Milhares marcham em Washington contra a injustiça racial

Manifestação na capital norte-americana decorreu de forma pacífica, depois de semanas de protestos violentos contra a morte de negros por agentes da polícia.

Manifestantes de todas as idades participaram na marcha contra a violência policial em Washington
Manifestantes de todas as idades participaram na marcha contra a violência policial em Washington AFP/Jim Watson
Muitos manifestantes viajaram de autocarro vindos de estados tão distantes como o Connecticut, a Florida ou o Michigan
Muitos manifestantes viajaram de autocarro vindos de estados tão distantes como o Connecticut, a Florida ou o Michigan REUTERS/Eduardo Munoz
Lesley McSpadden, mãe de Michael Brown, encabeçou o desfile
Lesley McSpadden, mãe de Michael Brown, encabeçou o desfile Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
A organização previa a presença de cinco mil pessoas, mas terão estado mais do dobro
A organização previa a presença de cinco mil pessoas, mas terão estado mais do dobro AFP/SAUL LOEB
O desfile desceu a Pennsylvania Avenue de Washington e tomou conta do relvado do National Mall REUTERS/Joshua Roberts
O desfile desceu a Pennsylvania Avenue de Washington e tomou conta do relvado do National Mall REUTERS/Joshua Roberts REUTERS/Joshua Roberts
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Os familiares de Michael Brown, o jovem de 18 anos que foi morto a tiro em Ferguson, e também de Eric Garner, um asmático que morreu depois de ter sido imobilizado pelo pescoço, encabeçaram uma marcha nacional de protesto contra a injustiça racial e a violência policial, este sábado, em Washington.

Milhares de manifestantes, concentrados à frente do edifício do Capitólio, na capital norte-americana, exigiram justiça para as vítimas dos excessos da polícia e repetiram as palavras de ordem que nas últimas semanas foram gritadas no Missouri, em Nova Iorque e em dezenas de outras cidades do país, em reacção à sucessão de mortes de indivíduos negros e desarmados, na sequência de confrontos com agentes das forças de segurança. “Mãos ao alto, não disparem”, repetiram, de braços no ar.

Os dois casos de Brown e Garner tornaram-se paradigmáticos do que a minoria negra nos Estados Unidos classifica como a intolerância e perseguição racial das forças policiais — e também da impunidade dos agentes que abusam da força e da autoridade. O facto de nenhum dos polícias responsáveis pelas mortes ter sido acusado de qualquer crime e levado a julgamento mobilizou milhares de pessoas que saíram à rua em protestos (alguns dos quais violentos), por todo o país.

“As vidas dos negros também contam”, defenderam os manifestantes, muitos dos quais envergavam camisolas onde se lia “Não consigo respirar”, as últimas palavras proferidas por Eric Garner depois de ser agarrado pela polícia. O homem, de 43 anos, estava referenciado como suspeito de evasão fiscal por vender cigarros avulsos, mas quando foi abordado e engravatado, não tinha cigarros consigo.

Também a mãe de Tamir Rice, um menino de 12 anos que foi atingido a tiro por estar a brincar com uma arma de plástico no balouço de um parque infantil do Ohio, participou na marcha de Washington, convocada por uma série de organizações de defesa dos direitos cívicos, nomeadamente a National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), o mais antigo grupo dedicado à protecção dos direitos dos negros nos EUA.

No palco, o histórico activista Al Sharpton, que tem liderado os protestos, exigiu que o Congresso tome medidas para garantir que todos, independentemente da raça, sejam tratados de forma igual. “Precisamos de mais do que conversa. Precisamos de acção legislativa: temos de mudar as coisas nas ruas mas também nos livros”, defendeu. O apelo foi repetido por uma das organizadoras da marcha, Umaara Elliot: “Exigimos que sejam tomadas medidas, em cada nível do Governo, para pôr fim aos ataques racistas da polícia. Temos de acabar com esta caça aos negros “, declarou.

A iniciativa atraiu muitos milhares de pessoas (a organização previa a presença de 5000, mas a Associated Press estimava que estivessem mais do dobro), com autocarros a partir de estados como o Connecticut, a Florida ou o Michigan, para uma viagem de muitas horas até à capital. Vindo de Detroit, o reverendo Charles Williams, da Rede de Acção Nacional, agradeceu à multidão que tomou conta do relvado do National Mall a sua mobilização, e destacou a importância da sua luta.

“A nossa mensagem é a favor da vida. A vida dos negros conta, como a vida dos castanhos, dos amarelos, dos brancos. O Governo federal tem de fazer alguma coisa para garantir que toda a vida conta. E enquanto não fizer, nós vamos marchar, vamos protestar, vamos sentar-nos e deitar-nos no chão, vamos manter-nos na rua até alcançarmos justiça”, prometeu.

Em declarações à estação BET (as iniciais de Black Entertainment Television), esta semana, o Presidente Barack Obama reconheceu que as tensões raciais “não vão ser resolvidas da noite para o dia”. “Estamos a falar de algo profundamente enraizado na nossa História e na nossa sociedade”, lembrou, aconselhando paciência e persistência aos jovens afro-americanos envolvidos na luta contra a intolerância e pela igualdade.