Análise

Eu, tu… tu, eu

Os debates televisivos são momentos altos da discussão política hoje em dia e são uma forma privilegiada de fazer chegar ideias aos cidadãos, mas nas primárias do PS, o conjunto dos três debates televisivos que se realizaram, o balanço analítico que se pode fazer é o de concluir que os cidadãos em geral, a política portuguesa e o PS saíram a perder de um espectáculo de agressividade e acusações que ontem atingiu um clímax na RTP com uma cacofonia de dislates, que por vezes raiaram o insulto.

No primeiro debate, a 9 de Setembro na TVI, a oportunidade de apresentar e dialogar propostas para o futuro foi gorada pelo deslizar da discussão para o domínio pessoal, com António José Seguro a insistir na acusação de que António Costa tinha sido desleal e o tinha traído ao lançar o desafio de liderança. Ontem, o nível de acusação pessoal a Costa atingiu níveis desproporcionados.

De tal forma que Seguro fez mesmo algo que é inédito num líder político: para acusar Costa de estar cercado de apoiantes que podem alegadamente ter tido comportamentos promíscuos em relação a actos de corrupção, citou como exemplo um fundador do PS que é apoiante do autarca, o advogado Nuno Godinho de Matos.

Se Costa no primeiro debate ficou surpreendido com a estratégia do seu adversário, ontem vinha preparado para responder na mesma moeda. E os trinta minutos televisivos passaram com uma sucessão de acusações, de frases ditas por cima do adversário, numa ensurdecedora cascata de eu, tu … tu, eu, em crescendo, que apenas criaram ruído e se aproximaram do que vulgarmente se nomeia de “peixeirada”.

Para além do que foi uma sucessão de acusações e de afirmações de carácter, num tipo de atitude política absolutamente desajustado a um momento como é a realização de eleições primárias, pouco restou para que o país ficasse esclarecido sobre o que ambos os candidatos se propõem fazer.

Ontem, para além de uma abordagem à proposta de Seguro de alteração do sistema eleitoral, cuja discussão e troca de argumentos foi feita já em clima de absoluta crispação, apenas nos primeiros minutos do debate foi possível ouvir trocar argumentos, com os dois candidatos a apresentarem as suas prioridades para o país.

A saber, ambos a defender o desenvolvimento económico e o combate ao desemprego, a reposição dos cortes a pensionistas, a reformados e a funcionários públicos, ainda que nestes âmbito de reposição salarial com um António Costa mais defensivo em relação a assumir um compromisso.

No sentido de se poder perceber o que cada candidato propõe salva-se, nestes debates televisivos das primárias, o segundo debate realizado a 10 de Setembro na SIC. Com Costa a salientar a importância que dá à forma como os fundos estruturais devem ser aplicados no apoio ao desenvolvimento da economia, bem como a sublinhar a necessidade de voltar a apostar nas energias renováveis como forma de facilitar o crescimento.

Costa pode mesmo repetir a sua posição de não aceitar discutir soluções para a dívida pública antes de apresentar o seu programa eleitoral. E insistir na ideia de que quer ter uma maioria absoluta e só então decidirá sobre coligações, que acredita poderem ser protagonizadas por qualquer partido com assento parlamentar.

Também Seguro esteve melhor no segundo debate, travando mesmo então a sua agressividade e quase não dirigindo acusações a Costa. Conseguiu apresentar as suas ideias sobre a aposta na reindustrialização do país, repetir as suas posições sobre a restruturação e mutualização da dívida pública, apresentar as suas posições sobre o futuro da União Europeia.

Seguro conseguiu até ser mais explícito no que foi a definição de uma política de alianças pós eleitorais, excluindo não só os partidos que apoiam o Governo e querem desmantelar “o Estado Social” ou privatizar a TAP e a Caixa Geral de Depósitos, mas também excluindo partidos que querem sair do euro, referindo-se implicitamente ao PCP.

A qualidade atingida no segundo debate pelos dois candidatos, ao nível do que foi a capacidade de apresentação e de explicação de ideias, apenas serviu para tornar explicito como ambos desperdiçaram as outras duas oportunidades que lhes foi dadas pelas televisões de, no espaço mediático, se poderem apresentar ao país como verdadeiros candidatos a primeiro-ministro.

Essa tarefa de apresentarem a sua missão perante o país saiu gorada e quer Seguro, quer Costa, desperdiçaram a oportunidade que lhes foi proporcionada nestas primárias. Limitaram-se a comportar-se como dois políticos inexperientes e irresponsáveis.

E se Seguro se portou mal pela forma como deliberadamente lançou provocações a Costa, a verdade é que Costa se mostrou de uma ingenuidade e imaturidade políticas surpreendentes em si, já que se deixou conduzir para o terreno de discussão para o qual Seguro o quis levar, tornando-se assim co-responsável pela oportunidade perdida.

Em que os cidadãos, os telespectadores, os eleitores saíram defraudados da promessa de que as primárias inovariam na aproximação com os políticos e os partidos. No fim desta experiência, a medir pelos debates televisivos, as primárias afastam-nos ainda mais.