António Pelarigo: fadistices com alma

Sempre cantou o fado, mas evitava-o como profissão porque tinha a sua vida. Agora, aos 61 anos, gravou enfim “o” disco. E fê-lo como se já tivesse gravado cem.

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O nome não será estranho a muita gente, mas até agora havia muito poucas gravações suas. António Pelarigo, 61 anos, deambula pelo fado com devoção há décadas mas tem deixado cair muitas hipóteses (e algumas bem sérias foram) de gravar discos ou de se tornar fadista profissional. Tinha a sua vida, a sua família, o seu trabalho, o resto era apenas amor ao canto. Fadistices, como ele diz, com uma ponta de ironia e sem menosprezo. Até que um vizinho ribatejano o convenceu agora a gravar. Músico, também com uma editora, insistiu e ele cedeu. O vizinho é José Cid e o disco chama-se António Pelarigo. Tal como ele.

“Eu sou de uma aldeia piscatória, descendente de avieiros, pescadores. E os pescadores todos cantam, mesmo quando estão zangados cantam, lá na labuta deles.” António Pelarigo fala do passado com à-vontade. Nascido no Ribatejo, a 30 de Maio de 1953 (embora no seu BI conste 30 de Agosto, ficou essa data para não pagarem multa pelo atraso no registo), a sua mãe cantava em casa, canções da época. O pai nem por isso. O resto ouvia na rádio: “Tenho mais cinco irmãos e todos cantávamos um bocadinho. Nunca mais me esqueço de um programa que havia na Rádio Ribatejo com discos pedidos, à hora do almoço, onde se ouviam os fadistas e os cançonetistas que estavam na moda e também os já consagrados, como o Alfredo Marceneiro, a Amália, a Hermínia.” Nessa época tinha ele uns 14 anos. “Depois fui percebendo mais, ouvindo mais, e a primeira vez que cantei em público, acompanhado à guitarra e à viola, tinha 19, 20 anos. Foi na Golegã, numa festa de anos de um padre ou uma coisa assim.” A partir daí entrou em dois concursos na Feira do Ribatejo. “No primeiro fui eliminado mas no segundo fui à final e fiquei em terceiro lugar.”

Por essa altura ele era caixeiro-viajante, estava muito tempo no Porto, e certo dia, teria ele uns 22 anos, os patrões convidaram-no para ir a uma casa de fados. “Era a Madrugada, a casa mais antiga do Porto, pelo menos era essa a informação que eu tinha na altura. A primeira vez que eu lá cantei, o dono da casa convidou-me logo para fazer parte do elenco. Até disse que se eu lá ficasse tratava de gravar um disco comigo rapidamente. Mas eu ia em trabalho, era de Santarém, já era casado e não dava para estar ali. Isto foi em 1976-77.”

Oportunidades perdidas

E voltou a Santarém. Deambulando por aquilo a que ele chama “fadistices”, encontros onde o fado é pretexto para reuniões de amigos. “Até que conheci o João Ferreira-Rosa numa dessas fadistices na Feira do Ribatejo, uns meses antes de ele reabrir o Embuçado. Ouviu-me, convidou-me logo para ir para lá — e eu também não fui. Porque tinha trabalho e tinha a minha vida.” Mas ia até Lisboa, sem compromissos de assiduidade nem contratos. E conheceu no Embuçado muita gente ligada ao fado e fez amigos, fadistas e músicos.

Foi isso que o levou, há uns anos, a gravar dois fados num projecto colectivo. Chamava-se João Ferreira-Rosa Convida à Fadistice e saiu só em cassete. “Foi uma produção do Jorge Fernando, com o Alcino Frazão e o Pedro Veiga, que infelizmente já cá não estão.” Nessa altura, António Pelarigo ainda não tinha 30 anos. “Logo aí a Discossete [a editora desse trabalho] interessou-se por mim para gravar. E eu não gravei. Depois apareceu a Valentim de Carvalho, onde eu assinei contrato. O Jorge Fernando era lá produtor, mas depois saiu e as coisas perderam-se um pouco. Eu não tinha ninguém que me tratasse do repertório e fui deixando passar. Até que, ao fim de quatro anos, recebi uma carta da Valentim a perguntar como é que era possível um indivíduo ter um contrato e nunca mais aparecer. E pediram-me para ir lá com o meu repertório. Como não tinha repertório, gravei com a ajuda de um amigo meu uns fadinhos e lá fui com a cassete. Escreveram-me a depois a dizer que o repertório não se coadunava com a minha voz. E ficámos por ali.”

Não foi o único episódio deste género na sua vida. Um dia o fadista Carlos Zel contactou-o a dizer que “os indivíduos da CBS” estavam interessados em gravar com ele. “Estava todo contente: ‘já viste, saiu-te o totoloto!’ E eu lá vim, de Santarém. Mas nesse dia o senhor que representava a CBS cá em Portugal não apareceu. Fiquei desiludido e voltei para Santarém. No dia seguinte telefonou-me o Carlos Zel a dizer que o senhor já estava lá. E eu respondi: pois agora já não vou. Depois arrependi-me, claro.” Depois destas histórias gravou um disco em 1995, para a Discossete, Negro Xaile, e começou até a gravar para outra editora, com a qual assinou contrato mas sem consequências de futuro.

Fado de “alma honesta”

Até que José Cid, seu vizinho e seu conhecido há trinta anos, que já o tinha tentado convencer a gravar para a Polygram na altura em que ele assinou com a Valentim, insistiu numa gravação actual. “Temos que fazer o disco”. Muitas fadistices depois, lá o fizeram. E o resultado são 12 temas onde a voz de António Pelarigo soa como se sempre a tivéssemos ouvido e fizesse já parte da nossa memória colectiva. Em temas assinados por Rosa Lobato Faria, João Ferreira-Rosa, José Cid, Maria Luísa Baptista, Paulo de Carvalho ou por ele próprio (Senhora da paz), a voz que caldeou nas “fadistices” revela uma alma de fado antigo e intemporal, moldando cada palavra a que dá vida. Hoje o seu disco chega às lojas e dia 23 vai apresentá-lo em Santarém, no Convento de São Francisco, pelas 21h30, com João Ferreira-Rosa e José Cid como convidados. Ele diz: “O fado põe a nossa alma honesta. Porque é a nossa vida, a nossa passagem, a nossa alma.” Ouçam-no e avaliem..