Ordem preocupada por internos de cirurgia estarem a fazer poucas operações

Caso foi denunciado por internos do Centro Hospitalar de Lisboa Central, de que fazem parte os hospitais de S. José, Capuchos e Curry Cabral. Mas a dificuldade em formar internos estende-se a outras instituições e especialidades. Unidade garante que a formação tem qualidade.

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O número de operações recomendado é definido pela Ordem dos Médicos e consta de uma portaria Paulo Pimenta

Os internos de cirurgia geral do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC) alertam que estão a ser formados durante a especialidade em condições que não permitem que saiam verdadeiramente preparados. Segundo o relato feito ao PÚBLICO por um grupo de internos, os médicos estão a ter dificuldade em ultrapassar as 1000 cirurgias nos seis anos de formação e dizem que a média antes era entre as 2000 e as 2500 intervenções.

Excesso de internos, falta de cirurgias em algumas áreas mas também de anestesistas que permitam realizar mais operações são três explicações apontadas. O assunto chegou à Ordem dos Médicos, que se mostra preocupada. Do lado do CHLC, fala-se num “número excessivo” de internos, mas assegura-se que a formação tem qualidade.

Em alguns casos há internos que deveriam realizar agora o exame de saída da especialidade mas que não se sentem preparados e que decidiram prolongar a formação para conseguirem operar mais. Nenhum se quer identificar, por receio de consequências internas. Mas a Ordem dos Médicos já está a par do caso e em contacto com o centro hospitalar que soma 28 internos de cirurgia geral para tentar resolver a situação. O presidente do Conselho Nacional da Pós-Graduação da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, confirmou ao PÚBLICO que já tomaram conhecimento do problema.

O médico, que preside também à Secção Regional do Centro, salvaguardou que o assunto está a ser “devidamente acompanhado” pela Secção Regional do Sul. No entanto, enquanto responsável pela área da Pós-Graduação reconhece estar “muito preocupado”. “A Ordem dos Médicos está muito preocupada e já questionou o hospital, porque quem não cumpre os mínimos em termos de formação perde a idoneidade formativa”, acrescentou, salvaguardando que, por agora, o cenário é apenas de “análise”.

Carlos Cortes salientou, porém, que as dificuldades na formação de internos são transversais ao Serviço Nacional de Saúde e “um espelho do momento difícil que se está a atravessar”. Uma posição corroborada pelo bastonário, José Manuel Silva, que insiste que tem feito vários alertas sobre o tema e que acusa o Ministério da Saúde de ter causado problemas na formação ao “não estancar” a saída dos quadros mais velhos.

O director do Serviço de Cirurgia Geral do CHLC adiantou ao PÚBLICO que recebeu uma visita da Secção Regional do Sul da Ordem dos Médicos na sequência de uma queixa anónima feita sobre este tema. Eduardo Barroso reconhece que “há um número excessivo de internos” no centro hospitalar – “tal como acontece quase em todo o país” – o que cria algumas dificuldades, mas nega que a formação esteja em risco e fala antes em resistência a mudanças que implementou.

No que diz respeito à cirurgia geral, para este ano de 2015 foram abertas em todo o país um total de 42 novas vagas de internato, sendo uma das especialidades com maior procura. Em 2014 tinham sido 52 e no ano anterior houve um número muito mais elevado, de 90. No total, para este ano foram abertas 1526 vagas distribuídas pelas várias especialidades, segundo os dados da Administração Central do Sistema de Saúde.

A maior parte dos internos ficou na Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, com 579 vagas, seguida pela ARS do Norte (553 vagas), ARS do Centro (244 vagas), ARS do Algarve, com 52, e ARS do Alentejo com 51. Houve ainda 24 vagas para a Madeira e 23 para os Açores. O Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra foi o que atraiu mais internos, seguido pelo Centro Hospitalar de Lisboa Central, Centro Hospitalar de Lisboa Norte, Centro Hospitalar de São João e Centro Hospitalar do Porto.

Mais de 100 cirurgiões
Para Eduardo Barroso, além do número de internos, acresce o facto de o centro, entre internos e especialistas, contar com mais de 100 cirurgiões, numa altura em que por falta de anestesistas ou por redução de algumas doenças nem sempre existem cirurgias para todos. Mesmo assim recorda que os cirurgiões são necessários para dar resposta em serviços como a urgência. A falta de anestesistas nos serviços públicos foi referida no início de Março pelo ministro da Saúde. Paulo Macedo disse que essa carência impedia o país de crescer em actos cirúrgicos.

De todas as formas, Barroso garante que a recente reforma feita no CHLC permite que os internos façam uma rotação pelos hospitais de S. José, Capuchos e Curry Cabral, o que antes não acontecia e que agora lhes permite ter contacto com uma diversidade maior de áreas. No primeiro hospital estão concentradas as áreas esófago-gástrica e da mama, no segundo a cirurgia colo-rectal e no último a hepatobiliar pancreática, transplantação, bariátrica (obesidade) e endócrina. “Convém também dizer que ser cirurgião não é só operar”, sublinhou Barroso, lembrando a importância do contacto com o doente, confirmação de diagnósticos e traçar de planos. E deu como exemplo o seu caso, em que no final dos seis anos tinha menos de 600 cirurgias e foi o 2.º melhor classificado.

Para o médico, perante as evoluções na área da cirurgia e nas patologias, é altura de a Ordem dos Médicos rever os critérios que exige e também a forma como se encara a formação, sublinhando que este problema foi debatido na última reunião convocada pela Sociedade Portuguesa de Cirurgia com os directores de serviço de todo o país. “É necessária uma visão regional e depois nacional”, defendeu, dando como exemplo o caso de uma interna que o CHLC encaminhou para o IPO de Lisboa por aquela unidade ter um número superior de cirurgias na área da sua especialização. O especialista considera que o caminho deve ser feito com sinergias e pondo a hipótese de permitir que hospitais com menor dimensão formem também internos nos primeiros anos, mesmo que não o possam fazer no total dos seis.

Pedro Coito, presidente do colégio da especialidade de cirurgia geral da Ordem dos Médicos reconhece a existência de um problema e concorda que é preciso rever as actuais regras deste internato, apesar de não se estar perante um problema de não cumprimento dos mínimos estabelecidos em portaria publicada em Diário da República. Mas nenhuma decisão deverá acontecer no curto-prazo visto que há eleições para os colégios no final de Março. “Há casos em que o número de internos é excessivo e temos de reavaliar a capacidade formativa do centro hospitalar e procurar soluções com a administração”, disse Pedro Coito.

Carlos Cortes, por seu lado, garantiu que a Ordem dos Médicos não vai abdicar da qualidade da formação. “O país precisa de médicos especialistas, mas não a todo o custo. A qualidade tem de ser assegurada”, insistiu. As normas indicam que só os hospitais com idoneidade formativa podem receber internos da especialidade. Os requisitos variam conforme as áreas, mas prendem-se sobretudo com o número de médicos mais velhos, cirurgias, investigação científica realizada e indicadores de qualidade. Em todos os casos, é sempre a unidade que avalia as suas capacidades formativas e que se propõe formar um determinado número de internos. A avaliação final é da Ordem dos Médicos e Ministério da Saúde.

O caso não é inédito. Recentemente surgiram notícias sobre problemas na formação de novos especialistas em várias áreas. O Centro Hospitalar de Lisboa Norte (que inclui os hospitais de Santa Maria e Pulido Valente) esteve mesmo em risco de perder a formação em cirurgia plástica por falta de idoneidade. Em causa estava a falta de médicos graduados. A situação acabou por ser ultrapassada com a transferência de especialistas do Hospital de Egas Moniz para aquela instituição.

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