Opinião

A nova Brigada do Reumático

A lista de sexagenários e septuagenários que são ou já foram da área do PSD e que dizem de Pedro Passos Coelho o que Maomé não disse do toucinho é impressionante.

Miguel Veiga deu ontem uma entrevista a este jornal a defender a subida ao poder de Rui Rio, para que faça “uma limpeza desejável no PSD”. Luís Mira Amaral deu uma entrevista no sábado ao DN a desancar de cima abaixo Moreira da Silva, a quem chamou “ministro do CO2” e a quem acusou de ter “um discurso de talibãs verdes” por se atrever a taxar as gasolineiras. José Miguel Júdice tem-se desdobrado em entrevistas para demonstrar o seu apoio a António Costa – segundo ele, “o político mais dotado da sua geração” e “a pessoa mais indicada para liderar o país nesta conjuntura”.

A lista de sexagenários e septuagenários que são ou já foram da área do PSD e que dizem de Pedro Passos Coelho o que Maomé não disse do toucinho é impressionante. Uns sonham com Rui Rio (Miguel Veiga), outros com António Costa (José Miguel Júdice), outros nem com um, nem com outro (Mira Amaral), mas todos eles têm em comum uma profunda aversão a Passos Coelho e ao seu governo. Só que a aversão deles não é igual à aversão do desempregado, do operário, do funcionário público, do reformado, nem sequer à aversão de Pacheco Pereira – a sua aversão deriva da maior dificuldade que certos privilegiados hoje têm em aceder e em influenciar o poder político. Aquilo que os incomoda não é o destino dos pobres. Aquilo que os incomoda é a crise, pela primeira vez, ter chegado aos ricos.

O embate de Moreira da Silva com o poderosíssimo sector das petrolíferas, o famoso “não” de Maria Luís Albuquerque a Ricardo Salgado ou a actual recusa do governo em actuar na PT são das poucas decisões realmente decentes que o governo de Pedro Passos Coelho tomou – critiquem-no por tudo e um par de botas, mas não por isso. Infelizmente, os privilegiados do regime fazem outras contas. Luís Mira Amaral está à frente do BIC de Isabel dos Santos e a gerir as ruínas do BPN, compradas ao preço da chuva. Miguel Veiga é um “fundador” do PSD que há dois meses teceu inacreditáveis loas a Ricardo Salgado (“um homem com mão de ferro em luva de veludo”) numa vergonhosa “reportagem” da RTP, criticando de caminho Carlos Costa por ter acusado Salgado de forma “tendenciosa, prematura e injustificada”.

E José Miguel Júdice, claro está, é José Miguel Júdice, só comparável à forma como Daniel Proença de Carvalho é Daniel Proença de Carvalho. Quando questionado pelo jornal i acerca da natureza dos problemas do Grupo Espírito Santo, Júdice respondeu assim: “A maior parte dos problemas do Grupo Espírito Santo resulta de a família não ter sido devidamente paga depois de expropriada.” É isso mesmo. A culpa de milhares de milhões a voar é sobretudo da injustiça das indemnizações há um quarto de século. Ah, já agora: segundo José Miguel Júdice, “Zeinal Bava, Henrique Granadeiro ou Ricardo Salgado são excelentes profissionais em qualquer parte do mundo.” Em qualquer parte do mundo, excepto em Portugal.

Receio bem que esta nova Brigada do Reumático, tal como a antiga, tenha uma enorme tendência para confundir os interesses de Portugal com os seus próprios interesses e a manutenção dos seus privilégios. É por isso que convém separar os campos da crítica ao governo com a precisão de um bisturi: a classe média tem mil e uma razões para se queixar de Passos Coelho, mas as suas razões não são as razões das classes altas representadas por Júdice, Veiga ou Mira Amaral. Os primeiros sonham com melhores políticos. Os segundos só sonham com políticos do antigamente. E eu, para esse peditório, já dei.