Alunos de Ciências chegam ao 10.º ano com menos chumbos e expectativas mais elevadas

Curso permite opções mais abrangentes no ensino superior e acesso a Medicina, o que explica estes resultados. Um oitavo dos estudantes chumba pelo menos uma vez antes de entrar no secundário.

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Daniel Rocha (arquivo)

Quando entram no ensino secundário, os alunos do curso de Ciências e Tecnologias (CT) são os que têm menos chumbos no currículo escolar e os que apresentam as expectativas mais elevadas quanto ao seu percurso académico e à entrada no mercado de trabalho. O facto de ser esta a opção que permite o acesso ao curso superior de Medicina, mas também o que é mais abrangente em termos de futuro, faz deste o preferido dos alunos, revela um estudo da Universidade de Évora (UE), apresentado esta terça-feira. De acordo com o mesmo documento, os estudantes têm pouca percepção do peso das questões sócio-económicas no seu percurso escolar, valorizando mais factores individuais.

O documento, que foi encomendado pela Direcção-Geral de Educação (DGE), mostra os números mais recentes de uma realidade já conhecida: um percurso marcado pelas retenções de uma parte considerável da população escolar. De acordo com Os Cursos Científico-Humanísticos e o Alargamento da Escolaridade Obrigatória, 12,4% dos alunos matriculados no primeiro ano do ensino secundário já tinham reprovado pelo menos uma vez e quase 2% tinham dois ou mais “chumbos” no currículo.

É nos cursos de Artes Visuais (26%) e Línguas e Humanidades (25%) que se concentram as maiores percentagens de estudantes que já chumbaram ao longo do seu percurso académico. Pelo contrário, apenas 8% dos que frequentam CT tiveram uma retenção durante os anos anteriores à entrada no secundário. Este é o primeiro indicador que dá destaque a esta opção entre os quatro cursos científico-humanísticos. Os alunos deste curso são também os alunos que mais recorrem a explicações – 45%, contra uma média global de 38,4% – e aqueles entre os quais há um peso relativo entre sexos mais equilibrado – há 52% de raparigas inscritas, chegando a ser 73% no caso de Humanidades.

Os cursos de CT são aqueles em que estão inscritos mais alunos no ensino superior, dividindo-se entre dois grupos: há os que têm “objectivos muito determinados”, especialmente a entrada num curso superior de Medicina, “mas também os que não sabem bem o que querem”, refere Marília Cid, coordenadora do estudo. Por ser mais abrangente, esta opção permite “abrir mais portas” e aceder a profissões de maior prestígio social, defende a investigadora.

É entre os estudantes de CT que a percepção de um maior reconhecimento profissional no futuro parece ter pesado na escolha do curso. Também os estudantes que manifestam expectativas mais altas são de CT e enquadram-se no seguinte perfil: são do sexo feminino e têm classificações médias no 2.º período do 10.º ano de Muito Bom (18 a 20 valores).

A investigação do Centro de Investigação em Educação e Psicologia da UE foi apresentada esta terça-feira, em Évora, e tenta avaliar os impactos do alargamento da escolaridade mínima obrigatória até aos 18 anos, que passou a ser válida para os alunos que se inscreveram no 10.º ano pela primeira vez no ano lectivo 2012/2013, baseando-se num inquérito aplicado a quase 5000 estudantes e em entrevistas com alunos, professores, pais e psicólogos.

O estudo aponta que os alunos consideram que as motivações para a escolha do curso são “intrínsecas” e que só “muito residualmente” admitem sido influenciados nessa opção por professores, pais ou amigos. No entanto, numa análise mais profunda potenciada pelas entrevistas, “acabam por confirmar que as escolhas são feitas com o apoio das famílias”, diz Marília Cid.

Os alunos do 10.º ano mostram também dificuldades em reconhecer o impacto que as condições sócio-económicas das suas famílias têm no seu percurso escolar. Apesar de um terço dos alunos beneficiar da Acção Social Escolar, os estudantes inquiridos entendem que o sucesso se centra muito no esforço e empenhamento individuais e factores como “o interesse, o gosto, a motivação, o estudo”.

“As respostas do questionário indicam uma posição tendencial de discordância absoluta face à asserção de que a falta de condições económicas da família possa constituir um problema que afecte o rendimento escolar do aluno”, lê-se no relatório. A resposta é apenas “meia-surpresa” para Marília Cid: “Não podemos esquecer que estamos apenas a falar da população que está inscrita em cursos científico-humanísticos no ensino secundário. Portanto, é já uma população seleccionada”.