Opinião

“O bezerro de ouro”

Todo o centro histórico está, através de uma “gentrificação” especulativa, a ser transformado num “gueto” do turismo de massas.

Portugal submisso acordou “limpo”. Sentido-se culpado e tímido desde a descolonização, aceitou a condenação e a sentença impostas por outros. Sente-se agora aliviado por uma solução também imposta por outros, e restabelecido com plenas honras no clube a que deseja desesperadamente pertencer.

Esta saída foi comemorada simbolicamente por duas “entradas”.

A primeira foi ilustrada através de viagem iniciática ao Portugal renascido para a banca internacional, num barquinho viajando através de um Portugal de cartolina, agora já não dos “pequeninos” mas dos pequeníssimos.

A segunda, esta de maior escala, pela visita de três paquetes históricos, mensageiros das promessas do novo “bezerro de ouro”, o turismo de massas.

Foi com grande regozijo esperançado que recebemos este sinal de um futuro promissor.

Enquanto a juventude portuguesa parte, a tal que iria construir Portugal de forma sustentada, aqueles que irão trazer dinheiro de forma instantânea chegam.

De resto, Manuel Salgado e Costa já desenvolveram e garantiram o décor e palco para o culto deste “bezerro de ouro”.

Assim, todo o centro histórico está, através de uma “gentrificação” especulativa, a ser transformado num “gueto” do turismo de massas.

O planeamento e construção de hotéis não pára. A entrega de todo o património pombalino às imobiliárias, exclusivamente para habitação de luxo, está já vitoriosamente, ajudada pelos vistos gold, a aumentar os preços.

Há promessas de que muitos reformados do Norte da Europa se instalem, usufruindo da docilidade natural local, anestesiada pela crise e pela confirmação de dependência e inferioridade.

O mundo das imobiliárias e da construção espera agora desesperadamente que lhe entreguem todo o centro histórico, em nome da famigerada “reabilitação urbana”.

As poucas famílias locais que se instalaram nos “bairros históricos” são agora obrigadas a transformarem as suas habitações num gigantesco negócio de estadias temporárias, simultaneamente tentando escapar ao barulho e lixo permanentes, garantidos pela “animação do 'Zé'”, que estão a tornar Lisboa inabitável.

Está assim garantida a transformação de toda a Lisboa, não em cidade apropriada e vivida pelos residentes locais com identidade própria, mas sim em produto de consumo efémero e temporário, palco globalizado pronto a ser devorado pelo turismo de massas.

Barcelona produziu um documentário dirigido de forma muito crítica às consequências para a cidade e os seus habitantes de um turismo massificado.

São conhecidas as quatro fases progressivas das reacções locais aos efeitos do turismo de massas: euforia, apatia, irritação e antagonismo.

Estamos simultaneamente na fase de euforia e de apatia.

Apatia perante as consequências da estratégia delineada por Manuel Salgado, que não só destrói todos os interiores do património pombalino, mas leva a uma “demolição” sociológica de ocupação, muito mais grave. Um centro histórico ocupado apenas por ricos ou turistas, sem identidade ou famílias locais, produto temporário e décor efémero pronto a ser devorado.

Não tardará muito que se passe à fase da irritação. Se se passará à fase do antagonismo, duvido.

De qualquer maneira, este é um processo irreversível e imparável.

Por detrás do altar do “bezerro de ouro” esconde-se a plataforma de sacrifício onde milhares de cordeiros dóceis, com a corda ao pescoço, aguardam a matança.

Historiador de Arquitectura