“Subsídios públicos podem reduzir a dependência” dos media

James Curran, académico dos media, defende uma intervenção do Estado para resolver a crise económica dos jornais.

Foto
James Curran é professor na Goldsmiths University of London Daniel Rocha

O jornalismo é uma peça fundamental da democracia que tem a particularidade de precisar de ser um negócio saudável. A crise do negócio está a afectar a qualidade das democracias?
Sim. No Reino Unido, nos últimos anos, tem havido uma redução de jornalistas empregados, de forma semelhante ao que acontece nos EUA. A consequência disso é que a imprensa está mais dependente das relações públicas e do jornalismo do corta e cola. A Internet devia facilitar o acesso a fontes de informação diversificada, mas, na prática, a pressão para os jornalistas produzirem mais, e com menos pessoas, aumenta a dependência de fontes já conhecidas, de fontes do establishment. A qualidade do jornalismo está a reduzir-se em consequência do desvio da publicidade para sites, o que inclui sites que não são jornalismo. 

O jornalismo em certos aspectos está melhor. Os jornalistas sabem melhor o que o público quer, têm mais ferramentas, podem comunicar com a audiência de uma forma mais directa do que antes da Internet. Concorda?
O argumento é que na Internet os jornalistas estão mais cientes daquilo que leitores e espectadores querem. O que não se concretizou foi a esperança de que os “cidadãos jornalistas” iriam conseguir uma horda de leitores. Os maiores sites na Grã Bretanha são todos controlados por instituições de media. E encontramos o mesmo padrão noutros países. Mas isto depende do contexto. Na Coreia do Sul, um site chamado Oh My News, que é uma produção conjunta de amadores e profissionais, construiu uma enorme audiência. A razão foi haver uma revolta cultural contra o conformismo e uma revolta contra um regime totalitário [alguns académicos e críticos do Governo sul-coreano têm argumentado que o país está a funcionar numa lógica totalitarista].

Esses sites que surgem fora das instituições jornalísticas não têm normalmente falhas de isenção? Há o caso de Glenn Greenwald, que tem agora um site e que trabalhou com o Guardian no caso de Edward Snowden. Muitos dizem que Greenwald não é um jornalista, por ter uma agenda própria.
Depende do contexto. Na América, onde há uma tradição muito forte de jornalismo profissional e de objectividade desinteressada, isso é um problema maior do que no Reino Unido, onde a tradição é a de ser partidário. 

Acha possível que partidos políticos e grandes empresas possam chegar directamente ao público, saltando os jornalistas? Há partidos que já têm sites que, em termos de aspecto, são semelhantes a sites noticiosos.
Julgo que não. Os dados mostram que as instituições estabelecidas, os jornais e as televisões, dominam o consumo de notícias na Internet. Num estudo que fizemos em dez países, verificámos que as fontes de informação usadas por sites eram muito similares às usadas por jornais e televisões. O Estado era a mais usada. A oposição política também era muito importante. As organizações da sociedade civil eram muito pouco importantes. 
Os partidos estão em crise. Por isso, a ideia de que vão chegar a grandes audiências vai contra os factos. As filiações partidárias estão em queda, o número de pessoas a votar também. Tenho dado o exemplo da Primavera Árabe. Há alguma mitologia em torno da Primavera Árabe. A penetração do Facebook, do Twitter, mesmo da Internet, é muito baixa no Egipto. Foi o contexto de uma oposição organizada e uma longa história que inclui sindicatos, a Irmandade Muçulmana, a expansão da educação, insatisfação… O contexto fez a revolução, a Internet facilitou-a. Mas a Internet, sem o contexto, não seria a causa.

Por que emergiu essa narrativa de uma revolução do Twitter?
Foi a vontade de satisfazer o desejo de que a tecnologia consegue resolver tudo. É uma das grandes mitologias modernas, que é parcialmente verdade: a tecnologia leva ao progresso. O que aconteceu é que houve um golpe militar e a América alinhou por razões geopolíticas. O poder da palavra foi menos forte do que o poder das armas e que a lógica da geopolítica.

O seu último livro é sobre isto: a forma como estaremos a sobreestimar o efeito da Internet.
O argumento principal é que a Internet faz uma grande diferença apenas em conjunção com um contexto. A Primavera Árabe é uma ilustração disso. Em princípio, as novas tecnologias poderiam produzir um grande renascimento no jornalismo. Mas não está a ser assim.

Porque está a dificultar o negócio?
Exacto.

Imagina um cenário-limite, em que os jornais não encontram um modelo de negócio viável? Alguns jornais conseguem hoje ser bem sucedidos, mas já não há, como antes, um modelo que funcione bem para todos. 
Seria um processo de declínio progressivo em que menos jornalistas produziriam pior jornalismo e abarcavam menos dimensões [da sociedade]. Muitos jornais fechariam e haveria uma maior concentração empresarial de jornais. Acho que alguns poderia sobreviver através de financiamento vindo de pessoas ricas.

O modelo de filantropia, que existe nos EUA?
Ou oligarcas russos. 

O Estado deve intervir?
Depende do que vier a acontecer. Mas se o Estado não intervier, o financiamento pode acabar por vir de oligarcas ou de grandes empresas, funcionando [os jornais] como um departamento de relações públicas. Pensemos no serviço público de rádio e televisão. Era uma tecnologia nova e o Estado interveio para criar empresas públicas. Na Grã Bretanha, houve uma luta terrível sobre se a BBC deveria poder dar notícias, porque os jornais diziam que era concorrência desleal. E, no início, nos anos 1920, a BBC era a voz do Governo. Gradualmente, foi-se tornando independente. A forma como a intervenção do Estado fomentou um enorme avanço na transmissão televisiva diz-nos que podemos ter uma intervenção equivalente na Internet.  Há uma estranha noção de que uma subsidiação privada permite independência, enquanto uma subsidiação pública não. É simplista. Subsídios públicos podem reduzir a dependência de oligarcas. E, não dispiciendo, o jornalismo na Internet é barato...

Não exigiria muito dinheiro dos contribuintes…
Talvez não deva ser dinheiro dos contribuintes. Talvez deva ser dinheiro de uma taxa sobre o Google. 

O Google deve pagar por usar os conteúdos dos media?
Sim. E também é possível ter uma taxa sobre os operadores de telecomunicações. Por outras palavras, é possível taxas as partes lucrativas do sector da comunicação, para subsidiar uma imprensa vigorosa.

Nos anos recentes, há muitos escândalos, nomeadamente políticos, a serem descobertos por jornalistas. Tem acontecido cá em Portugal, mas também no Reino Unido. Como é que concilia isto com a sua visão de uma imprensa pouco vigorosa?
É uma questão de contexto. Suspeito que haja um forte debate político a acontecer na sociedade civil em Portugal e isso influencia o jornalismo. A tendência na Grã Bretanha tem sido para dar mais atenção ao jornalismo de celebridades e ao entretenimento.

É uma estratégia bem sucedida?
As pessoas lêem avidamente histórias sobre as vidas de figuras públicas, mas isso não parou a queda livre da circulação. A resposta para a crise económica [dos media] não tem sido mais desse jornalismo independente e de investigação que está a descrever. Tem sido mais fofocas.

Acha que as empresas de media têm obrigações especiais de transparência, nomeadamente no que diz respeito à propriedade?
Claro que a transparência é desejável. O público deve saber se existem conflitos de interesse. Mas a transparência não é suficiente. Deve haver directores de jornais independentes, alguns deles seleccionados pela redacção. É a melhor garantia. 

Quem é que quer ser dono de um jornal se nem puder escolher o director?
Ainda há benefícios. Quando se é dono de um jornal, tem-se um cartão de visita para qualquer área da sociedade, tem-se influência que não se teria de outra forma.