Reportagem

Mais de dois milhões de catalães foram às urnas para ganhar o direito a um referendo

Houve muitas filas e muita festa, muita gente a votar em família, muitos sorrisos. Houve denúncias, mas nenhum juiz mandou retirar urnas. Nos próximos dias se saberá que consequências tiram desta votação os líderes de Madrid

Foto
A grande diferença é que não há cabines de voto, e algumas pessoas trouxeram os boletins de casa ALBERT GEA/REUTERS

Eram quase 23h quando Artur Mas apareceu no centro de imprensa montado pela generalitat num pavilhão da Feira de Barcelona, perto da Praça de Espanha. Agradeceu aos voluntários que tornaram a consulta de domingo possível e aos eleitores: “Claramente, mais de dois milhões de pessoas votaram. Este dia podia sair bem, mais ou menos, ou mal. Mais de dois milhões de pessoas com tudo o que aconteceu é um êxito total”.

Até às 18h, tinham votado 1.977.531 pessoas, num universo de 5,4 a seis milhões de possíveis eleitores, mas as urnas estiveram abertas até às 20h. Os números da participação final, assim como os resultados, eram esperados mais tarde.

“Agradeço-vos por acreditarem na Catalunha e por terem dado um passo de gigante para que possamos um dia, em breve, decidir o nosso futuro político”, afirmou Artur Mas aos catalães. E, depois, dirigindo-se ao Estado espanhol: “As pessoas da Catalunha deixaram claro uma vez mais que se querem autogovernar. Queremos decidir o nosso futuro político e demonstrámo-lo. Todas as nações têm esse direito. Nós ganhámos o direito a um referendo legal e vinculativo.”

O presidente do governo da Catalunha votara 12 horas antes, na Escola Pia Balmes. Questionado sobre uma denúncia apresentada pelo partido UPyD contra si próprio, garantiu não estar preocupado. “Se a procuradoria quer conhecer os responsáveis pela abertura das escolas públicas só tem de olhar para mim”, afirmou, depois de votar entre aplausos e gritos de “independência, já”, “independência, já”.

Houve várias denúncias, apresentadas em tribunal por cidadãos particulares, pela UPyD, por membros do Partido Popular Catalão ou do partido Cidadãos, pela Plataforma pela Catalunha ou pela Societat Civil Catalana, que defende a unidade de Espanha. Nalguns casos, os juízes pediram à polícia que identificasse os responsáveis das escolas ou os voluntários, mas em nenhum ordenou que se retirassem as urnas.

Barcelona de amarelo                                                              
Barcelona não se pintou de amarelo, como as aldeias que levaram à letra a campanha “pinta de amarelo a tua povoação”, mas dificilmente poderia ter acordado mais amarela. Muita gente saiu à rua de cachecol e lenço ao pescoço, casacos de malha ou gravatas da mesma cor. Isto para os que não vestiram T-shirts da Ara És L’Hora [a hora é agora] que reúne a Assembleia Nacional Catalã (ANC) e a Omnium Cultural, associação de defesa da língua catalã, os dois grupos que assumiram a organização deste referendo simbólico quando o Tribunal Constitucional suspendeu a consulta marcada pela Generalitat.

Muitos vestiram os prédios onde vivem da mesma cor. Bandeiras da Catalunha ou chapéus-de-chuva com as mesmas riscas amarelo e vermelho, bandeiras da independência – as esteladas com o triângulo azul e a cruz branca –, faixas amarelas da Ara És L’Hora, onde no canto superior esquerdo aparece a palavra “Quero” e no inferior direito “Sim ou Sim” e cada um escreve o que entende (“+ justiça e – privilégios”; “um país meu”; “mais liberdade e educação”…) enfeitam janelas e varandas de prédios da Gràcia à Sagrada Família, do Raval ao Born.

Há poucos quarteirões da cidade sem bandeiras e avenidas, como a Marina, onde é difícil contar o número de faixas. No Eixample, há edifícios de habitação modernistas onde os habitantes do último andar foram ao ponto de comprar um mastro e de içar a estelada. É junto a um destes que quatro amigos conversam de pé. Ainda não são 10h e já todos votaram. Vitor, 63 anos, professor reformado, Gabriel, professor de 59 anos, Toni, “septuagenário” e Jordi, 62.

“Sim e sim”
“Eu votei às 9h, na rua Mallorca”, diz Gabriel, que vestiu por cima da camisola de lã uma T-shirt da Ara És L’Hora. “Afinal votaste primeiro que eu”, brinca Jordi. “Votei, claro, sim e sim”, afirma Toni, que diz ter esperado por este dia 300 anos. “300? Eu esperei 500”, riposta Vitor, impressionado com a organização. “Havia muito voluntários a facilitar tudo.” Gabriel, que também votou “sim e sim”, explica que o fez “para que a Europa veja que não se pode ignorar a vontade das pessoas”. E sabendo que a votação não tem legalidade e que os seus opositores vão dizer que não se cumpriram as regras, conta que à sua frente “estava um senhor com o B.I. caducado e não pôde votar”.

A tradição diz que de manhã votam as pessoas mais velhas, mas Maria, Ona, Paul e Marti aqui estão para provar que as regras têm excepção. Os rapazes ainda estão no liceu, Paul tem 17 anos; Marti, 16; as raparigas, ambas com 19, estudam Medicina (Maria) e Direito (Ona). Todos já votaram, Marti pela primeira vez.

“É mais uma mobilização social para que nos deixem votar, mas é emocionante”, diz Ona. “Pode não ser oficial, mas tem de ter o seu peso”, acrescenta Maria. “Para o Governo, faça o que faça, aconteça o que aconteça, isto já correu mal”, opina Marti. “Isto é um processo, não vamos ter 100% do que queremos, mas pelo menos o direito a um referendo acredito que sim”, diz Paul.

Os voluntários de algumas escolas encontraram as portas fechadas com silicone ou as paredes pintadas com frases anti-independência: “Um patriota, um idiota” ou “A unidade não se vota”. Não foi o caso da Escola Pi de Balmes, uns quarteirões acima da avenida Diagonal, onde votou Artur Mas, nem da Roger de Flor, mais perto da Gran Via, onde Teresa, 60 anos, voluntária da ANC desde o primeiro momento, está atrás de uma das mesas de voto.

Lágrimas e sorrisos
“Estamos a viver um momento histórico”, diz Teresa, e as lágrimas já lhe descem pela cara. “Cada dia que passa é como uma montanha russa, já demos a volta, não temos como parar”, afirma Joan Carles, 58 anos, um amigo que vota noutra escola mas veio ver como correm as coisas por aqui. “Agora é sempre em frente”, diz Teresa. Joan sublinha a alegria estampada no rosto das pessoas: “Esta vai ser a revolução dos sorrisos.”

Enric, 21 anos, quase 22, é funcionário da Pia Balmes, meio infantário meio escola primária, conhecida pela oferta de aulas de música. Como muitos colegas, decidiu voluntariar-se para colaborar na consulta e coube-lhe ser “coordenador de centro”. Às 7h30 já lá estava para abrir a porta. “Correu tudo muito bem, as urnas já cá estavam, às 8h chegaram os restantes voluntários”, conta, num curto momento de descanso.

Há seis mesas neste centro e, como em todos os 1315 que abriram as portas na Catalunha, há voluntários das escolas e voluntários da campanha Ara És L’Hora. Os voluntários são tantos que nesta escola no bairro do Eixample, na esquina da rua Balmes com a Travessa da Gràcia, a enfermeira Isabell Rosell, de 57 anos, é “suplente de suplente”. “Membro de mesa”, acabou por decidir ficar. “Ficámos todos”, diz Isabell.

Comparando com uma eleição normal, as diferenças são quase inexistentes. Dentro das escolas, as pessoas estão divididas pelas mesas consoante o apelido. Cada mesa tem um número e uma letra e há pelo menos quatro pessoas atrás de todas: a primeira recebe da mão do eleitor o seu B.I. e lê o nome para que a segunda o insira num computador portátil e confira se é ali que aquela pessoa deve votar; em seguida, o eleitor passa por um terceiro voluntário, que inscreve o seu nome e dados de identificação numa lista, antes de chegar à quarta, a que está atrás da urna (feita numa estrutura de cartão e plástico transparente) e que a destapa para que o eleitor possa depositar o seu voto, o boletim dentro de um envelope.

Boletins trazidos de casa
A grande diferença é que não há cabines de voto e, apesar de haver mesas com boletins e envelopes disponíveis à entrada de cada escola, muita gente já vem de casa com o boletim preenchido. “Isso é que me surpreendeu, tanta gente já de boletim na mão, pronta a votar. E há tantas crianças, vê-se que não há medo”, diz Isabell. Na sua mesa, a 2507 Y, “votaram 53 pessoas nos primeiros 55 minutos”.

O boletim tem duas perguntas e os que se vêem nas mãos das pessoas têm quase todos uma cruz nos dois quadrados do “sim”: “Quer que a Catalunha seja um Estado?” e, nesse caso, “Quer que a Catalunha seja um Estado independente?”

As mesas estão distribuídas por três andares e como o dia acordou cinzento mas sem chuva, muitos aproveitam os dois parques infantis, um mais pequeno, num canto do primeiro andar, outro grande no segundo piso, para deixar os filhos e netos brincar.

Monserrat e Joan Maria Riera têm ambos 72 anos e estão casados há 49. “Temos cinco filhos e dez netos”, diz Joan. “Se [o primeiro-ministro Mariano] Rajoy não se tivesse portado como portou isto nunca teria chegado aqui”, afirma Monserrat, lembrando as leis que o Madrid quis aprovar para que o catalão deixasse de ser língua veicular nas escolas. “A maneira como o Governo central trata a Catalunha só nos faz ser mais catalães”, acrescenta Joan.

Gloria tem 98 anos e quase não consegue falar, mas veio, numa cadeira de rodas. “Os meus pais eram catalãos”, diz, a custo. Lloretó, 40 anos, chega com o filho, Jaume, que ainda não pode votar e empurra a cadeira de rodas do avô, Josep, de 97 anos. “Para ele é muito importante. Eu só espero que isto signifique alguma mudança.”

O muro de Berlim
O Governo de Rajoy desvalorizou este “processo de participação cidadã” e não houve aparições públicas para o comentar. Mas num encontro sobre os 25 anos da queda do muro de Berlim, na sede do PP em Madrid, um político não resistiu: “Senhor presidente, hoje os espanhóis são berlinenses”, disse o líder dos populares no Parlamento Europeu, dirigindo-se a Artur Mas.

A plataforma Ara És L’Hora escolheu o novo Centro Cultural do Born, no antigo mercado com o mesmo novo, como quartel-geral do dia. Entre as 20h e as 22h, centenas de pessoas esperaram ali por saber o resultado final da votação, muitas com uma estelada transformada em capa de super-herói. O lugar é simbólico: durante as obras do mercado descobriram-se ruínas do século XVII e agora o espaço é ocupado por uma exposição sobre a Guerra da Sucessão – é no dia da derrota e da integração definitiva em Espanha, a 11 de Setembro de 1714, que os catalães celebram a Diada, o seu dia nacional.

Elvis, nascido no Equador mas a viver em Barcelona há dez anos, tem a sua estelada às costas. “Fiz-me independentista, as pessoas contavam-me como tinham sofrido aqui durante a guerra com o Franco”, explica, enquanto no palco Titot, músico e político catalão, canta sobre a Catalunha com a sua banda Brams.

Celia, 19 anos, e Robert 18, colegas do curso de Biologia, vieram para ouvir Muriel Casals e Carme Forcadell, “as presidentes”, Muriel da Omnium, Carme da ANC, rostos deste processo. “Votei com os meus pais. Depois, íamos buscar a minha avó, que acaba de ser operada, mas quando chegámos ela já estava na fila”, conta Robert. “Não pôde esperar, tem 84 anos”, diz. Celia, de bandeira enrolada no pulso, admite que duvida da independência. “Mas o direito a um referendo acredito que já ganhámos.”