Opinião

Não, não é tudo igual

A solução encontrada pelas instituições portuguesas e europeias para o BES, por muitas falhas que tenha e muitos problemas que possa vir a levantar, é, na sua essência, uma revolução em relação a tudo o que se passou até hoje sempre que esteve em causa a falência de um banco sistémico.

Na semana passada, eu cometi um atrevimento: enquanto o BES desmoronava, elogiei o Banco de Portugal e o Governo. E logo em dose dupla. Ou seja, não só aplaudi a solução encontrada para o BES, como defendi a actuação de Carlos Costa, cujas decisões me pareceram racionais, e até corajosas, em função das informações que detinha.

Desde então, tenho levado pancada em jornais, blogues e redes sociais, com a originalidade de a verga me chegar ao lombo oriunda dos mais diversos quadrantes ideológicos. Agostinho Lopes, do comité central do PCP, lamentou a minha falta de dúvidas neste processo; Francisco Louçã declarou que eu, “em defesa do governo”, alinhei com “a tese da protecção dos contribuintes”; Luís Aguiar-Conraria e André Azevedo Alves consideraram que a minha exigência mudou muito desde os tempos de Vítor Constâncio; dispenso-me de descrever os comentários coloridos de numerosos leitores. 

Ora, aquilo que me incomoda nesta atitude não é a justeza de muitas críticas que são feitas ao processo, porque é evidente que abundantes erros foram cometidos. Sim, há gente que conseguiu fugir do BES em cima do gongo porque terá tido acesso a informação privilegiada; sim, é inacreditável que tenha sido Marques Mendes a descrever a solução em detalhe com 24 horas de antecedência; sim, em última análise, pode dizer-se que a regulação falhou de novo, porque o banco, afinal, foi ao fundo. Tudo isto é defensável. O meu problema é que dizer apenas isto, ou pouco mais do que isto, colocando no mesmo patamar a condução dos processos BPN e BES, as actuações de Vítor Constâncio e de Carlos Costa, ou a atitude dos governos de José Sócrates e de Pedro Passos Coelho, é, aos meus olhos, inadmissível.

E é isto que eu não engulo, por muita acusação pró-governamental que tenha de aturar. O que demasiada gente, da esquerda à direita, acaba a promover com a atitude de bater em tudo pela mesma medida é uma espécie de comunismo da traulitada, de ditadura do ressabiado, de sociedade sem critério. Tudo vai a eito, todos apanham por igual, e com isso podemos até fingir que somos muito independentes na nossa indignação – só que não estamos a ser independentes coisíssima nenhuma: estamos apenas a ser cegos a mudanças importantes e a atitudes decentes que estão a acontecer à frente do nosso nariz.

O facto de serem justas numerosas críticas ao processo não pode significar a recusa em admitir que ele foi radicalmente diferente do anterior. E, sobretudo, não pode significar a recusa em reconhecer que a solução encontrada pelas instituições portuguesas e europeias para o BES, por muitas falhas que tenha e muitos problemas que possa vir a levantar, é, na sua essência, uma revolução – e deixem-me sublinhar bem a palavra “revolução” – em relação a tudo o que se passou até hoje sempre que esteve em causa a falência de um banco sistémico.

Joseph Stiglitz chamou à lógica “too big to fail” um “socialismo à americana”: os ganhos privatizam-se, as perdas socializam-se. Se há décadas é assim, não vejo como podemos não dar valor à primeira vez que não o é. Ignorar isto é cegueira, e uma manifestação de um certo “criticismo à portuguesa”, que passa pela privatização da nossa competência e pela socialização da incompetência de qualquer governo. Estar sempre tudo espectacularmente mal é excelente para compor letras de fado – mas péssimo enquanto reflexão sobre um país.