoque uma redução do crescimento potencial por um período longo no futuro, um fenómeno designado por histerese na ciência económica. Um exemplo deste fenómeno seria o facto de pessoas que caem no desemprego durante a recessão ficarem com menos qualificações ou perderem a esperança de encontrar um emprego.

Se for este último caso (os autores não chegam a uma explicação única), “a consequência é muito clara: a política monetária deve responder muito mais fortemente aos movimentos do produto”, disse Olivier Blanchard. A ideia é de que, tendo as recessões mais custos do que se pensava, vale ainda mais a pena fazer um maior esforço para evitá-las e, caso aconteçam, para combatê-las.

Estarão os bancos centrais preparados para fazer isso? Blanchard diz que este tipo de conclusões “é um argumento muito forte para um mandato dual para as autoridades monetárias”. Isto é, para que os bancos centrais tenham como objectivo não apenas a estabilidade de preços, mas também um desempenho forte da actividade económica. A Reserva Federal norte-americana tem este mandato dual, mas o BCE não, já que tem como missão principal a estabilidade de preços.

Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro norte-americano, também acha que os bancos centrais têm de fazer mais para evitar os efeitos negativos da recessão. “Não compreendo como é que se pode negar que, caso haja estes efeitos negativos a prazo, um banco central tem de actuar de forma mais agressiva”, disse, defendendo ainda que “a política monetária é mais do que apenas uma resposta ao imediato, também pode ter um efeito no longo prazo”.

Não foi, contudo, só aos bancos centrais que estes economistas pediram que se fizesse mais. Lawrence Summers, que em 2013 lançou a ideia de que a economia mundial poderia estar perante um período de “estagnação secular”, em que as taxas de crescimento e as taxas de juro se mantêm por muito tempo em níveis demasiado baixos, aconselhou a que, para além do BCE, também os Governos contribuíssem com medidas de estímulo ao crescimento na Europa. Por um lado, seguiu a linha de Mario Draghi e considerou que ganhos significativos podem ser atingidos através de reformas estruturais. Por outro apelou à utilização pelos Governos do espaço orçamental de que disponham para, por exemplo através de mais investimento público, aumentar a procura agregada na economia.

Summers criticou os países que, tendo hipóteses de o fazer, não o fazem. “A estagnação secular é contagiosa. É dever de quem a tem tentar curá-la e é direito dos outros pedir que seja corrigida”, disse.

O estudo de Olivier Blanchard e Lawrence Summers coloca também a hipótese de a ligação entre a taxa de desemprego e a taxa de inflação ser agora bastante menos forte do que era no passado, um facto que também tem fortes implicações para a política monetária, já que pode forçar os bancos centrais a terem de ser mais agressivos se quiserem controlar a inflação.