Panteão Nacional abre esta quarta-feira as portas à grandeza poética e cívica de Sophia

Após uma cerimónia na qual nada será deixado ao acaso, e cujo programa está cheio de pequenos e grandes simbolismos, os restos mortais de Sophia serão esta quarta-feira depositados na Igreja de Santa Engrácia. Uma escolha que honra o Panteão.

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SSophia no jardim da sua casa na Travessa das Mónicas, em Lisboa, a 11 de Junho de 1999 Adriano Miranda
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Sophia foi homenageada há uma semana no Porto numa sessão que encheu o auditório da Casa da Música Miguel Nogueira
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Manuscrito com o poema de Sophia dedicado à revolução dos cravos e que faz parte do espólio doado à Biblioteca Nacional de Portugal pela família Rui Gaudêncio

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) entra esta quarta-feira no Panteão Nacional, quando se cumprem dez anos sobre a sua morte e se comemora o 40.º aniversário do 25 de Abril, esse “dia inicial inteiro e limpo”, como ela própria o descreveu naquele que é provavelmente o mais belo dos poemas dedicados à revolução dos cravos.

A ideia de trasladar os restos da escritora para o Panteão, na Igreja de Santa Engrácia, surgiu publicamente em Novembro do ano passado com um artigo que o escritor José Manuel dos Santos, ex-assessor cultural de Mário Soares e Jorge Sampaio, assinou no PÚBLICO. Ainda no final de 2013, por iniciativa dos deputados Marco Perestrello (PS) e Nuno Encarnação (PSD), a proposta chegou ao Parlamento, onde veio a ser aprovada por unanimidade em Fevereiro deste ano.

Um processo célere e que não provocou a menor controvérsia, o que não deixa de ser significativo, se tivermos em conta que Sophia é apenas a quinta personalidade a quem o regime democrático instaurado em 1974 concede esta honra. As anteriores foram Humberto Delgado, em 1990, Amália Rodrigues, em 2001, Manuel de Arriaga, em 2004 (sem dúvida a escolha mais surpreendente), e Aquilino Ribeiro, em 2007.

É possível que o século XX português tenha três ou quatro poetas (mais não terá) de grandeza equivalente à de Sophia. E algumas figuras que não desmereçam da sua integridade cívica e política. E outras que não terão sido menos amadas pelos seus concidadãos. Mas é difícil encontrar alguém que reúna todas estas características em tão alto grau.

E é justamente esse “encontro perfeito” entre “grandeza poética” e “exemplaridade cívica” que animaram José Manuel dos Santos a propor a entrada de Sophia no Panteão Nacional. Para lhe prestar o tributo que merece, mas também, assume, para revalorizar a própria instituição.

E o escritor está descansado quanto ao risco de esta cerimónia poder contribuir para “transformar Sophia num escritor oficial ou num poeta do regime”, porque, argumenta, “a sua poesia não permite essa apropriação”. E, ao contrário dos poetas que colocaram a sua arte ao serviço de um ideal, “a atitude política e cívica de Sophia decorre do seu entendimento da poesia”, observa ainda José Manuel dos Santos.

É a ele que caberá fazer esta quarta-feira a evocação da homenageada, numa cerimónia que foi pensada ao milímetro para garantir que todos os momentos encerrem algum simbolismo, algo que os ligue a Sophia e lhes dê razão de ser. “Tentarei falar dela como ela falou dos poetas que admirava”, diz José Manuel dos Santos, que sublinha que não se tratará de um elogio fúnebre, até porque a entrada no Panteão representa “uma espécie de ressurreição simbólica”.

Magnificat na Travessa das Mónicas

Os restos mortais de Sophia, exumados e colocados em urna há já alguns dias, sairão esta tarde do cemitério de Carnide, com escolta oficial, rumo à Capela do Rato, onde será celebrada uma missa, pelas 17h15, pelo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e pelo actual capelão, o padre e poeta José Tolentino Mendonça. Foi na Capela do Rato que ocorreram, em 1972, as célebres vigílias contra a ditadura e a guerra colonial promovidas por um grupo de católicos progressistas ao qual Sophia pertencia. A poeta já tinha, aliás, intervindo numa iniciativa semelhante organizada na Igreja de S. Domingos, também em Lisboa, na madrugada de 1 de Janeiro de 1969: uma vigília pela paz para a qual Sophia escreveu o poema
Cantata da Paz (“Vemos, ouvimos e lemos,/ não podemos ignorar”), depois cantado pelo padre antifascista Francisco Fanhais.

Prevê-se que a urna saia da Capela do Rato pelas 18h15 e que faça uma paragem na Assembleia da República (AR) – onde se lembrará que Sophia foi deputada constituinte (eleita em 1975 pelo círculo do Porto, numa lista do PS) –, seguindo depois para a Igreja de Santa Engrácia. É aqui, no Campo de Santa Clara, ainda no exterior do Panteão, que terá início, pelas 19h00, a cerimónia oficial. Na presença do Presidente da República, do primeiro-ministro e da presidente da AR, e depois de o Coro do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) interpretar o hino nacional, José Manuel dos Santos fará a evocação de Sophia.

Seguem-se um dueto do Lago dos Cisnes  e outro de Orfeu e Eurídice, ambos interpretados pela Companhia Nacional de Bailado. “Numa carta à mãe, Sophia fala com entusiasmo de ter ido ver a Margot Fonteyn dançar o Lago dos Cisnes”, lembra José Manuel dos Santos. Entre os dois bailados intervirá Assunção Esteves, e no final do segundo falará Cavaco Silva. Ouvir-se-ão ainda poemas de Sophia ditos pela própria, a partir de uma gravação de 1957, e as três principais figuras do Estado assinarão então o Termo de Sepultura no Panteão Nacional.

Se tudo tiver corrido como planeado, serão neste momento 20h e ouvir-se-á o Magnificat de Bach interpretado pelo Coro do TNSC. Mais uma escolha simbólica, já que a homenageada tinha uma predilecção por este cântico que a Virgem Maria entoa no evangelho de Lucas. Segundo José Manuel dos Santos, Sophia contava que, quando descobriu a casa da Travessa das Mónicas, achou logo que era a sua casa e sentiu-se tão grata que disse o Magnificat

Chegará então finalmente o momento em que a urna com os restos mortais da poeta transporá o limiar do Panteão Nacional, onde ficará depositada numa arca tumular. “Será uma cerimónia solene, mas não pomposa; oficial, mas com um simbolismo respeitador da figura de Sophia”, prevê José Manuel dos Santos.

Caminho da Manhã

Antecedendo a cerimónia desta quarta-feira, Sophia foi homenageada há uma semana no Porto, cidade onde nasceu e passou a infância e a primeira adolescência, dividindo-se entre a casa paterna, na Rua de António Cardoso, e a gigantesca quinta dos avós, no Campo Alegre. Na passada quarta-feira, dia 25, o público encheu o auditório principal da Casa da Música para assistir a esta evocação, promovida pela Porto Editora.


A sessão incluiu debates com diversos convidados, a interpretação de poemas de Sophia pelos actores Luís Miguel Cintra e Luísa Cruz e pela cantora lírica Dora Rodrigues, a projecção de um excerto do documentário Sophia (1969), de João César Monteiro, intervenções da poetisa Maria Andresen Sousa Tavares e do escritor e jornalista Miguel Sousa Tavares, filhos da escritora, e ainda, entre outros momentos, uma sentida homenagem da arquitecta paisagista Teresa Andresen à sua tia Sophia, que a acolheu em Lisboa enquanto frequentava a universidade.

Algumas das intervenções mais interessantes deveram-se ao ensaísta Carlos Mendes de Sousa, que soube entretecer considerações mais literárias com detalhes biográficos pouco conhecidos, como o do episódio em que a jovem Sofia foi apresentada a Miguel Torga como autora de versos e este terá comentado: “A menina é tão bonita que não precisava de escrever poemas.” Uma tirada que a “deixou furiosa”, diz Carlos Mendes de Sousa, e a levou a enviar uma série de poemas a Torga. Este percebeu então que a “menina” era mesmo um poeta para levar a sério e ajudou-a a imprimir o seu livro de estreia, Poesia (1944), nas gráficas da Coimbra Editora, onde ele próprio publicava os seus.  

Miguel Sousa Tavares, que fazia anos nesse dia – circunstância a que aludiu lembrando os “demasiados anos” que se cumpriam desde a primeira vez que a mãe lhe dissera “Miguel, olha o mundo!” –, foi responsável pela mais prolongada ovação da noite quando garantiu que Sophia, se fosse viva, se oporia ao novo acordo ortográfico.

Começou por ler um texto da mãe, Caminho da Manhã, um belíssimo poema em prosa de Livro Sexto (1962), no qual a autora indica a alguém (que não é identificado) o caminho a seguir até uma cidade de “pequenas ruas estreitas, direitas e brancas” e o que deve fazer depois de lá chegar. Também o lugar não é nomeado, mas Sousa Tavares explicou que a cidade descrita é Lagos: passavam férias de Verão ali perto, e Sophia ia a pé até à povoação, fazia compras no mercado e regressava depois de táxi a casa carregada com mantimentos para alimentar a sua numerosa família.

Sousa Tavares defendeu que Caminho da Manhã é uma espécie de texto-chave, que resumiria tudo o que é essencial na criação literária da mãe, da poesia e dos contos aos livros para crianças. Neste poema, Sophia sugere ao seu interlocutor que, ainda antes de entrar no mercado, olhe “um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim”. Depois dá-lhe instruções detalhadas sobre o que deve ver e comprar no mercado: “Ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar.”

Quando a pessoa a quem a autora se dirige já tem os cestos cheios de peixes, frutos, hortaliças, ramos de ervas aromáticas, é então tempo de regressar: “Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.” E Sophia conclui assim o texto: “Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.”

Se é evidente que o verdadeiro interlocutor de Sophia no poema é ela própria, a autora conta, numa entrevista de 1991 a José Carlos de Vasconcelos, a curiosa origem deste texto: “Muitas vezes eu ia a Lagos a pé, às compras. Outras vezes ia a empregada. Um dia ensinei-lhe o caminho e o que havia de comprar, etc., para ela fazer o que eu tinha feito sozinha na véspera. Depois de lhe dizer tudo isso, apercebi-me que aquilo era uma espécie de poema e escrevi mais ou menos o que lhe tinha dito. Chamei-lhe Caminho da Manhã.”

Sousa Tavares acha que se a poesia da mãe “continua deslumbrantemente actual”, é porque “toda a gente entende o que ela escreveu”. Mas a exemplaridade que vê em Caminho da Manhã não decorre apenas dessa limpidez, mas também do modo como este texto ilustra a verdadeira natureza da aliança que em Sophia sempre existiu entre poesia e ética. E que faz com que o próprio impulso que a leva à poesia a transforme inevitavelmente numa criatura ética, como ela própria explica na terceira das suas artes poéticas: “Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. (…) E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia.”

Do lado de Antígona

Se Miguel Sousa Tavares, ironizando com “a crítica bem pensante”, defendeu que a escrita da mãe “não precisa de crítica nem de explicações”, já a intervenção de Maria Andresen Sousa Tavares teve o mérito de nos lembrar que esta é também uma poesia culta, que não ignora de todo a tradição literária, e cuja clareza não é necessariamente isenta de uma dimensão enigmática.

Não que a filha de Sophia tenha expressamente dito isto. O que fez foi contrastar os poemas que tanto a sua mãe como o poeta grego Konstantínos Kaváfis (1863-1933), natural de Alexandria, dedicaram ao tópico homérico de Ítaca, a terra natal de Ulisses à qual o herói anseia regressar. Convicta de que a mãe lera o poema de Kaváfis, procurou demonstrar que Sophia se afasta, no entanto, da “serenidade estóica” que este propõe – a ideia de que a única coisa que Ítaca nos poderá dar é a viagem para Ítaca, e que devemos aproveitá-la sem pressa de chegar, porque todos os destinos são utópicos –, para se aproximar duma “tradição de contestação e revolta”, que radicaria antes na figura de Antígona. Essa que, nas palavras de Sophia, diz: “Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.”

A filha de Sophia argumenta ainda que a mãe introduziu subterraneamente no tema homérico a ideia da ressurreição. “Assim como não aceita a injustiça, numa perspectiva ética e política, também a morte não lhe parece aceitável”, diz. E daí que Sophia escreva: “Quando o barco rolar na escuridão fechada/ Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar/ Porque esta é a vigília de um segundo nascimento.”

A respeito da entrada de Sophia para o Panteão, disse ao PÚBLICO que “seria difícil” a qualquer família recusar esta distinção, e que está convencida de que a mãe não antipatizaria demasiado com a ideia. “Como todos os grandes artistas, gostava de reconhecimento.” A título pessoal confessa ter sido “seduzida pelo texto de José Manuel dos Santos”, mas crê que “só o futuro” – isto é: aquilo em que o Panteão Nacional se vier a tornar – “dirá se a família fez bem em aceitar”.