Medidas sobre mercado de trabalho e Segurança Social levantam dúvidas no PS

Dirigentes admitem querer mais explicações sobre algumas das propostas que fazem parte do relatório apresentado terça-feira.

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Comissão Política Nacional do PS reuniu-se esta quarta-feira à noite Pedro Cunha/Arquivo

À superfície, o partido parecia confortável com o cenário. À entrada da comissão política nacional do PS, convocada para debater o quadro macroeconómico apresentado na terça-feira, os dirigentes socialistas verbalizavam as virtudes do esforço de colocar economistas a planear os próximos quatro anos. Álvaro Beleza, do anterior secretariado, elogiou a iniciativa de António Costa como um “exercício credível” que enfatizava o “rigor” nas propostas. O também ex-membro do secretariado Eurico Dias falou num bom ponto de partida. E para o ex-ministro e actual eurodeputado Pedro Silva Pereira, o relatório era “de um modo geral bom”.

Mas isso era o que se dizia com as câmaras dos directos televisivos apontadas à porta da sede do PS. À margem, alguns dirigentes admitiam dúvidas sobre algumas propostas. Na reunião, Maria do Rosário Gama, da Associação Apre!, manifestou as suas reservas em relação ao “abaixamento da TSU” tanto para os trabalhadores como para as empresas. Por considerar que poderia ser “perigoso” para a sustentabilidade da Segurança Social.

O deputado Pedro Nuno Santos também interveio sobre a TSU mas para questionar o secretário-geral sobre o aparente benefício às empresas, questionando porque é que se definia a reposição para os trabalhadores e não para as empresas.

“Venho ouvir quanto aos detalhes”, reconheceu também a eurodeputada Ana Gomes antes de confirmar que havia matérias que “precisam de ser melhor compreendidas”. A título de exemplo, citou a “redução na TSU”. Eurico Dias reconheceu a intenção de debater as propostas que diziam “respeito ao mercado de trabalho e Segurança Social”. A flexibilização do despedimento individual foi também abordada pelos sindicalistas da UGT.

Por seu turno, Álvaro Beleza defendeu ser necessário acrescentar política ao cenário. Ou seja, escolher cinco ideias simples para apresentar durante a campanha. Por isso, propôs creches gratuitas, a aposta no Serviço Nacional de Saúde, a defesa da redução do IRC, além de um código de ética para os candidatos a deputados e o retomar dos círculos uninominais na reforma do sistema eleitoral.

A dirigente Ana Catarina Mendes, próxima de António Costa, reconheceu quando a reunião ainda decorria que esta estava a ser “muito participada” e que se estavam a recolher “muitos contributos”. O que só podia ser “positivo”, considerou.

Ainda assim, as expectativas em relação à comissão política nacional apontavam para uma reunião pacífica. E o mesmo se esperava da reunião da bancada parlamentar a que António Costa tencionava comparecer para explicar o cenário aos deputados, agendada para esta quinta-feira.

"Eleitoralismo", acusa Passos
Já Pedro Passos Coelho resumiu a iniciativa do PS como uma jogada eleitoralista. "De um modo geral, as medidas que são apresentadas visam menos resolver os problemas do país e mais ajudar o PS para as eleições. É assim uma impressão que me fica", declarou o primeiro-ministro no Estoril, à margem do 7.º Congresso da Confederação dos Agricultores de Portugal. "Elas são claramente representativas de uma estratégia económica que não é a nossa, é uma estratégia económica que o PS já defendeu no passado, já executou no passado e cujos resultados os portugueses conhecem."

O social-democrata deu como exemplo as omissões, no relatório, em relação ao défice. "De acordo com os dados que temos, e que jogámos em interacção de informação com a Comissão Europeia, não nos parece que estes dados nos permitam baixar o nosso défice estrutural — de resto, há uma total omissão quanto a essa matéria naquilo que foi apresentado pelo PS", apontou. Para Passos Coelho, não se percebe "o que se vai passar com o défice estrutural nas contas socialistas" e as mesmas deixam incertezas também quanto à evolução da dívida: "As contas não nos permitem ser concludentes sabendo se respeitaremos ou não o desendividamento a que estamos obrigados."

Ainda assim, o primeiro-ministro acabou por reconhecer o mérito da “transparência [dos partidos] de dizerem ao que vêm” e “definirem com clareza a sua estratégia para futuro”. “Isso deve ser saudado. E como primeiro-ministro, mais até do que como dirigente partidário, não posso deixar de saudar essa preocupação do PS."