Opinião

Sim, a troika morreu

Como lembrei aqui várias vezes, a base legal da troika era reconhecidamente frágil

A lista de reformas do governo grego foi entregue — a horas, ao contrário do noticiado. As instituições da UE (Comissão Europeia e Banco Central Europeu) declararam que o documento era um bom ponto de partida e o eurogrupo aprovou-o. Pormenor revelador, o FMI teve uma posição mais negativa, mas isso não influenciou o resultado. Os próximos meses dirão se estou certo, e se a crise do euro começou a acabar.

Tudo isto, contudo, está muito longe da forma como esta atualidade tem sido seguida, pontinho para aqui, pontinho para acolá, como num jogo de pingue-pongue. Vamos a um exemplo: a troika.

Na sua crónica de ontem, João Miguel Tavares critica-me porque, segundo ele, a troika foi apenas substituída pelas “instituições” e, portanto, continua na substância. Prova? Um eurodeputado do Syriza e veterano anti-nazi, Manolis Glezos, declarou que chamar “carne ao peixe” não significava o fim da troika. Camilo Lourenço, no Jornal de Negócios, usa o mesmo argumento de João Miguel Tavares, e proclama derrota para Varoufakis.

Vamos então recuar a 30 de janeiro, em Atenas, à famosa conferência de imprensa de Varoufakis e Dijssebloem. O ministro grego disse que o seu governo continuaria a cooperar com as instituições europeias e o FMI mas, acrescentou, “com aquele comité de funcionários tão fragilmente construído (para usar palavras do Parlamento Europeu) não temos intenção de continuar a cooperar”. O holandês levantou-se e, segundo foi relatado depois pela imprensa, sussurrou ao ouvido do grego “acabaste de matar a troika”, ao que este respondeu “uau”.

Resultado: semanas depois, temos gente proclamando que é um recuo para os gregos que tenha acontecido precisamente o que Varoufakis disse a 30 de janeiro — ou seja, que a Grécia cooperaria com as instituições, mas não com a troika.

Faz diferença? Sim. Para começar, as “instituições” são as europeias — BCE e Comissão Europeia. Nos últimos dias, o FMI é já mencionado à parte e está em saída gradual dos assuntos internos da zona euro, o que se comprova pelo facto (notado no primeiro parágrafo) de a sua opinião de ontem não ter sido decisiva para a aprovação do eurogrupo.

É importante? Sim. Para um governo faz toda a diferença lidar politicamente com o topo de instituições internacionais, caso a caso, como qualquer membro de pleno direito, ou ter três funcionários numa sala a dizer-lhe que não. Como já se viu pela carta de reformas que os gregos enviaram ontem, e que nunca teria passado pela troika.

Porque aconteceu assim? Como lembrei aqui várias vezes, a base legal da troika era reconhecidamente frágil, e a partir de que houvesse um governo disposto a usar esse argumento, ela estaria condenada.

Vamos ao que escrevi na minha última crónica: “[o] fim da troika e a negociação direta com cada instituição, como sabe quem tenha experiência desta, vai muito para além da nomenclatura.” A parte entre vírgulas estava lá para prevenir o que acabou por acontecer. É admissível que passar de troika a instituições pareça a alguns apenas uma mudança de nomenclatura. Mas é muito mais do que isso. E que tenha demorado tanto tempo até aparecer um governo disposto a acabar com a troika diz muito mais da subserviência dos nossos governantes do que de um suposto recuo dos gregos.