"Encontrei-me com Assad e ele continua fora da realidade"

Em finais de Janeiro, o director executivo da revista norte-americana Foreign Affairs viajou até Damasco para entrevistar o Presidente da Síria, Bashar al-Assad. O texto que aqui se publica é a descrição do encontro do jornalista com um homem "sem remorsos e inflexível".

Feridos num hospital impovisado em Douma, arredores de Damasco, depois de um raid da aviação síria no início do mês
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Feridos num hospital improvisado em Douma, arredores de Damasco, depois de um raid da aviação síria no início do mês Mohammed Badra/Reuters
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Bash al-Assad
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Bash al-Assad Reuters

Nas últimas semanas, os governos ocidentais começaram a mudar subtilmente as suas posições sobre a Síria. A Administração Obama parece ter deixado cair discretamente a sua exigência para que o Presidente Bashar al-Assad se demita como condição prévia às negociações de paz. Em vez disso, surgem informações de que acatou as propostas que permitiriam a Assad fazer parte de um acordo interino. Esta nova abordagem implica que a Casa Branca e os seus aliados acreditam que o Presidente sírio pode estar disponível para um compromisso capaz de pôr fim a quatro anos de guerra civil.

Encontrei-me com Assad a 20 de Janeiro em Damasco – a sua primeira entrevista a um jornalista americano desde 2013. E se há uma conclusão clara da nossa conversa (publicada na Foreign Affairs a 25 de Janeiro) é esta: Tais esperanças são uma fantasia. À superfície, Assad diz muitas coisas certas, mostrando-se conciliador e ansioso por envolver os governos ocidentais na sua luta contra o terrorismo islamista. Mas por trás das suas palavras bonitas, ele continua tão sem remorsos e inflexível como no início da guerra civil, há quatro anos. Assad parece não ter ideia de como a guerra degenerou, de como soam impraticáveis as suas ideias e de quão desprovidos de significado são os seus gestos de abertura. O que significa que, independentemente do que os líderes ocidentais possam desejar, os combates na Síria vão terminar numa de duas maneiras. Ou Assad derrota os rebeldes, ou os rebeldes o vencem – e penduram-no pelos pés.

Visitar a Síria actual é uma experiência estranha e perturbadora. Os sinais da guerra estão por todo o lado. Damasco está rodeada de montanhas cobertas de neve e círculos concêntricos de postos de controlo do Exército, guardados por soldados nervosos, inseguros sobre como reagir quando têm pela frente um americano solitário – viajei sem segurança e contratei apenas um motorista local. Alguns mostravam-se indiferentes, outros hostis e um chegou a agarrar a minha mão para dizer: “O Exército da República Árabe Síria adora a imprensa americana”. Altos muros de protecção em cimento rodeiam a maioria dos edifícios, veículos de combate com riscas vermelhas e brancas dominam os cruzamentos, cartazes de Assad em uniforme militar pendem dos postes de iluminação, funcionários das Nações Unidas enchem os hotéis, e ouvem-se os estrondos e o ressoar da artilharia e dos disparos de morteiro vindos da frente de combate, a alguns quilómetros de distância.

Mas apesar do cerco, os cafés e os mercados continuam vibrantes. As ruas enchem-se de famílias às compras, de estudantes a caminho da escola – e com as centenas de milhares de deslocados que mais do que duplicaram a população da capital desde o início da guerra.

Na Terra do Nunca
Mas a nota mais dissonante é o homem responsável por tudo isto. Assad é alto, magro e de aspecto delicado, com um queixo que desaparece, nada parecido com as imagens do autocrata sanguinário produzidas por Hollywood. Desde o momento em que me recebeu no seu gabinete privado – com um sorriso, um aperto de mão e com um sonoro riso forçado –, entrei numa espécie de Terra do Nunca da imaginação do ditador.   

O seu país pode estar a arder, mas todas essas coisas desagradáveis desaparecem à porta da sua residência em estilo revivalista grego, erguida numa colina sobre a cidade. A luxuosa e moderna sala onde conversámos tem um enorme iMac novo na secretária e uma réplica da Abadia de Westminster numa mesa de apoio (supostamente uma recordação dos anos em que estudou oftalmologia no Reino Unido, mas algo que soa incongruente depois de o primeiro-ministro britânico, David Cameron, ter dito que Assad é um Presidente “completamente ilegítimo”). Foi tudo impecavelmente colocado para criar a imagem de uma civilidade refinada, até o cappuccino que o Presidente vestido com roupas caras serviu. O homem em si é jovial, bem-educado e totalmente relaxado.

E ele foi desconcertantemente bom a apresentar-se como um interveniente razoável e racional. A sua crítica à política norte-americana para o Médio Oriente, por exemplo, é partilhada por muitos ocidentais de esquerda. O papel dos EUA, disse-me, deveria ser “fomentar a paz, combater o terrorismo, promover o secularismo e apoiar economicamente a região” e “não fazer guerras”. “Gerar guerras não transforma ninguém numa grande potência”, afirmou.

Mas por trás dos seus aforismos espirituosos e do seu quase invisível bigode está um homem tão inflexível e profundamente enganador – ou fora da realidade – que é impossível imaginá-lo a negociar uma solução justa para o fim da guerra civil na Síria.

Assad deixou isso claro de várias maneiras. Um orador astuto e bem preparado, ele inunda os interlocutores com uma torrente de palavras que combinam a retórica de senso-comum com mentiras totais, muitas vezes numa única frase. Por exemplo, assim que (sensatamente) admitiu, parafraseando Clausewitz, que nunca será capaz de triunfar militarmente – uma vez que “todas as guerras em qualquer parte do mundo terminaram com um solução política” – afirmou que “o povo sírio permanece favorável à unidade da Síria e continua a apoiar o Governo”. Tendo em conta que o conflito começou quando ele reprimiu selvaticamente manifestações durante a Primavera Árabe, desencadeando uma rebelião popular, a sua análise não é de todo plausível. Sobretudo quando o seu Exército se debate com deserções em massa, e as cidades de Homs e Tartus foram palco de manifestações que sugerem que a minoria alauita a que Assad pertence se está a virar contra ele.

Da mesma forma, quando o questionei sobre as análises independentes que dizem que o seu governo não controla mais do que 45 a 50% do território, Assad (de forma sensata) lembrou-me que a guerra na Síria “não é entre dois países, ou entre dois exércitos na qual há incursões em que uma das partes perde território que quer reconquistar”. Mas (pouco sensatamente) insiste que o seu exército continua a ser superior e “foi bem-sucedido onde quer que tenha tentado entrar”. Esqueçam o facto de que as suas forças nunca conseguiram desalojar os rebeldes de Alepo, onde a guerra dura há já três anos.

Racional e absurdo
A constante tendência de Assad para ligar o racional com o absurdo é um claro truque retórico; faz com que este soe mais credível por aproximação àquele. E a sua convicção total e inabalável ajudam ao efeito. Ou o Presidente da Síria é um contador de histórias extremamente competente – o que faz dele um mero sociopata – ou então acredita nas suas mentiras, o que o torna mais perigoso (à imagem de um psicopata que vive fora da realidade). Porque iria ele alguma vez assinar um acordo para acabar com uma guerra que pensa está a ganhar?

Assad mantém-se também despreocupadamente impenitente, apesar de presidir a um conflito brutal que devastou o seu país, matou mais de 200 mil pessoas, forçou sete milhões a deixarem as suas casas e dividiu a Síria em três mini-estados sectários. Insiste que não consegue lembrar-se de um único erro que tenha cometido: “Teria que perguntar aos oficiais no terreno”, disse. “Não tenho nada em mente.” O homem responsável pela tortura de milhares de pessoas, pelo uso de armas químicas e barris de explosivos contra civis diz que estes episódios nunca aconteceram na realidade: todas as provas foram criadas pelos seus inimigos, garantiu. “São tudo afirmações não provadas”, financiadas pelo Qatar, explicou. Então porquê arrepender-se?

Tais atitudes não auguram uma disponibilidade para aceitar compromissos.

O mesmo se passa com a sua conversa sobre as actuais negociações, lideradas pelas Nações Unidas e a Rússia. Quando lhe perguntei que concessões estaria disponível a fazer para ajudar ao sucesso do diálogo ele, ou foi evasivo, desvalorizando a importância de medidas destinadas a gerar confiança (“Não se trata de uma relação pessoal, não temos necessariamente que ter a confiança de alguém”), ou rejeitou-as abertamente. Quando lhe sugeri uma troca de prisioneiros, afastou de imediato a ideia.

E ao mesmo tempo que abandonava a antiga exigência de que os rebeldes deponham as armas como pré-requisito para as conversações – “Vamos encontrar-nos com toda a gente, não temos condições”, assegurou-me –, pôs repetidamente em causa a existência de uma oposição com quem seja possível falar. E quando lhe perguntei se aceitaria um qualquer tipo de acordo para a partilha de poder, ele disse que sim, mas insistiu que tal acordo teria de ser aprovado em referendo. Isto enquanto convenientemente esquecia o facto de que não seria possível a nação dividida (governada por um déspota que foi “eleito” para um novo mandato presidencial no Verão passado, com 89% dos votos) realizar uma consulta justa.

No início da nossa conversa, Assad deu a entender que tinha decidido conceder-me a entrevista agora (fiz-lhe o pedido pela primeira vez em 2013) porque os recentes ataques terroristas em Paris lhe deram uma nova oportunidade para afirmar aquilo que o seu governo diz há anos: que ele e o Ocidente enfrentam o mesmo inimigo, o extremismo islâmico, e que por isso são aliados naturais e deveriam unir esforços. Mas apesar de toda a sua conversa sobre sintonia e partilha de interesses, Assad deixou claro – assim que se ultrapassa a ofuscação, as evasões e os apelos ao bom senso – que não está disponível para ceder em absolutamente nada que possa aproximar as partes em conflito. Feitas as contas, o tirano só consegue imaginar uma saída para a guerra. Todos os seus inimigos, na região e no Ocidente, devem capitular e reconhecer os méritos dos seus argumentos enviesados. Até lá, ele continuará a matar.

Exclusivo PÚBLICO/The Wasington Post