Opinião

Tudo está ainda em aberto

1. Até agora foi o tempo das palavras eloquentes. Alexis Tsipras não resistiu a algumas delas. “Viragem histórica”. “Fim da humilhação”. “Vitória da democracia”. Para o novo primeiro-ministro grego o tempo da realidade vai começar muito cedo. Na segunda-feira resolveu o primeiro obstáculo, negociando com o Anel, o pequeno partido dos Gregos Independentes que lhe chega para uma maioria confortável. Optou pela solução mais fácil e mais rápida.

O Anel é um partido nacionalista de direita, o que já de si é problemático, mas também é contra a troika, o programa de ajustamento e a Europa em geral. Dir-se-á que a vitória foi tão impressionante que Tsipras não fica dependente das suas posições políticas. Esta é a interpretação benigna. A outra é que algumas convicções de uma parte da sua coligação de esquerda radical não são tão pragmáticas quanto as suas. Por alguma razão o seu partido mereceu tantos elogios de Marine Le Pen. O líder do Syriza vai ter de evitar esse risco e fazer jus às suas promessas de negociar com Bruxelas soluções que representem “vantagens mútuas”. Sabe-se pouco sobre os seus planos, a não ser que pode pedir uma moratória de alguns meses para acorrer à situação humanitária, estimular a economia e repor algumas regalias.

2. A questão seguinte é como vai responder a Europa. E aí todos os cenários são ainda possíveis, incluindo aquele em que nem os gregos nem a maioria dos governos europeus querem pensar em voz alta: um default que implicaria uma saída do euro (o que os Tratados não permitem, mesmo que permitam a saída da União Europeia). A questão pode colocar-se de outra maneira: que conclusões vão tirar os líderes europeus sobre as consequências políticas da austeridade que não quiseram prever? Que abertura pode haver para uma negociação mais flexível com Atenas e, sobretudo, sobre a reestruturação da sua dívida?

A primeira resposta oficial veio envolvida na habitual ambiguidade. O porta-voz da Comissão e o Presidente do Eurogrupo disseram que estavam dispostos a negociar desde que a Grécia “cumpra os seus compromissos”. A contradição é óbvia mas é propositada. Nas capitais europeias ainda se avaliam as repercussões da reviravolta grega. Em Paris, François Hollande tem mais um argumento a favor da necessidade de pôr a economia europeia a crescer. Mas o Presidente francês tem de manter a prudência necessária para não animar as hostes da ala esquerda do seu próprio partido. Em Madrid e em Roma, menos pressão de Bruxelas será sempre bem-vinda, tendo em conta os seus próprios “Syrizas”: o Podemos e, embora de outra natureza, o movimento populista de Beppe Grillo.

Em Espanha o resultado grego não é só uma interpelação ao governo, que enfrenta eleições este ano. Basta ler o artigo publicado pelo líder do PSOE, Pedro Sanchez, e pelo economista da moda Thomas Piketty, para se perceber que o resultado grego é também uma séria interpelação à social-democracia europeia. Sanchez pede mais crescimento e mais integração política para combater o pessimismo dos europeus, mas não consegue ir muito mais além. O SPD alemão está “amarrado” pela coligação. Matteo Renzi tem alguma margem de manobra mas muita dificuldade na execução das medidas que prometeu tomar. Qualquer alívio lhe faria bem. Mas a lição é clara: se não houver uma alternativa de centro-esquerda, quem ganha são os partidos radicais. O que aconteceu ao Pasok, que praticamente desapareceu, deve causar calafrios a alguns partidos irmãos, mesmo que as situações difiram muito entre si.

3. Falta uma resposta política global, mas essa vai ter de passar pela vontade de Berlim. E ninguém sabe ainda o que fará a chanceler, que começou por reagir mal à convocação de eleições e a deixar cair que a união monetária já estaria em condições para gerir uma eventual saída da Grécia do euro. O momento não é o melhor para a chanceler, a braços com a crise ucraniana e com o desafio do Pegida, o movimento que nasceu em Dresden para combater a imigração islâmica. Merkel tem enfrentado esse movimento com imensa coragem, que já levou a críticas da ala direita do seu próprio partido. O Tribunal de Justiça da União Europeia, a quem o Tribunal Constitucional alemão tinha pedido um parecer sobre a conformidade com os tratados das chamadas OMT (Outright Monetary Transactions) do BCE, acaba de decidir a favor de Mario Draghi. A gigantesca operação de compra de dívida europeia que o BCE vai lançar não teve o aval de Berlim. Somar a isto mais uma ajuda à Grécia sob a forma de tempo ou de perdão de dívida (que pertence agora aos credores oficiais) não será nada fácil para a chanceler. Finalmente, Merkel teme que as facilidades que possam ser concedidas à Grécia acabem por alastrar a outros países, como Portugal ou a Irlanda. Além disso, os alemães acreditam mesmo que os gregos não gostam de trabalhar e os gregos não se esquecem de como foram tratados. Em 2012, o diário Bild recomendava lhes que vendessem as ilhas e, se fosse preciso, a Acrópole.

Mas, como dizia o editor de política europeia da BBC World na própria noite das eleições, quem é que acreditaria há um ano que o BCE decidisse pôr as impressoras a trabalhar para injectar na economia europeu mais de um trilião de euros? Provavelmente ninguém.

José Inácio Torreblanca, investigador do European Council on Foreign Relations, chamava a atenção para outro aspecto que tende a ser esquecido. Os gregos são livres para decidir democraticamente o seu destino, mas os outros países europeus, incluindo os credores, também são democracias que têm de respeitar as preferências dos seus eleitores. O risco, diz o analista espanhol, é o choque de dois tipos de populismos: o que se manifesta na Grécia contra a austeridade e as imposições do exterior, e aquele que cresce no Norte contra o auxílio à Grécia e aos países “indisciplinados” do Sul. A Europa é feita de compromissos, implica uma partilha de soberania livremente aceite por cada governo, o que quer dizer que todos são responsáveis por todos. A crise desequilibrou este princípio a favor do Norte. Algum reequilíbrio político também seria bem-vindo.