Família Espírito Santo equaciona entrada do Estado venezuelano para salvar GES

Ricardo Salgado pode desistir da intenção de ser presidente do conselho estratégico do BES e garantir uma solução para a gestão.

Os grandes accionistas brasileiros da Oi dizem que Ricardo Salgado prestou “afirmações falsas em relação aos investimentos” da PT na Rioforte
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Os grandes accionistas brasileiros da Oi dizem que Ricardo Salgado prestou “afirmações falsas em relação aos investimentos” da PT na Rioforte Nuno Ferreira Santos

O fundo soberano da Venezuela estará em posição de assumir uma posição relevante no Grupo Espírito Santo (GES) por reconversão de dívida em capital e de novos investimentos. Esta terça-feira surgiram na comunicação social informações dando Amílcar Morais Pires como estando fora da corrida para substituir Ricardo Salgado e tendo sido recuperada a possibilidade de o próximo presidente executivo (CEO) do BES poder ser Joaquim Goes.

Nas última semanas, as notícias sobre o GES têm surgido em catadupa, o que acentua o contexto de turbulência à volta da família Espírito Santo e determinou a evolução errática do valor de mercado do BES. Depois do trambolhão das duas sessões anteriores, o banco fechou esta terça-feira a valorizar-se 13,79% (0,685 euros). Um sinal de que a decisão da CMVM de travar o caminho aos especuladores, proibindo o short-selling sobre as acções, teve efeito. E poderá ter havido igualmente movimentos compradores para sustentar o título.

Já ao início da noite , o
Expresso Diário avançava que a proposta de Morais Pires como próximo CEO do BES tinha caído. No “leilão público” de nomes a votar na próxima assembleia geral (AG) do BES, marcada para 31 de Julho, surge de novo o nome de Joaquim Goes, também da equipa de Ricardo Salgado, e que seria do agrado de Carlos Costa (governador do Banco de Portugal).

Em cima da mesa pode estar também o afastamento de Ricardo Salgado na corrida para líder do conselho estratégico, uma nova estrutura a criar fora dos órgãos estatutários (sem poder de decisão) e que visa acomodar os accionistas de referência, nomeadamente, a família Espírito Santo, mas também os institucionais – em especial os estrangeiros. Isso seria uma forma de responsabilizar o capital pelos actos da gestão.

Mas o PÚBLICO sabe que Carlos Costa só se pronunciará sobre o próximo CEO do BES e sobre o conselho estratégico antes da AG se lhe forem apresentadas listas carimbadas por uma larga maioria accionista (a de Morais Pires tinha apenas 25% do capital). Caso contrário, o BdP terá de esperar pela votação em reunião magna.

A agência de rating Standard & Poor’s comunicou que reviu o outlook do BES e do Banco Espírito Santo de Investimento (BESI) de "estável" para negativo", o que pode encarecer o custo a que as instituições se financiam. Para a S&P, “existem pressões crescentes sobre a situação financeira e sobre o negócio" e “a recente e inesperada demissão do presidente da comissão executiva do BES, bem como de vários dos seus administradores, a par das alterações propostas ao nível da gestão, no contexto de uma disputa entre os accionistas que controlam o banco, coloca desafios significativos à estabilidade da equipa de gestão e à sua focalização".

Antes, o negócios.pt tinha avançado com a informação de que a Petróleos da Venezuela adquiriu centenas de milhões de euros de papel comercial de curto prazo de sociedades da esfera não bancária do GES. A associação à empresa estatal, que funciona como fundo soberano da Venezuela, e que tem relações comerciais com o BES (com uma operação bancária em Caracas), abre as portas à entrada da Petróleos da Venezuela na Rioforte ou na Espírito Santo International (dona da Rioforte). Ou por reconversão da dívida em capital ou por novos investimentos que possibilitariam à petrolífera assumir uma participação relevante, ainda que inferior a 50%.

Foi também um dia animado para a Portugal Telecom (PT), que esteve no centro das movimentações ocorridas em Lisboa e em São Paulo (onde a parceira Oi tem a sede), destinadas a reduzir junto dos institucionais o impacto negativo do “apoio financeiro” de 890 milhões de euros que foi concedido pela operadora à Rioforte.

A dimensão da exposição da PT a dívida das holdings problemáticas do GES (emissão de papel comercial a três meses a vencer dentro de duas semanas) reorientou os holofotes do mercado para a empresa liderada por Henrique Granadeiro, que em apenas três sessões viu a sua a cotação cair para 2,42 euros, o valor a que negociava em 1996 (capitalização bolsista de 2286 milhões de euros).

Admite-se que o apoio da PT à Rioforte tenha sido articulado entre Ricardo Salgado, Henrique Granadeiro e o director financeiro da PT, Luís Pacheco de Melo (ex-BESI). Uma decisão que não agradou à brasileira Oi, em processo de fusão com a PT, como ficou expresso no pedido de renúncia dos seus representantes, Otávio de Azevedo e Fernando Magalhães Portella, do conselho de administração da PT.

O afastamento pode acentuar a brasileirização da empresa de telecomunicações nacional, pois Granadeiro, presidente executivo e chairman da PT, não submeteu a compra da dívida da Rioforte à administração. Para além da elevada exposição a um único devedor (quase mil milhões de euros), o investimento foi classificado como “não tendo racional estratégico”, pois a vocação da operadora não é emprestar dinheiro. No pressuposto, apenas teórico, de que a Rioforte não terá condições de pagar a dívida à PT, serão os investidores a responsabilizar-se pelo buraco.