Opinião

O dia da censura

Será que tudo isto se pode dizer? Um minuto antes da meia-noite sim, depois talvez não porque pode perturbar a paz dos espíritos, agora até prolongada e protegida por um novo prazo.

Hoje é o dia absurdo em que, mesmo que queira falar de certas coisas, não posso falar delas. Hoje é um dia em que há censura em nome do mesmo princípio com que houve censura durante quarenta e oito anos: proteger a paz dos espíritos dos portugueses para que eles se portem bem.

 É um absurdo em democracia e este absurdo soma-se a outros que começam a impregnar o tempo e o modo das campanhas eleitorais, acrescentando-se à já enorme decadência daquilo que foi uma das conquistas da democracia – a possibilidade de fazer livremente propaganda das suas ideias, programas e pessoas.

A culpa é de muita gente, do legislador em primeiro lugar, que podia mudar profundamente uma legislação eleitoral que já se revelou ultrapassada e perversa, e não o quer fazer porque isso prejudicaria os grandes partidos. É da Comissão Nacional de Eleições, que soma medidas contraditórias, algumas insensatas e caóticas, actuando pontualmente e sem nexo. É da comunicação social, que se revela muito tesa (e bem) para actuar em conjunto quando os seus interesses económicos estão em causa, e revela uma estranha complacência com esta forma de censura.

Significa que o faz por respeito pela lei? Nem isso, até porque a uma lei iníqua se pode responder com a desobediência cívica e custa-me a perceber por que razão a comunicação social recusa em conjunto esta forma de censura, que viola todos os critérios editoriais e jornalísticos, os únicos que deviam presidir à cobertura de uma campanha eleitoral. E faz ainda pior: responde às deliberações da CNE agravando ainda mais a já baixa qualidade da cobertura da campanha introduzindo critérios que favorecem as candidaturas dos grandes partidos, como já aconteceu nas autárquicas em detrimento das candidaturas independentes.

Não é possível tornar igual durante quinze dias o que é diferente durante anos, nem essa pseudo-igualdade dá qualquer vantagem aos pequenos partidos. Bem pelo contrário, acentua a sua pequenez e torna-os bizarros e folclóricos, que é também o modo de aproximação que favorece o incidentalismo da cobertura política dos nossos dias. Nem tem sentido que a igualdade nas campanhas – que deve ser assegurada por outros mecanismos, como seja, por exemplo, um efectivo controlo dos gastos em campanha, com uma severa limitação do seu montante, assim como dos financiamentos por debaixo da mesa – seja assente no abandono dos únicos critérios que devem presidir à reportagem política, o interesse editorial e jornalístico. Haveria assim uma competição pelo interesse e pela atenção dos media, que não evita desigualdades e injustiças, mas pode favorecer quem tenha alguma coisa para dizer. Nos países civilizados e democracias estabilizadas, ninguém espera que a cobertura do Labour inglês e dos Conservadores seja “equilibrada” com a do Monster Raving Loony Party, nem que haja silêncios pré-eleitorais obrigatórios.

O resultado conjugado de todos estes factores, que desaguam no mesmo pântano, é que é difícil ter uma campanha eleitoral pior do que a actual. Os candidatos e a campanha foram ao nível zero da política e encontraram na comunicação social o parceiro e o espelho ideais. Eles reduziram a campanha a encenações para a televisão e a televisão vai lá obediente cobrir aquilo que sabe que não tem nenhum valor informativo. E não venham agora hipocritamente queixar-se de que “ninguém discute a Europa”, quando nem candidatos nem jornalistas desejam a “chatice” desse debate quando há tanto incidente e anedota mais interessante!

Porque é que hoje, no balanço da campanha, no “dia da reflexão”, eu não o posso dizer? Se eu quiser escrever que foi penoso ver a “rua” dos candidatos, em particular, os da maioria, será que o posso dizer? Será que posso dizer que a “rua” desses candidatos foi uma completa mistificação para obter imagens televisivas, daquilo que foi um dolo total, um não-acontecimento, feito de toca e foge, para não haver sarilhos, será que o posso dizer? Será que posso escrever que foi também penoso ver os líderes do PSD, chamados à campanha pelo mestre da coreografia mediática, numa pirueta do tipo das que os seus discípulos na comunicação social gostam muito, e totalmente vazia de significado político, e depois terem tanta vergonha dos candidatos e da campanha que chegaram às suas imediações pestíferas... para irem apoiar o candidato luxemburguês ou dizerem que “votem A ou B, o que conta é votarem”? Será que posso falar da indigência dos candidatos da maioria, a fazer campanha contra um primeiro-ministro do passado, como se agora o PS resolvesse fazer uma campanha contra Santana Lopes? Ou, do vai-não-vai de Mário Soares, à campanha do super-homem da Juventude Socialista de peito feito em que uma caneta inscreve a fogo ou a sangue uma cruz? Ou de como o selfie do PS é uma afronta aos direitos humanos da câmara fotográfica que teve de rebaixar a sua condição de telefone inteligente para minimizar o ar de parvos dos fotografados, que é o aspecto que os selfies dão às pessoas? Será que posso hoje falar em nome dos direitos da máquina, obrigada a estas violências? Será que posso escrever que a campanha de Marinho e Pinto, a única campanha dos pequenos partidos que, por puros critérios jornalísticos, devia ter uma muito maior cobertura, até porque o seu populismo é uma “fruta da época” que exige atenção, foi a mais prejudicada de todas por critérios que favorecem sempre PSD, CDS, e PS? Será que posso dizer que a campanha mais verdadeira, menos enganadora, aquela em que o que há é o que se viu, foi o retrato cruel da solidão política do POUS, no momento em que as televisões filmaram solitária, com a mesma faixa sempre reciclada, Carmelinda Pereira à porta de uma fábrica? Ou dizer aquilo que é evidente que a única campanha que não teve medo da “rua” foi a da CDU, porque é o que é, e a mais não se sente obrigada? E está hoje, como sempre, melhor entre os velhos de Serpa, do que a do PSD-CDS que nem sequer já tem o “cavaquistão”?

E a Europa? A Europa vai levar em cima com a enorme abstenção, que esse é o único voto que é sobre a Europa, sobre o estado actual da União e os seus mandantes, visto que todos os outros são contra ou a favor do Governo. Duvido que, com excepção da minha amiga Teresa de Sousa, haja alguém que vá lá votar por qualquer coisa vagamente europeia, a que nem a alma de Jean Monnet dá hoje vida.

Será que tudo isto se pode dizer? Um minuto antes da meia-noite sim, depois talvez não, porque pode perturbar a paz dos espíritos, agora até prolongada e protegida por um novo prazo a partir do qual se podem conhecer os resultados, não aquele em que as urnas fecham em Portugal, mas aquele em que os últimos eleitores de Reggio de Calábria vão votar. Trata-se de mais uma imposição, a da hora “europeia” de encerramento das urnas, que é aceite em Portugal sem lei, apenas pela obediência a uma ficção, a de que um eleitor de Limerick vai ficar muito impressionado pelos votos no senhor Seguro (logo no senhor Shultz) na ocidental praia lusitana.

Claro que, como é óbvio, no momento em que escrevo este artigo, já sei alguns resultados de outros países, onde não se aceitam estas restrições sem sentido, destinadas a dar corpo a uma coisa que não existe: um eleitorado europeu com motivações europeias que unem o cidadão que vota em Arezzo com o que vota em Knokke-le-Zoute ou na Lourinhã. Basta aliás enumerar estes nomes de honestas terras europeias para perceber toda esta ficção. E será que posso falar disto hoje, quase como obrigação da consciência, ou não posso ter consciência neste “dia de reflexão”?

Historiador